Dom Casmurro

abril 2015 / Dom Casmurro / Poemas de Gregory Orr

Texto publicado na edição #179

Poemas de Gregory Orr

TRADUÇÃO: Ana Santos Gregory Orr nasceu em Albany, Nova York, em 1947. Autor de onze coletâneas de poesia, além de […]

> Por RASCUNHO

TRADUÇÃO: Ana Santos

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Gregory Orr

Gregory Orr nasceu em Albany, Nova York, em 1947. Autor de onze coletâneas de poesia, além de um livro de memórias e diversos ensaios, Orr é considerado por muitos um mestre na escrita de poemas curtos e líricos.

Sua vida é marcada por eventos traumáticos, que moldam também sua poesia: aos doze anos, é responsável por um acidente de caça no qual morre seu irmão mais novo; dois anos depois, sua mãe falece inesperadamente.

Transformando trauma em arte, Gregory Orr faz poemas concisos, imagéticos e musicais. À aparente simplicidade dos versos, subjaz algum mistério melancólico que, por vezes, vem à tona em breves epifanias — como o pássaro de Beda, que voa “da escuridão através/ de um salão iluminado/ para a escuridão outra vez”.

Os poemas aqui publicados integram City of salt (University of Pittsburgh Press, 1995), finalista do Los Angeles Times Book Prize de poesia.

Orr leciona Escrita Criativa na Universidade de Virgínia e vive com sua família em Charlottesville.

 

The city of salt

In the sun-drenched
city of salt
where the window boxes
are little coffins
full of red geraniums,
flower
that offers up
earth’s smell of death
like water
from a deep well.

In that city of salt
where my mother walks
with a basket
over one arm —
she’s off to market,
she’s going to buy
all those things
she forgot to give us
when she was alive.

In that city of salt
the sun never sets,
the rooms of her apartment
fill up
with vegetables:
the purple globes
of eggplant, asparagus
like the blunt bolts
a crossbow fires,
and peppers convoluted
as the heart
and sweet to taste.

 

A cidade de sal

Na cidade de sal
encharcada de sol
onde as floreiras das janelas
são pequenos esquifes
cheios de rubros gerânios,
flor
que oferece
o cheiro de morte da terra
como água
de um poço profundo.

Naquela cidade de sal
onde minha mãe caminha
com um cesto
no braço —
ela vai ao mercado,
ela vai comprar
todas as coisas
que esqueceu de nos dar
quando estava viva.

Naquela cidade de sal
o sol jamais se põe,
os cômodos do apartamento
se enchem
de hortaliças:
os globos púrpura
de berinjela, aspargos
como as flechas cegas
que um arco dispara,
e pimentas convolutas
como o coração
e doces ao paladar.

 

 

The gift
for my daughter

Scissors, glue, clumsy
fingers — crude tools
I’ve used to make
this cardboard bird
I’ve painted bright
unlikely colors
and hung by a string
above your crib.

In last ’s dream
you were grown
and I was old
and in the backyard
digging a deep hole.
You stood above me
shining a light
where I shoveled down
through all my life.

In an ancient book,
Bede wrote
how a sparrow flew
from dark through
a lighted meadhall
into dark again.

Tiny wings of your lungs —
each beat a breath.

 

O presente
para minha filha

Tesoura, cola, dedos
inábeis — ferramentas simples
que usei para fazer
este pássaro de papelão
que pintei de cores
vivas e improváveis
e pendurei com barbante
sobre seu berço.

No sonho da noite passada
você estava crescida
e eu estava velho
no quintal
cavando um buraco fundo.
Você acima de mim
iluminando
onde eu cavava
minha vida toda.

Num livro antigo,
Beda escreveu
sobre como um pardal voou
da escuridão através
de um salão iluminado
para a escuridão outra vez.

Asas minúsculas de seus pulmões —
cada ruflar, um sopro.

 

 

Origin of the Marble Forest

Childhood dotted with bodies.

Let them go, let them
be ghosts.

No, I said,
make them stay, make them stone.

 

Origem da Floresta de Mármore

Infância manchada de corpos.

Deixe-os ir, deixe-os
ser fantasmas.

Não, eu disse,
faça-os perenes, faça-os pedra.

 

 

Muse of midnight

In the street, stars collide,
parts of their bodies
breaking off
like chunks of salt.

Still, you hold her,
you’re not letting go.
She’s the bright-colored
bird with real feathers
and a toy heart, or
toy feathers and a real
heart.

When all this started
you were lying on a couch.
Now you rise
through the ceiling,
now you’re roiled in a cloud,
now you’re rain falling
toward its target: a room in flames.
 

Musa da meia-noite

Na rua, estrelas colidem,
partes de seus corpos
rompendo-se
como pedaços de sal.

Mesmo assim, você a abraça,
você não vai soltá-la.
Ela é o pássaro de cores
vivas com plumas reais
e um coração de brinquedo, ou
plumas de brinquedo e um coração
real.

Quando isso tudo começou
você estava deitado num sofá.
Agora você sobe
através do teto,
agora você se agita numa nuvem,
agora você é chuva caindo
no seu alvo: um quarto em chamas.

 

 

A moment

The field where my brother died —
I’ve walked there since.
Weeds and grasses, some chicory
stalks; no trace of the scene
I still can see: a father
and his sons bent above
a deer they’d shot,
then screams and shouts.

Always I arrive too late
to take the rifle
from the boy I was,
too late to warn him
of what he can’t imagine:
how quickly people vanish;
how one moment you’re standing
shoulder to shoulder,
the next you’re alone in a field.

 

Um momento

O campo onde morreu meu irmão —
já andei por ele.
Ervas e grama, algumas hastes
de chicória; nenhum traço da cena
que ainda posso ver: um pai
e seus filhos debruçados sobre
um cervo que haviam matado,
então brados e gritos.

Sempre chego tarde demais
para tomar o rifle
do menino que eu era,
tarde demais para alertá-lo
do que ele não pode imaginar:
o quão rápido pessoas somem;
como num momento você está
ombro a ombro,
no próximo está sozinho num campo.

 

 

Everything
for my mother

Is this all life is then —
only the shallow breaths
I watch you struggle for?
That gasp right now —
if it was water
it would be such a small glass.

And I could lift your head
from the hospital pillow
and help you sip it
to comfort your parched
throat
into the ease of sleep.

Your agony makes no
sense when air
is everywhere, filling
this room where you lie
dying, where we move
as if in a trance, as if
everything were under water.

 

Tudo
para minha mãe

Então a vida é só isso —
apenas o fôlego raso
pelo qual te vejo lutar?
Esse arfar agora —
se fosse água,
seria um copo tão pequeno.

E eu ergueria tua cabeça
do travesseiro do hospital
e te ajudaria a beber
para confortar tua garganta
seca
até o alívio do sono.

Tua agonia não faz
sentido quando há ar
em todo lugar, enchendo
este quarto onde você
morre, onde nos movemos
como se em transe, como se
tudo estivesse sob água.

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