Dom Casmurro

junho 2017 / Dom Casmurro / Poemas de Leonel Alvarado

Texto publicado na edição #206

Poemas de Leonel Alvarado

Quatro poemas do hondurenho Leonel Alvarado

> Por RASCUNHO

O poeta hondurenho Leonel Alvarado

O poeta hondurenho Leonel Alvarado

Tradução: Adriana Lisboa

la gramática de Marceau

que sua gramática le viene de Rodin
dice Marcel Marceau. en um gesto
imperceptible demuestra que el mimo
es la escultura que se echa a andar
a la primera palavba de Dios, sus gestos

son el eco de la voz de un dios que habla dormido
y que solo los mudos pueden entender.
así debió ser como los dioses se entendiam
em la Gran Nada. de esa forma de mover
el dedo en el aire apareció la tierra, el diluvio
de una lágrima y de um bosetzo de Bip los huracanes.

el mimo alarga el brazo para tocar los pensamientos
de Dios antes de que se conviertan em varón y hembra
pero em la oscuridad las cosas son más frágiles y la mano
derriba las lámpadas que alumbram la inteligência divina
como el enfermo que busca el vaso de agua em la mesita de noche.

antes del amanecer la hembra ya se piensa en la costilla
de Marcel y en esa herida que nunca cicatriza
el mimo pierde y gana el Paraíso.

a gramática de Marceau

sua gramática vem de Rodin
diz Marcel Marceau. em um gesto
imperceptível demonstra que o mímico
é a escultura que se põe a andar
ante a primeira palavra de Deus, seus gestos

são o eco da voz de um deus que fala dormindo
e que só os mudos podem entender.
devia ser assim que os deuses se entendiam
no Grande Nada. dessa forma de mover
o dedo no ar apareceu a terra, o dilúvio
de uma lágrima e de um bocejo de Bip os furacões.

o mímico estica o braço para tocar os pensamentos
de Deus antes que se transformem em homem e mulher
mas na escuridão as coisas são mais frágeis e a mão
derruba as lâmpadas que iluminam a inteligência divina
como o doente que procura o copo d’água na mesa de cabeceira.

antes do amanhecer a mulher já se pensa na costela
de Marcel e nessa ferida que nunca cicatriza
o mímico perde e ganha o Paraíso.

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Damasco, amor

Hoy, corazón, no eres más importante
que Damasco. 68 o 70 han sido
despedazados por una bomba. Hoy tú y yo
somos 68 o 70 veces menos importantes.

La inexactitud de la cifra deja un vacío
que nosotros dos no podríamos llenar.
Dos vidas más, dos vidas menos perdidas
en el resuello brutal de la bomba.

Hoy tu insomnio y las amanecidas preocupaciones
por el rumbo de tu vida a la gravísima edad
de los cuarentitantos valen menos que esas dos vidas
que la bomba no permite confirmar. Mientras
te afanas en tus cremas y yo me detengo
en mis canas prematuras Damasco no se pone
de acuerdo en sus cifras. No te molestes
en polvearte la cara; decir polvo hoy
es decir Damasco, y tú y yo importamos
hoy menos que ese polvo. Que Damasco sea

hoy tu crisis existencial, tu menopausia,
el crujir de mis huesos, mi próstata
para que no olvidemos que hoy Damasco
pesa 68 o 70 veces más.

 

Damasco, amor

Hoje, coração, não você não é mais importante
que Damasco. 68 ou 70 foram
despedaçados por uma bomba. Hoje você e eu
somos 68 ou 70 vezes menos importantes.

A inexatidão da cifra deixa un vazio
que nós dois não poderíamos preencher.
Duas vidas a mais, duas vidas a menos perdidas
no arquejo brutal da bomba.

Hoje sua insônia e as preocupações matinais
com o rumo da sua vida e a gravíssima idade
dos quarenta e tantos valem menos que essas duas vidas
que a bomba não permite confirmar. Enquanto
você se dedica aos seus cremes e eu me detenho
em meus prematuros cabelos brancos Damasco não chega
a um acordo sobre suas cifras. No se dê ao trabalho
de passar pó no rosto; dizer pó hoje
é dizer Damasco, e você e eu importamos
hoje menos que esse pó. Que Damasco seja

hoje sua crise existencial, sua menopausa,
o moer dos meus ossos, minha próstata
para que não esqueçamos que hoje Damasco
pesa 68 ou 70 vezes mais.

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Rumi, el imperfecto

La poesía de Rumi es imperfecta.
Los historiadores aún no saben
a qué atribuirle ese mal.

Se dice que amó a una mujer
de manos bellas que tenía una cicatriz
en la muñeca izquierda.

En su infancia convivió con tejedores
de alfombras y así supo que los grandes
artesanos ocultaban una ligerísima imperfección
en alguna parte del tejido porque nada, salvo
Allah, podía ser perfecto.

La cicatriz que lo persiguió toda la vida
y la modestia de los grandes tejedores
le enseñaron a descubrir la belleza en la fisura,
el placer en el roce de una mano aspera.

De ese ligerísimo desvío del hilo, que complace
a Allah, y de toda una vida dedicada
a entender esa cicatriz nace su poesía,
como una herida por la que se filtra la luz.

Rumi, o imperfeito

A poesia de Rumi é imperfeita.
Os historiadores ainda não sabem
a que atribuir esse mal.

Diz-se que amou uma mulher
de mãos belas que tinha uma cicatriz
no punho esquerdo.

Em sua infância conviveu com tecelões
de tapetes e assim soube que os grandes
artesãos ocultavam uma ligeiríssima imperfeição
em alguma parte do tecido porque nada, exceto
Alá, podia ser perfeito.

A cicatriz que o perseguiu por toda a vida
e a modéstia dos grandes tecelões
ensinaram-no a descobrir a beleza na fissura,
o prazer no roçar de uma mão áspera.

Desse ligeríssimo desvio do fio, que compraz
a Alá, e de toda uma vida dedicada
a entender essa cicatriz nasce sua poesia,
como uma ferida através da qual se filtra a luz.

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Hablándole de Rembrandt a mi madre

Mi madre y Rembrandt tienen algo en común:
la dignidad de la pobreza. Bruja de sus panes
alimentaba a los hijos con monedas de a mentiras
y todavía le sobraba para el ungüento del herido.

Rembrandt regurgitaba sus Aves del Paraíso
en boca de sus acreedores, metía monedas de luz
en sus bolsillos para pagar alquiler, mesa, amores.
Desesperada, rabiosa la mano iluminaba
con dignidad otras miserias.

Mi madre tenía doce años cuando un autorretrato
de Rembrandt fue a dar a la colección que Hitler
mantenía en Linz. La familia Raman se lo canjeó
a Goering por veinticinco visas para salvar
veinticinco vidas de los hornos.

¿Cómo iba a saber Rembrandt que ese retrato,
que quizá lo salvó de sus acreedores,
se cotizaría en vidas?

En algún museo está ese retrato y en el retrato
la luz que de niño veía en la cara de mi madre
cuando entraba al cuarto, pesada de dolores pero digna.
En la oscuridad, que vuelve más frágiles las cosas,
mi madre estaba en su mejor Rembrandt,
iluminando al hijo con la ternura que le brotaba de los ojos.

Ahora, en sus ochenta, le digo que esa luz
que me acompañó todas las noches está
en suntuosas salas de museos que nada tienen
que ver con el cuarto donde ella y Rembrandt
distraían con sus cuentos a la miseria.

Falando de Rembrandt com minha mãe

Minha mãe e Rembrandt têm algo em comum:
a dignidade da pobreza. Bruxa de seus pães
alimentava aos filhos com moedas de mentira
e ainda lhe sobrava para a unção do ferido.

Rembrandt regurgitava Aves do Paraíso
na boca de seus credores, metia moedas de luz
em seus bolsos para pagar aluguel, mesa, amores.
Desesperada e raivosa a mão iluminava
com dignidade outras misérias.

Minha mãe tinha doze anos quando um autorretrato
de Rembrandt foi parar na coleção que Hitler
mantinha en Linz. A família Raman trocou-o
com Goering por vinte e cinco vistos para salvar
vinte e cinco vidas dos fornos.

Como poderia saber Rembrandt que esse retrato,
que talvez o tenha salvado de seus credores,
haveria de se cotizar em vidas?

Em algum museu está esse retrato e no retrato
a luz que desde pequeno via no rosto da minha mãe
quando ela entrava no quarto, pesada de dores mas digna.
Na escuridão, que torna mais frágeis as coisas,
minha mãe estava em seu melhor Rembrandt,
iluminando o filho com a ternura que lhe brotava dos olhos.

Agora, em seus oitenta anos, digo-lhe que essa luz
que me acompahou todas as noites está
em suntuosas salas de museus que nada têm
a ver com o quarto onde ela e Rembrandt
distraíam com seus contos a miséria.

Leonel Alvarado
Nasceu em Honduras, em 1967. Publicou, entre outros livros, as coletâneas de poesia Casa vacía, El reino de la zarza (Prêmio Latinoamericano EDUCA), Xibalbá, Texas (Prêmio Centroamericano de Literatura Rogelio Sinán), Retratos mal hablados (menção honrosa do Prêmio Casa de las Américas) e Driving with Neruda to the Fish‘n’Chips. Coordena o programa de espanhol na Universidade de Massey, Nova Zelândia, onde vive atualmente.

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