Dom Casmurro

junho 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Richard Hugo

Texto publicado na edição #193

Poemas de Richard Hugo

Richard Hugo era o exemplo vivo de que o universal se atinge pelo local

> Por André Caramuru Aubert

O poeta Richard Hugo

O poeta Richard Hugo

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Richard Hugo (Richard Franklin Hogan, 1923-1982), pertencente a mais prolífica geração de poetas norte-americanos, conseguiu a proeza de ter sua obra amada e respeitada mesmo sendo ele alguém do Oeste que jamais deixou sua região, ao contrário de quase todos os seus contemporâneos, que migraram para Nova York ou San Francisco. E Hugo foi ainda mais longe, literalmente: nascido em Seattle, então uma cidade bem menor do que é hoje, migrou para o ainda mais remoto estado de Montana, em cuja universidade lecionou. Ele era o exemplo vivo (e ensinava isso aos alunos) de que o universal se atinge pelo local, que a essência do cosmos vive em sua aldeia, que basta saber ver e traduzir.

Abandonado por pai e mãe e criado por avós, Hugo entrou para a Força Aérea e participou da Segunda Guerra, na Europa, de onde voltou condecorado. Ele conseguiu estudar na Universidade de Washington (onde foi aluno de Theodor Roethke) por conta da lei que concedia bolsas de estudo para veteranos de guerra. Depois disso ele escreveria incessantemente, sempre lutando contra a depressão e o alcoolismo, até morrer, aos 52 anos, de leucemia. Seus poemas oscilam entre a contemplação da beleza das paisagens e os dramas das almas solitárias das cidadezinhas, dos bares e das estradas nas quais viveu.

Driving Montana

The day is a woman who loves you. Open.
Deer drink close to the road and magpies
spray from your car. Miles from any town
your radio comes in strong, unlikely
Mozart from Belgrade, rock and roll
from Butte. Whatever the next number,
you want to hear it. Never has your Buick
found this forward a gear. Even
the tuna salad in Reedpoint is good.

Towns arrive ahead of imagined schedule.
Absorakee at one. Or arrive so late —
Silesia at nine — you recreate the day.
Where did you stop along the road
and have fun? Was there a runaway horse?
Did you park at that house, the one
alone in a void of grain, white with green
trim and red fence, where you know you lived
once? You remembered the ringing creek,
the soft brown forms of far off bison.
You must have stayed hours, then drove on.
In the motel you know you’d never seen it before.

Tomorrow will open again, the sky wide
as the mouth of a wild girl, friable
clouds you lose yourself to. You are lost
in miles of land without people, without
one fear of being found, in the dash
of rabbits, soar of antelope, swirl
merge and clatter of streams.

 

Dirigindo em Montana

O dia é uma mulher que te ama. Aberto.
Veados bebem junto à estrada e corvos
fogem de seu carro. A milhas de qualquer cidade
seu rádio desperta forte, num improvável
Mozart de Belgrado, e rock and roll de
Butte[1]. Seja lá qual for o próximo número,
você quer ouvir. Jamais o seu Buick
encontrou uma marcha tão segura. Até
a salada de atum em Reedpoint é boa.

Cidades chegam antes do horário imaginado.
Absorakee à uma. Ou chegam muito tarde —
Silésia às nove — você recria o dia.
Onde foi que você parou junto à estrada
e se divertiu? Aquilo era um cavalo em fuga?
Você estacionou naquela casa, aquela
perdida em uma imensidão de grãos, branca com
vigas verdes e cerca vermelha, na qual você sabe que um dia
viveu? Você se lembrou do riacho ruidoso,
das formas suaves do extinto búfalo.
Você deve ter ficado horas por ali, depois foi embora.
No hotel que você sabia jamais ter visto antes.

Amanhã irá se abrir novamente, o céu imenso
como a boca de uma garota selvagem, nuvens
frágeis nas quais você irá se perder. Você está perdido
em milhas de terra sem gente, sem que
se tenha medo de ser achado, na agitação
dos coelhos, no voo dos antílopes, nos redemoinhos
barulhentos dos encontros de riachos.

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What thou lovest well remains American

You remember the name was Jensen. She seemed old
always alone inside, face pasted gray to the window,
and mail never came. Two blocks down, the Grubskis
went insane. George played rotten trombone
Easter when they flew the flag. Wild roses
remind you the roads were gravel and vacant lots
the rule. Poverty was real, wallet and spirit,
and each day slow as church. You remember threadbare
church groups on the corner, howling their faith
at stars, and the violent Holy Rollers
renting that barn for their annual violent sing
and the barn burned down when you came back from war.
Knowing the people you knew then are dead,
you try to believe these roads paved are improved,
the neighbors, moved in while you were away, good-looking,
their dogs well fed. You still have need
to remember lots empty and fern.
Lawns well trimmed remind you of the train
your wife took one day forever, some far empty town
the odd name you never recall. The time: 6:23.
The day: October 9. The year remains a blur.
You blame this neighborhood for your failure.
In some vague way, the Grubskis degraded you
beyond repair. And you know you must play again
and again Mrs. Jensen pale at her window, must hear
the foul music over the good slide of traffic.
You loved them well and they remain, still with nothing
to do, no money and no will. Loved them, and the gray
that was their disease you carry for extra food
in case you’re stranded in some odd empty town
and need hungry lovers for friends, and need feel
you are welcome in the secret club they have formed.

 

O que tu amas permanece americano

Você se lembra que o nome era Jensen. Ela parecia velha
sempre sozinha do lado de dentro, o rosto fundido ao cinza da janela,
e cartas jamais chegavam. Duas quadras abaixo, os Grubskis
ficaram loucos. George tocava um trombone quebrado
Páscoa quando eles hasteavam a bandeira. Rosas selvagens
o fazem lembrar que as estradas eram de cascalho e terras vazias
a regra. A pobreza era real, na carteira e na alma,
e cada dia lento como igreja. Você se lembra dos grupos
da igreja, puídos, na esquina, bramindo sua fé
para as estrelas, e os violentos pentecostais
alugando aquele celeiro para o seu violento cântico anual
e o celeiro incendiado quando você voltou da guerra.
Conhecendo as pessoas que você então sabia estarem mortas,
você tenta acreditar que estas estradas pavimentadas são melhores, que
os vizinhos, que chegaram enquanto você estava fora, têm boa aparência,
seus cachorros bem alimentados. Você ainda precisa
se lembrar das terras vazias e das samambaias.
Quintais bem cuidados lembram do trem que
sua esposa pegou um dia para sempre, de alguma remota cidade vazia,
o nome estranho você nunca lembrou. A hora: 6:23.
O dia: 9 de outubro. O ano permanece uma névoa.
Você culpa seus vizinhos pelo seu fracasso.
De alguma vaga maneira, os Grubskis o degradaram
para além de uma recuperação. E você sabe que precisa rever de
novo e de novo a senhora Jensen pálida em sua janela, precisa ouvir
a música sórdida acima do agradável fluir do trânsito.
Você os amou bastante e eles permanecem, ainda sem nada
o que fazer, sem dinheiro nem ambição. Os amou, e o cinza
que era a doença deles você carrega como comida extra
no caso de ficar encalhado em alguma esquisita cidade vazia
e precisar de amantes sedentos como amigos, e precisar se
sentir bem recebido no clube secreto que eles formaram.

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Resulting from magnetic interference

These are strange shores. No sand.
No oysters. No slant to the earth
yet the water ends.
It is shore only because there is water
and land.

Stars are Asiatic, a dove stark.
We hear the leaves become bizarre
and nothing is in flight:
old gull symbol of a one to one dream,
a dull wren.

We can see the tragic forming
hurricane and victim;
and a man comes like a cat
to wait by the colorless forest,
his blue hands stuttering welcome.

 

Resultado da interferência magnética

Estes são litorais estranhos. Sem areia.
Sem ostras. Sem um declive até a terra
e no entanto a água termina.
É mesmo um litoral porque há a água
e a terra.

Estrelas são asiáticas, a rigidez de um pombo.
Nós ouvimos as folhas ficarem esquisitas
e nada está voando:
velha gaivota símbolo de um sonho de contato,
um passarinho entediado.

Podemos ver a trágica formação
de furacão e vítima:
e um homem chega como um gato
para esperar junto à desbotada floresta,
suas mãos azuis repetindo boas-vindas.

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Neighbor

The drunk who lives across the street from us
fell in our garden, on the beet patch
yesterday. So polite. Pardon me,
he said. He had to be helped up and held,
steered home and put to bed, declaring
we got to have another drink and smile.

I admit my envy. I’ve found him in salal
and flat on his face in lettuce, and bent
and snoring by that thick stump full of rain
we used to sail destroyers on.
And I’ve carried him home so often
stone to the rain and me, and cheerful.

I try to guess what’s in that dim warm mind.
Does he think about horizoned firs
black against the light, thirty years
ago, and the good girl — what’s her name —
believing, or think about the dog
he beat to death that day in Carbonado?

I hear he’s dead, and wait now on my porch.
He must be in his shack. The wagon’s
due to come and take him where they take
late alcoholics, probably called Farm’s End.
I plan my frown, certain he’ll be carried out
bleeding from the corners of his grin.

 

Vizinho

O bêbado que vive do outro lado da rua
caiu no nosso jardim, no canteiro de beterrabas
ontem. Tão polido. Me perdoe,
ele disse. Ele precisou ser ajudado e carregado,
levado para casa e colocado na cama, afirmando
que nós precisávamos beber mais uma e sorriso.

Eu admito minha inveja. Eu o encontrei num arbusto
e sua face espalhada em alface, e arqueado
e roncando junto àquele grosso toco repleto de chuva
no qual nós costumávamos navegar com nossos destróieres.
E eu o carreguei até sua casa tantas vezes
tomando chuva, duro como uma pedra, e feliz.
Eu tento adivinhar o que há naquela cabeça turva.
Será que ele pensa em horizontes de pinheiros
negros contra a luz, trinta anos
atrás, e aquela boa garota — qual era o seu nome —
crente, ou pensa no cachorro
que ele surrou até a morte em Carbonado?

Eu ouvi dizer que ele morreu, e espero no meu alpendre.
Ele deve estar no seu chalé. O carro deve
chegar para levá-lo para onde eles levam os bêbados
de fim de noite, provavelmente chamado de Fim das Terras.
Eu planejo minha reprovação, certamente ele será carregado
sangrando nos cantos de sua boca sorridente.

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G.I. Graves in Tuscany

They still seem G.I., the uniform lines
of white crosses, the gleam that rolls
white drums over the lawn. Machines
that cut the grass left their maneuvers plain.
Our flag doesn’t seem silly though plainly
it flies only because there is wind.

Let them go by. I don’t want to turn in.
After ten minutes I’d be sick of their names
of the names of their towns. Then
some guide would offer a tour
for two thousand lire, smiling the places
of battle, feigning hate for the Krauts.
I guess visitors come. A cross here and there
is rooted in flowers. Maybe in Scranton
a woman is saving. Maybe in books
what happened and why is worked out.

The loss is so damn gross. I remember
a washtub of salad in basic, blacktop acres
of men waiting to march, passing three hours
of bombers, en route to Vienna, and bombing
and passing two hours of planes, coming back.
Numbers are vulgar. If I stayed
I’d count the men in years of probable loss.

I’m a liar. I’m frightened to stop.
Afraid of a speech I might make,
corny over some stone with a name
that indicates Slavic descent — you there,
you must be first generation,
I’m third. The farm, I’m told, was hard
but it all means something. Think
of Jefferson, on the Constitution,
not of these children
beside me, bumming a smoke and laughing.

 

Sepulturas dos soldados americanos na Toscana

Eles ainda se parecem como soldados, as linhas uniformes
de cruzes brancas, a centelha que se espalha
tambores brancos sobre o terreno. Máquinas
que cortam a grama deixam planas suas manobras.
Nossa bandeira não parece ingênua enquanto ela
se agita porque há vento.

Deixe que eles se vão. Eu não quero entrar aí.
Depois de dez minutos eu ficaria doente com seus nomes,
e os nomes de suas cidades. Então
algum guia ofereceria um tour
por duas mil liras, apontando os locais
das batalhas, simulando raiva dos Krauts[2].
Eu penso que visitantes vêm. Uma cruz aqui, outra ali
está cheia de flores. Talvez em Scranton
uma mulher esteja lembrando. Talvez nos livros
o que aconteceu e por que deu certo.

A perda é danada de grande. Eu me lembro
de uma tina de salada em simples, áreas de asfalto
de homens aguardando para marchar, três horas de
bombardeiros passando, em direção a Viena, e bombardeando
e duas horas de aviões passando, de volta.
Números são vulgares. Se eu ficasse
eu contaria os homens em anos de prováveis perdas.

Eu sou um mentiroso. Eu estou ansioso para ficar.
Com medo do discurso que eu poderia fazer,
banal, a respeito de algum jazigo com um nome
que indicasse origem eslava — você aí,
você deve ser da primeira geração,
eu sou da terceira. A fazenda, me disseram, era dura
mas tudo isso tem um sentido. Pense
em Jefferson, na Constituição,
não nessas crianças
atrás de mim, pedindo um cigarro e rindo.

>>>

In your small dream

A small town slanted on a slight hill
in barren land. First building you see:
red brick with oriental trim. You say,
“A unique building,” and the road forks
into three. Road left, brief with old men
leaning on brick walls. They frown the sun away.
Middle road, oblique and long. Same red brick
buildings but without the trim. Same drab
roasting buildings. Young men and cafes.
You call it Main Street. The third road
you never see. You walk up Main Street.
You are hungry. You take this opportunity
to eat. You have no money. They throw you out.
You return to the brief street. You ask old men
“Where’s the unique building?” They frown
and turn away. You say, “I am a friend.”
You know wind will level this town.
You say, “Get out. The wind is on its way.”
The old men frown. The day darkens. You look
hard for the third road. You ask a giant, “Where?”
The giant glowers, “The third road is severe.”
You run and run. You cannot leave the town.

 

Em seu pequeno sonho

Uma pequena cidade sobre o declive de uma colina
em terra estéril. Você vê primeiro a construção:
tijolos vermelhos e ornamentos orientais. Você diz,
“Um edifício único”, e a rua se divide
em três. A da esquerda, curta com homens velhos
apoiados em paredes de tijolos. Sobrancelhas franzidas contra o sol.
A rua do meio, oblíqua e longa. Os mesmos prédios
de tijolos vermelhos, mas sem os ornamentos. Os mesmos quentes
e entediantes prédios. Jovens e cafés.
Você a chama de rua Principal. A terceira rua
você jamais vê. Você caminha pela rua Principal.
Você tem fome. Você aproveita essa oportunidade
para comer. Você não tem dinheiro. Eles te põem pra fora.
Você volta à rua curta. Você pergunta aos velhos
“Onde fica o prédio único?” Eles fazem cara feia
e se afastam. Você diz, “Eu sou um amigo.”
Você sabe que o vento achatará esta cidade.
Você diz, “Vão embora. O vento já está vindo.”
Os velhos franzem sobrancelhas. O dia escurece. Você olha
firme para a terceira rua. Você pergunta a um gigante, “Onde?”
O gigante olha com fúria, “A terceira rua é difícil.”
Você corre e corre. Você não consegue sair da cidade.

NOTAS
[1] Pequena cidade no sudoeste de Montana.
[2] Apelido pejorativo com o qual os soldados americanos se referiam aos soldados alemães na Segunda Guerra.

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