Dom Casmurro

setembro 2011 / Dom Casmurro / Poemas de Paola Soriga

Texto publicado na edição #137

Poemas de Paola Soriga

Tradução: Mário Araújo In memoria di un cane La notte in cui non riuscivo a dormire è morto il mio […]

> Por PAOLA SORIGA

Tradução: Mário Araújo

In memoria di un cane

La notte in cui non riuscivo a dormire
è morto il mio cane
che era femmina, piccola e gialla
e io non c’ero.

Dove si archivia la morte di un cane
fra le nostalgie o i dolori piccoli
qual è la cartella, il file,
per l’assenza improvvisa dei sui occhi

il suo abbaiare
agli specchi e alle persone alte
il suo passo che mi viene dietro
o avanti

come quando poi pioveva
e se ne andava senza aspettare
il bacio che stavo per dare
o finissi di bere il mio vino.

La neve la divertiva
la campagna, i pappagalli e gli altri
cani quasi tutti
e qualche umano, ma non il mare.

Non i concerti e le manifestazioni
gli zaini e il ponte delle navi.
Amava la pizza il berimbao e le notti a dormire all’aperto,
casa di Velia, il parco

le buste rotte della spazzatura
e starmi accanto.
Al parco, nelle piazze
sceglievamo un punto

e quello era il punto
dove rincontrarsi, dopo un po’,
e raccontarsi
le cose fatte accadute

i cani e le persone viste
le palle prese al volo i libri letti;
un duo con le vite condivise
come le cartelle sui computer in ufficio

che se modifichi qualcosa,
per dire, il file dei pomeriggi,
cambiavano le forme
del mio tempo e del suo.

In generale un dolce assomigliarsi
nei gusti le abitudini e le scelte
la curiosità e un leggero agitarsi
davanti a un sorriso deciso

a una mano
sul mento
eravamo alle volte uno schianto, io e lei,
la bionda e la mora

ma adesso lei è morta
e non c’è neanche una sua foto su myspace
e non si mandano messaggi o mail
per dire è morta e farsi dire mi dispiace.

Ilustração: Rafa Camargo

•••

Em memória de um cão

Na noite em que eu não conseguia dormir
morreu meu cão
que era uma fêmea, pequena e amarela
e eu não estava lá.

Onde se arquiva a morte de um cão
entre as nostalgias ou as dores pequenas
qual a pasta, o documento,
para a ausência súbita dos seus olhos

o seu latido
para os espelhos e as pessoas altas
o seu passo atrás de mim
ou adiante

como quando chovia
e ela partia sem esperar
pelo beijo que eu estava por dar
ou que acabasse de beber meu vinho.

A neve a divertia
o campo, os papagaios e os outros
cães, quase todos,
e alguns humanos, mas não o mar.

Nem os concertos ou as passeatas
as mochilas e o convés dos navios.
Amava a pizza o berimbau e as noites de dormir ao ar livre,
casa de Eleia, o parque

os sacos rasgados de lixo
e estar ao meu lado.
No parque, nas praças
escolhíamos um local

e aquele era o local
para se encontrar, logo depois,
e para se contar
as coisas feitas e acontecidas

os cães e as pessoas vistas
as bolas apanhadas em vôo e os livros lidos;
um duo com as vidas partilhadas
como as pastas nos computadores do escritório

que se modificadas de algum modo,
para dizer, o arquivo das tardes,
alteram as formas
do meu tempo e do seu.

Quase sempre uma doce semelhança
nos gostos os hábitos e as escolhas
a curiosidade e um leve alvoroço
diante de um sorriso decidido

de uma mão
sob o queixo
éramos por vezes fantásticas, eu e ela,
a loura e a morena
mas agora ela está morta
e não há nem mesmo uma foto sua no facebook
e não se enviam mensagens ou e-mails
para dizer que está morta e fazer dizer sinto muito.

•••

Santa Maria del Mar

Prima, nei secoli, davanti a questa chiesa
finiva la città
ed iniziava il mare.

Scendevano dal monte i poveri del porto,
i massi sulle spalle, il sole sopra il collo,
dicevano
— lente le gambe e salde —
Il peso un poco è tuo
e un po’ della Madonna.

Dentro un tempo che conserva gli anni
gela appena il fiato
e dai vetri la luce del sole di aprile.

Ilustração: Rafa Camargo

•••

Santa Maria do Mar

Ao longo dos séculos, diante desta igreja
terminava a cidade
e começava o mar.

Desciam do monte os pobres do porto,
as pedras nos ombros, o sol sobre o pescoço,
diziam
— pernas lentas e tenazes —
O peso é um pouco teu
e um pouco da Virgem.

Dentro, um tempo que conserva os anos
e congela levemente o hálito
e, através dos vidros, a luz do sol de abril.

•••

Ci sono le mie labbra

Ci sono le mie labbra,
certi giorni,
che non riescono a trovare un sorriso che resista,
ci sono i miei piedi che inciampano
su tappeti sporchi e un uomo
che ha smesso di chiamarmi.
Ci sono caffè amari e pastasciutte scotte,
alluvioni, terremoti
e case sulla sabbia.

Ci sono decine di curriculum spediti,
editori, professori
e affitti da pagare.
Ci sono mozzarelle andate a male,
tubetti vuoti di dentifricio,
il freezer rotto e il cassiere sotto
che non sa chi sono
i partigiani.
Ci sono certe sere in cui la vita è ancora altrove.

C’è pure ancora lo stesso presidente,
le raccomandazioni e un uomo
che non mi ha mai baciata.
Ci sono sms tristi e la benzina
troppo cara, la mafia dappertutto,
persone morte in mare.
Ci sono quelli che restano delusi
quando poi mi vedono arrivare
ma senza mio fratello.

Addirittura c’è pure ancora un papa
(ma non è più lo stesso),
ci sono lotte per la vita dei non-nati
e c’è la fame.
Ci sono cameriere irate e ferrovieri
stronzi e troppa pioggia, per essere d’estate.
Ci sono donne ancora violentate,
i morti sul lavoro e ragazzi
schiantati in autostrada.

Ci sono le rose che si seccano,
i ragni che le attaccano,
i jeans che non mi stanno.
Ci sono i miei occhi,
certi giorni,
che non riescono a trovare un sorriso che resista,
c’è un uomo troppo saggio per amarmi,
il traffico per strada,
il freddo alle lenzuola.

Ilustração: Rafa Camargo

•••

Há os meus lábios

Há os meus lábios,
certos dias,
que não conseguem encontrar um sorriso duradouro
há os meus pés que tropeçam
sobre tapetes sujos e um homem
que deixou de me chamar.
Há cafés amargos e macarrões que passaram do ponto
inundações, terremotos
e casas sobre a areia.

Há dezenas de currículos expedidos,
editores, professores
e aluguéis por pagar.
Há queijos estragados,
tubos de pasta de dente vazios,
o freezer quebrado e o caixa ao lado
que não sabe quem são
os guerrilheiros.
Há certas noites em que a vida está em outro lugar.

E há ainda o mesmo presidente,
recomendações e um homem
que jamais me beijou.
Há sms tristes e a gasolina
cara demais, a máfia em toda parte,
pessoas mortas no mar.
Há aqueles que se decepcionam,
quando enfim me vêem chegar
mas sem meu irmão.

E sem dúvida também ainda há um papa
(mas não é mais o mesmo),
há batalhas pela vida dos não nascidos
e há a fome.
Há garçonetes iradas e ferroviários
estúpidos e chuva demais para ser de verão.
E há ainda mulheres violentadas,
os mortos no trabalho e jovens
dilacerados na auto-estrada.

Há as rosas que secam,
as aranhas que as atacam,
os jeans que não me servem.
Há os meus olhos,
certos dias,
que não conseguem encontrar um sorriso duradouro,
há um homem sábio demais para me amar,
o tráfego nas ruas,
o frio nos lençóis.

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PAOLA SORIGA

Nasceu na Sardenha, em 1979. Estudou literatura em Pavia, Barcelona e Roma, onde mora atualmente. É idealizadora e organizadora do festival de poesia Setembro dos poetas, realizado na Sardenha. Sua poesia está publicada em diversas revistas. Em 2012, lançará seu primeiro romance.