Dom Casmurro

novembro 2011 / Dom Casmurro / Poemas de Luis Bravo

Texto publicado na edição #126

Poemas de Luis Bravo

Tradução: Ronaldo Cagiano O estalido é uma estrela atravessando o nervo o estalido não é ouvido é pressentido, como o […]

> Por LUIS BRAVO

Tradução: Ronaldo Cagiano

O estalido

é uma estrela atravessando o nervo
o estalido não é ouvido
é pressentido, como o relâmpago:
queda do raio, sua trajetória
como faíscas que se incrustam
entre o coração e o estômago

o estalido é uma marca indelével
quando a estrela cai a teus pés
e tu com ela:

“levarás anos para escalar a cratera
retornar do humus sagrado entre brasas
e a cada tormenta
o céu te cruzará o peito com suas estalactites de nácar”

o estalido é essa voz que vem de ti,
— uma estrela atravessando o nervo —
a que terás que obedecer
às cegas: linha elétrica da fé.

>>>

(Derivações)

1
o estalido é uma evidência da qual não poderás livrar-se
uma vez exercida sua ação propiciatória

2
são múltiplos os estalidos espelhados na superfície
só a profundeza pode demover a dúvida

3
que coisa quer aquele que quer aquilo que deseja?
quer o fluído incessante daquilo que ao ser, será pedra?

4
a carne ardente
o coração ardente, a ardente carne do coração
o ardente coração feito carne
(que coisa quer aquele que quer aquilo que deseja?)

5
eu quero estar
e não estar
ao mesmo tempo.
como uma corda que ao soar
arrebenta

6
o delicado desmaio das horas
se disputa:
o prazer ou a peste

7
no estalido
o presente se esconde atrás de uma fina película
pode abandonar-se pela força centrípeta do redemoinho

— a trituradora do paradoxo está no centro —

serás devorado até o território desconhecido: buraco negro,
troca de pele, capricho da química dos corpos.

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LUIS BRAVO

É poeta, jornalista, crítico e ensaísta. Nasceu em Montevidéu (Uruguai), em 1957. Participa de diversas antologias. Publicou os livros Claraboya sos la luna (1985), Lluvia (1988), La sombra es el arco (1996), Árbol veloz (1998), Liquen (2003) e Tarja (2004).