Dom Casmurro

setembro 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Frederick Seidel

Texto publicado na edição #197

Poemas de Frederick Seidel

Frederick Seidel é um dos mais polêmicos poetas norte-americanos

> Por André Caramuru Aubert

O poeta norte-americano Frederick Seidel.

O poeta norte-americano Frederick Seidel.

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Frederick Seidel (1936) é provavelmente o mais controverso poeta norte-americano em atividade. Como Fernando Pessoa, ele tem mais de uma persona poética. Diferentemente de Pessoa, porém, suas personas com frequência gostam de chocar e podem ser um tanto quanto politicamente incorretas. Seu livro de estreia, Final Solutions (1963), cujo título já é uma provocação, foi indicado para um prêmio (no júri estava, entre outros, Robert Lowell). Mas a instituição patrocinadora não aceitou alguns dos poemas (antissemitas e anticatólicos, disseram) e exigiu mudanças em alguns dos versos. Como Seidel se recusasse a fazê-lo, o prêmio lhe foi negado, o que levou à renúncia, em protesto, de toda a comissão julgadora. Outros prêmios viriam com o tempo, mas o gosto pela polêmica jamais abandonaria este complicado e complexo poeta.

 

Sonnet

The suffering in the sunlight and the smell.
And the bellowing and men weeping and screaming.
And the horses wandering aimlessly and the heat.
The living and the dead mixed, bleeding on one another.
A palm with two fingers left attached
Lying on the ground next to the hindquarters of a horse.
A dying man literally without a face
Pointed at where his face had been.
He did this without a sound.
The forty thousand dead and wounded stretched for miles
In every direction from the tower.
Not a cloud in the sky all day, the sunlight of hell.
Bodies swelled and split, erupting their insides
Like sausages on the fire.

 

Soneto

O sofrimento sob a luz do sol e o odor.
E os bramidos e homens chorando e berrando.
E os cavalos vagando sem rumo e o calor.
Misturados os vivos e os mortos, sangrando uns nos outros.
Uma palma com dois dedos pendurados nela
Estendida no chão junto às ancas de um cavalo.
Um homem morrendo, literalmente sem a face
Apontava para onde sua face havia estado.
Ele fez isso sem emitir qualquer som.
Os quarenta mil mortos e feridos se espelhavam por milhas
A partir da torre, em todas as direções.
Nenhuma nuvem no céu o dia todo, a luz solar do inferno.
Corpos inchados e cortados em pedaços, expondo suas vísceras
Como salsichas no fogo.

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The night sky

At night, when she is fast asleep,
The comet, which appears not to move at all,
Crosses the sky above her bed,
But stays there looking down.

She rises from her sleeping body.
Her body stays behind asleep.
She climbs the lowered ladder.
She enters through the opened hatch.

Inside is everyone.
Everyone is there.
Someone smiling is made of silk.
Someone else was made with milk.

Her mother still alive.
Her brothers and sisters and father
And aunts and uncles and grandparents
And husband never died.

Hold the glass with both hands,
My darling, that way you won’t spill.
On her little dress, her cloth yellow star
Comet travels through space.

 

O céu noturno

De noite, quando ela rapidamente adormece,
O cometa, que parece nem mesmo se mover,
Cruza o céu por cima de sua cama,
Mas ali ele para, olhando para baixo.

Ela deixa o seu corpo adormecido.
Seu corpo fica, dormindo, para trás.
Ela sobe pela escada externa.
Ela entra pelo alçapão aberto.

Dentro estão todos.
Todos estão lá.
Um, rindo, é feito de seda.
Um outro era feito de leite.

Sua mãe ainda viva.
Seus irmãos e irmãs e pai
E tias e tios e avós
E o marido, eles não morreram.

Segure o copo com as duas mãos,
Minha querida, assim você não entornará.
No seu vestidinho, seu cometa amarelo,
De pano, viaja através do espaço.

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Before air-conditioning

The sweetness of the freshness of the breeze!
The wind is wiggling the trees.
The sky is black. The trees deep green.
The man mowing the enormous lawn before it rains makes goodness clean.
It’s the smell of laundry on the line
And the smell of the sea, brisk iodine,
Nine hundred miles inland from the ocean, it’s that smell.
It makes someone little who has a fever feel almost well.
It’s exactly what a sick person needs to eat.
Maybe it’s coming from Illinois in the heat.
Watch out for the crows, though.
With them around, caw, caw, it’s going to snow.
I think I’m still asleep. I hope I said my prayers before I died.
I hear the milkman setting the clinking bottles down outside.

 

Antes do ar-condicionado

A doçura do frescor da brisa!
O vento está balançando as árvores.
O céu está negro. As árvores de intenso verde.
O homem roça o vasto campo antes que chova, deixando-o bem limpo.
É o cheiro de lavanderia, na fila.
E o cheiro do mar, do iodo que revigora,
Novecentas milhas terra adentro, é esse cheiro.
Que faz com que algum pequeno com febre se sinta quase bem.
É exatamente o que uma pessoa doente precisa comer.
Talvez isso venha de Illinois com o calor.
Mas se ligue nos corvos, porém.
Quando eles estão por perto, grasnando, grasnando, é que vai nevar.
Penso que ainda durmo. Espero dizer minhas preces antes de morrer.
Ouço o leiteiro deixando apressado as garrafas lá fora.

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Monday morning

The man ejaculates a blood-red rose.
The woman looks on in astonishment.
The sun pours in
As another week replaces another week.

The pill tray divided into days of the week,
Each compartment stamped with the name of a day,
Is full of days and pills on Sundays,
But sand keeps pouring through the hourglass.

25 East 86th, 40 East 83rd —
The man walks past his past.
Blue sky, high clouds, a life.
A man walks down a street.

The doctor laughs and says it is innocuous.
A patient woke him in the middle of night about
Just this, calling from Las Vegas from a tower suite,
Terrified. Afterward, they laughed.

A man ejaculates a red, red rose.
The sky is blue.
High clouds, blue winter sky.
The sky is blue today.

 

Segunda-feira de manhã

O homem ejacula uma rosa vermelho-sangue.
A mulher olha atônita para aquilo.
O sol vem se derramando
Enquanto outra semana substitui outra semana.

A caixa de remédios dividida em dias da semana,
Cada compartimento etiquetado com o nome de um dia,
Está cheia de dias e pílulas nos domingos,
Mas a areia segue escorrendo pela ampulheta.

Rua 25 Leste número 86, rua 40 número 83 —
O homem passeia por seu passado.
Céu azul, nuvens altas, uma vida.
Um homem vai descendo a rua.

O médico ri e diz que a coisa é inofensiva.
Um paciente o acordou no meio da noite, com exatamente
O mesmo caso, ligando desde Las Vegas, de um apartamento de luxo,
Aterrorizado. Depois eles riram.

Um homem ejacula uma rosa vermelha, vermelha.
O céu está azul.
Nuvens altas, céu azul de inverno.
O céu está azul hoje.

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Midnight

God begins. The universe will soon.
The intensity of the baseball bat
Meets the ball. Is the fireball
When he speaks and then in the silence
The cobra head rises regally and turns to look at you.
The angel burns through the air.
The flowers turn to look.

The cover of the book opens on its own.
You do not want to see what is on this page.
It looks up at you,
Only it is a mirror you are looking into.
The truth is there, and all around the truth fire
Makes a frame.
Listen. An angel. These sounds you hear are his.

A dog is barking in a field.
A car starts in the parking lot on the other side.
The ocean heaves back and forth three blocks away.
The fire in the wood stove eases
The inflamed cast-iron door
Open, steps out into the room across the freezing floor
To your perfumed bed where as it happens you kneel and pray.

 

Meia-noite

Deus começa. O universo, logo.
A intensidade do taco de beisebol
Encontra a bola. É a bola de fogo
Quando ele fala, e então no silêncio
A cabeça da cobra majestosamente se ergue e se vira para olhar você.
O anjo queima através do ar.
As flores se viram para olhar.

A capa do livro se abre sozinha.
Você não quer ver o que há nesta página.
Ela olha para você,
Só que é para um espelho que você está olhando.
A verdade está ali, e em volta, o fogo da verdade
Constrói uma moldura.
Ouça. Um anjo. Estes sons que você ouve são dele.

Um cão está latindo em um terreno.
Um carro dá a partida num estacionamento do outro lado.
O oceano arfa para frente e para trás a três quadras daqui.
O fogo no fogão a lenha diminui
A porta inflamada de ferro fundido
Aberta, vai até o quarto através do piso gelado
Para a sua perfumada cama, onde por acaso você se ajoelha e reza.

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Broadway melody

A naked woman my age is a total nightmare.
A woman my age naked is a nightmare.
It doesn’t matter. One doesn’t care.
One doesn’t say it out loud because it’s rare
For anyone to be willing to say it,
Because it’s the equivalent of buying billboard space to display it,

Display how horrible life after death is,
How horrible to draw your last breath is,
When you go on living.
I hate the old couples on their walkers giving
Off odors of love, and in City Diner eating a ray
Of hope, and then paying and trembling back out on Broadway,

Drumming and dancing, chanting something nearly unbearable,
Spreading their wings in order to be more beautiful and more terrible.

 

Melodia da Broadway

Uma mulher nua com a minha idade é um total pesadelo.
Uma mulher da minha idade nua é um pesadelo.
Não importa. Ninguém dá a mínima.
Ninguém fala disso porque é raro
Que alguém se importe em dizê-lo,
Porque seria o equivalente a pôr num cartaz para mostrar,

Mostrar quão horrível é a vida após a morte,
Quão horrível é expor o seu último suspiro,
Enquanto você segue vivendo.
Eu odeio os casais idosos em seus andadores exalando
Odores de amor, e indo jantar no centro, ingerindo um raio
De esperança, e então pagando e pela Broadway claudicando de volta,

Batucando e dançando, cantarolando alguma coisa quase inaudível,
Abrindo suas asas de maneira a serem mais belos e mais terríveis.

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That fall

The body on the bed is made of china,
Shiny china vagina and pubic hair.
The glassy smoothness of a woman’s body!
I stand outside the open door and stare.

I watch the shark glide by… it comes and goes —
Must constantly keep moving or it will drown.
The mouth slit in the formless fetal nose
Gives it that empty look — it looks unborn;

It comes into the room up to the bed
Just like a dog. The smell of burning leaves,
Rose bittersweetness rising from the red,
Is what I see. I must be twelve. That fall.

 

Aquele outono

O corpo na cama é feito de porcelana,
Brilhante vagina de porcelana e pelos pubianos.
A vítrea suavidade de um corpo de mulher!
Eu fico do lado de fora da porta aberta e encaro.

Observo o tubarão deslizando… ele vai e vem —
Ele precisa ficar em movimento, ou vai se afogar.
A boca se fende no nariz disformemente fetal
Dando àquilo uma aparência vazia — parece estar por nascer;

Ele entra no quarto e vai até cama
Igual a um cachorro. O cheiro de folhas queimando,
Agridoce de rosa se elevando do vermelho,
É o que eu vejo. Devo ter doze anos. Aquele outono.

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Death Valley

Antonioni walks in the desert shooting
Zabriskie Point. He does not perspire
Because it is dry. His twill trousers stay pressed,
He wears desert boots and a viewfinder,
He has a profile he could shave with, sharp
And meek, like the eyesight of the deaf,
With which he is trying to find America,
A pick for prospecting passive as a dowser.
He has followed his nose into the desert.

Crew and cast mush over the burning lake
Shivering and floaty like a mirage.
The light makes it hard to see. Four million dollars
And cameras ripple over the alkali
Waiting for the director to breathe on them.
How even and epic his wingbeats are for a small fellow.
He sips cigarette after cigarette
And turns in Italian to consult his English
Girlfriend and screenwriter, who is beautiful.

In Arizona only the saguaros
And everybody else were taller than he was.
Selah. He draws in the gypsum dust selah
He squats on his heels for the love scene, finally
The technicians are spray-dyeing the dust darker.
It looks unreal, but it will dry lighter,
Puffs on quadroon smoke back out of the spray guns.
The Open Theater are naked and made up.
Between his name and néant are his eyes.

 

Death Valley

Antonioni caminha pelo deserto, filmando
Zabriskie Point. Ele não transpira
Porque o ar é seco. Suas calças de sarja estão apertadas,
Ele calça botas de deserto e usa um visor,
Ele tem um perfil que se poderia escanhoar, cortante
E despretensioso, como a visão de um surdo,
Com a qual está tentando entender a América,
Picareta que prospecta, inerte como um pêndulo de radioestesia.
Ele veio seguindo seu faro para dentro do deserto.

Equipe e elenco vagueiam pelo flamejante lago
Tremeluzindo e flutuando como uma miragem.
Com a luz é difícil ver. Quatro milhões de dólares
E as câmeras se agitam sobre o solo alcalino
À espera que o diretor os insufle.
Quão preciso e épico é o seu bater de asas para um cara baixo.
Ele traga um cigarro atrás do outro
E usa o italiano para consultar sua namorada
E roteirista inglesa, que é bonita.

No Arizona apenas os saguaros
E todo mundo era mais alto do que ele.
Selá. Ele desenha, na areia de gipsita, selá
Ele se agacha sobre seus saltos para a cena de amor, e por fim
Os técnicos estão borrifando corante para deixar mais escura a areia.
Parece irreal, mas quando secar ficará mais claro,
Sopros de fumaça mulata saem das pistolas de spray.
O Teatro Aberto está nu e pronto.
Entre o seu nome e o vazio estão seus olhos.

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