Dom Casmurro

abril 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Robert Bly

Texto publicado na edição #191

Poemas de Robert Bly

Robert Bly é um divulgador da poesia latino-americana nos Estados Unidos

> Por André Caramuru Aubert

O poeta Robert Bly

O poeta Robert Bly

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

A universidade Harvard teve um grupo de alunos, entre o fim dos anos 1940 e começo dos 1950, que marcaria decisivamente a poesia norte-americana de lá para cá. Naquelas salas de aula estavam, entre outros, Frank O’Hara, John Ashbery, Adrienne Rich, Donald Hall, Kenneth Koch e Robert Bly (1926). O primeiro livro de poemas deste, Silence in the Snowy Fields, de 1962, trouxe reconhecimento imediato e se tornou um dos trabalhos mais influentes da época. Pouco tempo depois, em 1968, o autor ganharia o National Book Award com The light around the body, seu terceiro livro. Bly é um crítico dos modernistas norte-americanos (como Pound, Eliot e Williams), preferindo se inspirar em europeus (como Rilke e Lorca) e sul-americanos (como Neruda e Vallejo). Essa preferência acabou fazendo com que, além de um excepcional poeta, Bly se tornasse um grande divulgador e tradutor de poesia europeia e latino-americana para a língua inglesa.

Waiting for night to come

I.
How much I long for the night to come
Again — I am restless all afternoon —
And the huge stars to appear
All over the heavens!… The black spaces between stars…
And the blue to fade away.

II.
I worked on poems with my back to the window,
Waiting for the darkness that I remember
Noticing from my cradle.
When I step over and open the door, I am
A salmon slipping over the gravel into the ocean.

III.
One star stands alone in the western darkness:
Arcturus. Caught in their love, the Arabs called it
The Keeper of Heaven. I think
It was in the womb that I received
The thirst for the dark heavens.

 

Esperando a noite chegar

I.
O tanto que eu anseio pela chegada da noite
De novo — eu fico impaciente a tarde inteira—
E o aparecimento das grandes estrelas
Espalhadas por todo o céu!… O espaço negro entre as estrelas…
E o azul que se dissolve.

II.
Eu trabalhei em poemas de costas para a janela,
Esperando pela escuridão da qual me lembro
Notar desde o meu berço.
Quando eu me afasto e abro a porta, eu sou
Um salmão escorregando sobre cascalho para ir ao mar.

III.
Uma estrela se destaca sozinha na escuridão do Oeste:
Arcturo: capturados em seu amor, os árabes a chamaram de
O Guardião do Paraíso. Eu acho
Que foi no ventre que eu recebi
A sede pela escuridão do céu.

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The russian

“The Russians had few doctors on the front line.
My father’s job was this: after the battle
Was over, he’d walk among the men hit,
Sit down and ask: ‘Would you like to die on your
Own in a few hours, or should I finish it?’
Most said: ‘Don’t leave me.’ The two would have
A cigarette. He’d take out his small notebook —
We had no dog tags, you know — and write the man’s
Name down, his wife’s, his children, his address, and what
He wanted to say. When the cigarette was done,
The soldier would turn his head to the side. My father
Finished off four hundred men that way during the war.
He never went crazy. They were his people.

He came to Toronto. My father in the summers
Would stand on the lawn with a hose, watering
The grass that way. It took a long time. He’d talk
To the moon, to the wind. ‘I can hear you growing’ —
He’d say to the grass. ‘We come and go.
We’re no different from each other. We are all
Part of something. We have a home.’ When I was thirteen,
I said, ‘Dad, do you know they’ve invented sprinklers
Now?’ He went on watering the grass.
‘This is my life. Just shut up if you don’t understand it.’”

 

O russo

“Os russos tinham poucos médicos na linha de frente.
O trabalho de meu pai era o seguinte: depois que a batalha
Terminava, ele caminhava entre os soldados feridos,
Se sentava e perguntava: ‘Você prefere morrer por conta
Própria em algumas horas, ou posso finalizar isso?’
A maioria dizia: ‘Não me deixe aqui.’ Os dois fumavam
Um cigarro. Ele então pegava sua caderneta — nós não
Tínhamos colares de identificação, você sabe — e escrevia o
Nome do homem, de sua esposa, dos filhos, o endereço e
Qualquer coisa que ele quisesse dizer. Quando o cigarro acabava,
O soldado virava a cabeça de lado. Meu pai finalizou
Quatrocentos homens daquele jeito durante a guerra.
Ele jamais enlouqueceu. Aquele era o seu povo.

Ele veio para Toronto. Meu pai, nos verões,
Ficava parado no jardim com uma mangueira, molhando,
Daquele jeito, a grama. Aquilo demorava bastante. Ele conversava
Com a lua, com o vento. ‘Eu posso te ouvir crescendo’ —
Ele dizia para a grama. ‘Nós chegamos e nós vamos embora.
Não somos diferentes um do outro. Nós todos somos
Parte de alguma coisa. Nós temos um lar.’ Quando eu tinha treze anos
Eu disse, ‘Pai, você sabe que os aspersores já foram
Inventados?’ Ele seguiu regando a grama.
‘Essa é a minha vida. Apenas cale a boca se você não entende’.”

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Come live with me

Driving among the moraine hills
Near Battle Lake, around Vining.
I admire the hand-cut fenceposts,
The orchards, the hay stored for winter.

I want you to come with me and see
The cowtracks winding down the hills,
The chunks of oak piled for winter,
The small lakes folded in and gleaming.

 

Venha viver comigo

Dirigindo entre colinas pedregosas
Junto ao Lago Battle, perto de Vining,
Eu admiro os mourões feitos à mão,
Os pomares, o feno armazenado para o inverno.

Eu quero que você venha comigo e veja
Os caminhos que o gado cria descendo as colinas,
As achas de lenha empilhadas para o inverno,
As pequenas lagoas escondidas e cintilantes.

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A dream of an afternoon with a woman I did not know

I woke up, and went out. Not yet dawn.
A rooster claimed he was the sickle moon.
The windmill was a ladder that ended at a gray cloud.
A feed grinder was growling at a nearby farm.

Frost has made clouds of the weeds overnight.
In my dream we stopped for coffee. We sat alone
Near a fireplace, near delicate cups.
I loved that afternoon, and the rest of my life.

 

Um sonho de uma tarde com uma mulher que eu não conhecia

Eu me levantei e fui para fora. Não era ainda a aurora.
Um galo pensou que era a lua crescente.
O moinho de vento era uma escada que ia até uma nuvem cinzenta.
Uma máquina de moer rugia numa fazenda próxima.

A geada à noite fez subir nuvens do pasto.
No meu sonho nós paramos para um café. Nos sentamos a sós
Junto a uma lareira, junto a delicados potes.
Eu amei aquela tarde, e o resto da minha vida.

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Stealing sugar from the castle

We are poor students who stay after school to study joy.
We are like those birds in the India mountains.
I am a widow whose child is her only joy.

The only thing I hold in my ant-like head
Is the builder’s plan of the castle of sugar.
Just to steal one grain of sugar is a joy!

Like a bird, we fly out of darkness into the hall,
Which is lit with singing, then fly out again.
Being shut out of the warm hall is also a joy.

I am a laggard, a loafer, and an idiot. But I love
To read about those who caught one glimpse
Of the Face, and died twenty years later in joy.

I don’t mind your saying I will die soon.
Even in the sound of the word soon, I hear
The word you which begins every sentence of joy.

“You are a thief!” the judge said. “Let’s see
Your hands!” I showed my callused hands in court.
My sentence was a thousand years of joy.

 

Roubando açúcar do castelo

Nós somos estudantes pobres que ficam depois da aula para estudar alegria.
Nós somos como aqueles pássaros nas montanhas da Índia.
Eu sou uma viúva cujo filho é a única alegria.

A única coisa que eu carrego na minha cabeça de formiga
É a planta de construção do castelo de açúcar.
Conseguir roubar um único grão de açúcar é uma alegria!

Como um pássaro, nós voamos desde a escuridão até a sala,
A qual é iluminada com canções, então voamos para fora.
Ser expelido para fora da sala aquecida também é uma alegria.

Eu sou um preguiçoso, um vadio e um idiota. Mas eu amo
Ler a respeito de quem teve um vislumbre
Do Rosto, e morreu vinte anos depois com alegria.

Eu não me importo de você dizer que vou morrer logo.
Mesmo no som da palavra logo, eu ouço
A palavra você, que começa todas a frases de alegria.

“Você é um ladrão!”, disse o juiz. “Vamos ver as
Suas mãos!” Eu mostrei minhas mãos calejadas no tribunal.
Minha sentença foi de mil anos de alegria.

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When my dead father called

Last night I dreamt my father called to us.
He was stuck somewhere. It took us
A long time to dress, I don’t know why.
The night was snowy; there were long black roads.

Finally, we reached the little town, Bellingham.
There he stood, by a streetlamp in cold wind,
Snow blowing along the sidewalk. I noticed
The uneven sort of shoes that men wore

In the early Forties. And overalls. He was smoking.
Why did it take us so long to get going? Perhaps
He left us somewhere once, or did I simply
Forget he was alone in winter in some town?

 

Quando meu falecido pai telefonou

Na noite passada eu sonhei que meu pai nos chamou
Ele estava enrolado em um lugar qualquer. Nós levamos
Um tempão para nos vestir, eu não sei por quê.
A noite estava nevando; havia longas estradas negras.

Finalmente chegamos na cidadezinha, Bellingham.
E lá ele estava, sob um poste de luz no vento frio,
Neve soprando pelas calçadas. Eu percebi
Os sapatos esquisitos que os homens calçavam

No começo dos anos quarenta. E macacão. Ele estava fumando.
Por que foi que levamos tanto tempo para nos ir? Talvez
Ele nos tenha deixado uma vez em algum lugar, ou será que eu simplesmente
Me esqueci que ele estava sozinho, no inverno, em alguma cidade?

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In the month of May

In the month of May, when all leaves open,
I see when I walk how well all things
Lean on each other, how the bees work,
The fish make their living the first day.
Monarchs fly high; then I understand
I love you with what in me is unfinished.

I love you with what in me is still
Changing, what has no head or arms
Or legs, what has not found its body.
And why shouldn’t the miraculous,
Caught on this earth, visit
The old man alone in his hut?

And why shouldn’t Gabriel, who loves honey,
Be fed with our own radishes and walnuts?
And lovers, tough ones, how many there are
Whose holy bodies are not yet born.
Along the roads, I see so many places
I would like us to spend the night.

 

No mês de maio

No mês de maio, quando todas as folhas se abrem,
Eu vejo quando caminho quão bem todas as coisas
Dependem umas das outras, como as abelhas trabalham,
Os peixes vão vivendo no primeiro dia.
Borboletas monarcas voam alto; então eu compreendo
Eu te amo com o que em mim não está terminado.

Eu te amo com o que em mim ainda está
Mudando, o que não tem cabeça ou braços
Ou pernas, o que não encontrou um corpo.
E por que não poderia o milagroso,
Surpreendido nesta terra, visitar
O velho homem sozinho em seu chalé?

E por que Gabriel não poderia, ele que adora mel,
Ser alimentado com nossos próprios rabanetes e nozes?
E amantes, briguentos, quantos deles existem
Cujos corpos sagrados ainda nem nasceram.
Ao longo das estradas, eu vejo tantos lugares nos quais
Eu gostaria que nós passássemos a noite.

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Tristan and Isolde

The glad body sings its four-leggéd tunes.
It has its honesty. Lovers know the obstinacy
Of the animal, the grunts that say to spirit,
Gone, gone! The awl pulls from the leather;
The thread pulls from the needle’s eye. Later
He seems good to her eyes, like a waterhole
Muddied by animals. Tristan and Isolde
Love their bawdy lodge, no north, no south.

 

Tristão e Isolda

O corpo feliz canta suas melodias de quatro patas.
Ele tem sua honestidade. Amantes conhecem a teimosia
Do animal, os grunhidos que falam à alma,
Foi, foi! O furador deixa o couro;
O fio deixa o buraco da agulha. Mais tarde
Ele parece bom aos olhos dela, como um olho d’água
Deixado barrento por animais. Tristão e Isolda
Amam sua cabana obscena, sem norte, sem sul.

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