Dom Casmurro

setembro 2011 / Dom Casmurro / Poemas de Horacio Preler

Texto publicado na edição #137

Poemas de Horacio Preler

­­Tradução: Ronaldo Cagiano Símbolos Um estrangeiro percorre as ruas de uma cidade desconhecida. O mistério termina nos estranhos labirintos. Os […]

> Por HORACIO PRELER

­­Tradução: Ronaldo Cagiano

Símbolos

Um estrangeiro percorre as ruas
de uma cidade desconhecida.
O mistério termina
nos estranhos labirintos.
Os homens passam uns junto aos outros,
somente os velhos conhecidos se saúdam
com as cerimônias de costume.
Entendemo-nos pobremente,
apenas delineamos os contornos do gesto
articulando símbolos heróicos
para superar o desamparo.

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História

Um olho carregado de nostalgia
nos elimina sem pausa.
No entanto, retomamos o mundo,
damos consistência à idéia,
formamos conjeturas.
Tudo é inútil,
as artérias se endurecem,
a pele não pode continuar sua missão,
destina-se o doce ardor do sangue.
Maltratados,
envenenados pelo tempo,
nós deslizamos pelas ruas
como enormes animais históricos
em busca da morte.

•••

O centro do poema

As árvores celebram a proteção do vento,
as tormentas resistem,
emitem sons diferentes.
Resvalam papéis jogados ao ar
e o óxido se acumula.
Os canais de rega se abrem para todos,
a água é um elemento contagioso.
Capturamos notas lançadas sem sentido.
Seguramente vão dar no centro do poema,
mas apenas quando notamos uma estranha dor.

•••

A parede

Todas as manhãs um homem
levanta as paredes de sua casa.
Sobe nos andaimes; o sol brilha em sua pele.
Embaixo, seus filhos brincam com a areia.
Está sozinho.
Talvez pense na mulher que teve
ou na época em que foi feliz.
Quando termina seu trabalho,
recolhe suas ferramentas
e volta pelo mesmo caminho que chegou.

•••

Palavra final

Hoje regressamos da infância
quase sem nos darmos conta,
sem por nos registros a hora da partida.
Voltamos do passado
com a retina ferida e o osso carcomido.
Os dedos pareciam dardos
arremessados sobre um branco perfeito,
marcas das unhas sobre a pele
e uma profunda peregrinação
tomava o lugar iluminado da carne,
aquilo que integra o mel e o leite
da última palavra.

•••

Tarefa do crepúsculo

Do crepúsculo obtenho as razões para viver
os perfumes mais velhos,
as migalhas mais claras.
Cada crepúsculo em sua tarefa.

Extraio o melhor
e o estendo sobre a grama.
Disse finalmente: aqui estou,
sem acertos nem erros,
estou aqui.
Sou a palavra que perdura.

Cada dia se perde
no estado formal da escuridão.

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