Dom Casmurro

abril 2015 / Dom Casmurro / Poemas de José Nêumanne Pinto

Texto publicado na edição #179

Poemas de José Nêumanne Pinto

  Magnificat Para minha Madonnella de Campina Grande Quando estou dormindo e meu amor me abraça por trás, Sinto que […]

> Por JOSÉ NÊUMANNE PINTO

José Nêumanne Pinto

José Nêumanne Pinto

 

Magnificat
Para minha Madonnella de Campina Grande

Quando estou dormindo e meu amor me abraça por trás,
Sinto que Deus cala e observa a harmonia de sua obra
E o diabo cede a um cansaço de milênios para cochilar.
As ondas do mar suspendem seu salto na areia
E as estrelas ficam perfeitamente visíveis no céu,
Ainda que o sol atravesse a vidraça do quarto
Para beijar nossos lençóis, nossas fronhas e nossos cabelos.
Então, meu amor coça a ponta do nariz nas minhas costas.
Percebo que não há lavas nos vulcões em erupção
E os anjos tocam em sua fanfarra um ritmo de axé.
Vem um cheiro de pão quente da Padaria das Neves
E o fluxo dos rios altera as rotas dos viajantes.
Embarco numa viagem de férias por um instante
Quando a mãozinha de meu amor pousa na minha
Sobre o peito cansado de guerra e, enfim, em paz.
Meu amor ressona no meu ouvido suavemente
E me pergunto, atrevido, em quantas manhãs mais
Me sentirei feito um bobo de sua Corte Real.
Ao beijar seus lábios de caju assim logo cedo,
Mordo a maçã do Eden, bebo um gole de coco
E estico os músculos como se nada mais houvesse a fazer
A não ser dançar uma valsa de Strauss
Em algum terreiro baldio do sertão de minha infância.

 

Seis quartetos em si
(Este poema vai para João Gilberto, Gilberto Gil e Carlos Vogt)

A poesia é decerto uma loucura
(Álvares de Azevedo)

O poeta é um traidor…
(apud Fernando Pessoa)

A poesia
é o lugar comum,
onde o poeta
ri de si mesmo.

A poesia
é um pilar incomum,
onde o poeta
cisma consigo mesmo.

A poesia
é um berço sem grades,
de onde o poeta
sai para si mesmo.

A poesia
é um buraco negro,
onde o poeta
trai a si mesmo.

A poesia
é um salto sem rede,
onde o poeta
cai sobre si mesmo.

A poesia
é um caixão sem tampa,
onde o poeta
encerra os seus mesmos.

 

Os peixes de Éfeso
Para Ivan Junqueira (in memoriam), poeta dos rios

Quando Heráclito pescava em Éfeso,
o velho rio, sempre renovado,
lhe levava novos peixes,
seres esguios, bichos macios,
purificados à mesa pelo sal,
tornados proteína para o corpo,
tônico para a mente
e refrigério para a alma.
O rio sumia sem esperar o breu
e renascia antes de refletir o sol:
apenas corria para a frente,
deslizando para nada,
como uma serpente sem ninho
pra onde nunca voltar.
O pão posto à mesa desmanchado,
o tubérculo do triunfo apodrecido
e a dor da perda descomposta,
como antes a fome à mesa posta.
O rio de Heráclito flui em Éfeso,
assim como a cidade e seu nome.

Somos,
como ele foi,
os peixes dele:
sol na água,
sal da terra,
dor de fogo,
cor de céu.

 

Do pódio ao pó
A vida é uma frase interrompida
(Victor Hugo)

O ginasta se projeta no ar
e se prostra ao solo;
o tenista empunha a raquete
e rebate a bola pra fora;
o ponteiro corta com força
e, bloqueado, faz o ponto contra;
o zagueiro desvia a pelota
e a vê morrer na própria rede;
o nadador bate a mão na borda
e sente o mundo a seus pés.

O pódio premia o suor
e o pó é o troféu da derrota.
A existência é uma corrida de obstáculos
sem fita de chegada;
uma partida sem resultado;
uma Olimpíada sem medalha:
todos erram,
todos perdem a vida,
todos são iguais
perante o amor
e a morte.

 

Sexta-feira da Paixão
Respondeu Jesus e disse-lhe: O que eu faço, tu não o compreendes agora, mas compreendê-lo-ás depois.
João, 13;7

Entre o sêmen e o ser
A graça mansa e macia
De com todos parecer
E de todos se distinguir.

Entre o sêmen e o ser
A suprema danação
De tudo perceber
E de nada poder fugir.

Entre o sêmen e o ser,
O mistério da criação
É não lhe ser dado ressurgir
Nem mesmo plantado no chão.

 

Às cinco da tarde

Entre o touro e a areia
Dormem injustos
O sono dos justos.

Entre o touro e a plateia
Correm os pobres
Os riscos dos podres.

Entre o toureiro e a praça
Firmam um pacto
Os patos e os tontos.

Entre o toureiro e a areia
Tocam os sinos
O dobre dos santos.

Entre o touro e a praça
Dançam os sãos
A dança dos doidos.

Entre o toureiro e a plateia
Ungem-se antigos
Com o óleo das plantas.

Entre o toureiro e a areia
Pecam os moços
Pecados primevos.

Entre a capa e a espada
Conspiram possessos
Na treva do paço.

Entre o touro e o toureiro
Aspiram mordaças
Os padres no fosso.

Entre a capa e o cachaço
Murmuram desídias
As pedras no poço.

Entre a espada e o cachaço
Rumina o touro
Seu curso de cão.

Entre a capa e a areia
Habita o toureiro
A casual solidão.

Entre a espada e a areia
Move o toureiro
Sua gana de pão.

Entre a capa e a plateia
Mata o toureiro
Sua fome de irmão.

Entre a praça e o touro
Morre a fome
Letal da ilusão.

Entre a praça e o toureiro
Vive a massa
Seu dia de pão.

Entre a praça e a areia
Evapora-se a água
Cheirando a sabão.

Entre a espada e a platéia
Um anjo caído
Brinda a devastação.

Entre a tarde e o touro,
A noite caída
Desata a paixão.

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