Dom Casmurro

setembro 2014 / Dom Casmurro / Poemas de Enrico Testa

Texto publicado na edição #173

Poemas de Enrico Testa

Apresentação e tradução: Patricia Peterle Genovês de nascimento, Enrico Testa (1956) é, sem dúvida, uma das vozes mais representativas e […]

> Por ENRICO TESTA

Apresentação e tradução: Patricia Peterle

Enrico_Testa_173

Poeta italiano Enrico Testa. Foto: Divulgação

Genovês de nascimento, Enrico Testa (1956) é, sem dúvida, uma das vozes mais representativas e atentas da poesia italiana contemporânea. Uma pista da sua potencialidade talvez já estivesse na estreia como poeta, em 1988, com Le faticose attese, prefaciado por Giorgio Caproni, grande poeta da segunda metade do século 20, com quem Testa empreende um profundo diálogo, sem deixar de trilhar as suas próprias veredas. Giovanni Giudici, outro importante poeta, há 20 anos, numa resenha, também já confirmava e enfatizava a força e a originalidade da sua escritura. Como Caproni, que adotou uma parte da Ligúria, e Montale, que sempre manteve uma forte relação com sua terra natal, algumas zonas da Ligúria povoam as suas páginas com um tom e um ritmo próprios. A relação com a natureza, os animais, fatos e movimentos do cotidiano são alguns elementos que delineiam a sua poética juntamente com os do sonho e o da viagem. Encontros/desencontros, à primeira vista nada representativos, coisas de um dia a dia, são todos explorados por Enrico Testa. Se por um lado, podemos pensar na sua poesia como uma busca de si, mas também uma tentativa de compreensão do “estar” e “fazer parte” do mundo, por outro, configura-se também uma operação de busca por um contato, por um outro (o próprio leitor?), enfim, uma via comunicação.

Os poemas
O primeiro poema publicado aqui é totalmente inédito, inclusive na Itália. E trata de uma situação comum, como tantas outras, vivida com tédio, mas que pode, sempre dependendo da paciência e do olhar, ser deslocada e reinventada. É, exatamente, essa operação que Enrico Testa propõe ao estar no aeroporto da cidade de Cagliari, na Sardenha, esperando por um voo. Aqui não cabe uma análise do poema, mas o leitor irá perceber que a sensação de tédio, muito característica desses contextos, não é a única. Ela vai aos poucos diminuindo, quando o olhar passa a encontrar alguns subterfúgios e caminhos, as estrofes seguem esse movimento, vão diminuindo, a descrição mais física abre espaço para as sensações e o vazio d’horas se reinventa. Os outros dois poemas, já publicados na Itália pela prestigiosa Einaudi, são inéditos em português e pertencem respectivamente a In controtempo (1994) e Pasqua di neve (2008). Outros dois momentos da produção de Enrico Testa e duas características suas já sobressaem: uma é a ausência de título; e a segunda é o fato de ele iniciar a poema com letra minúscula e terminá-lo sem um ponto final. Quem sabe não seja esse um convite para o leitor se “apropriar” da página? No poema retirado de In controtempo, os já mencionados elementos da natureza são evidentes, a cobra aparece no primeiro verso, mas o gregal, vento típico do mar Mediterrâneo, antes estava em Vazio d’horas. Duas estrofes, como se uma fosse o espelho da outra, que apontam para diferentes reflexos. O terceiro poema, mais uma vez, pontua a natureza, uma indicação da temporalidade cíclica, certa ancestralidade (elementos do arcaico), de um lado, e a “ilegibilidade” do bando de meninos com sua juventude e frenesia, de outro.

No Brasil, Enrico Testa publicou em 2013 a coletânea Ablativo, pela Rafael Copetti Editor.

VUOTO D’ORE
il vuoto d’ore all’aeroporto di cagliari elmas,
da te patito con un certo dispitto,
l’ho poi colmato a poco a poco in vari modi:
un passaggio in libreria
con l’acquisto di un rulfo d’annata;
la lunga sosta beata nel self-service deserto:
insalata mista e trebbiano scadente
ma premessa di stordita requie.
I messaggi da casa:
un tamtam digitale
di quando torni? stai bene?
I viaggiatori incerti tra i banconi.
Le commesse ai negozi dei prodotti locali:
miele amaro e biscotti
parole e accenti diversi
e diversi modi di dire.
All’edicola per i giornali.

Persone: singolari e plurali.
Il dialogo con il volto inca
dell’addetta ai bagni,
faticoso ma amabile
e tutto in lingua mancina.
E poi fuori, seduti sulla panchina
di fronte ai pullman,
riconoscersi uguali nel grecale
che piega le palme.

Il vuoto lasciamolo al dopo
e ai suoi falsi, interessati profeti.
Al momento a me basta questo rosario di sguardi.
O anche solo il riflesso d’ambra
che, alla partenza o al ritorno,
inclina, nella stretta, l’occhio sulla mano
in cerca di conforto

VAZIO D’HORAS
o vazio d’horas no aeroporto de cagliari elmas,
pra ti tem preço de certo desprezo
depois, pouco a pouco, colmei em vários modos:
um passeio na livraria
com a compra de um rulfo de safra;
a longa parada beata no self-service deserto:
salada mista e trebbiano ordinário
mas premissa de desnorteante trégua.
As mensagens de casa:
um tamtam digital
digas quando voltas? estás bem?
Os viajantes indecisos entre os guichês.
As vendedoras nas lojas dos produtos locais:
mel amargo e biscoitos
palavras e sotaques diversos
e diversos modos de dizer.
À banca para os jornais.

Pessoas: singulares e plurais.
O diálogo com o rosto inca
da zeladora dos banheiros
fadigoso mas amável
e tudo numa língua manca.
E, ainda, lá fora, sentados no banco
na frente dos ônibus
reconhecer-se iguais no gregal
que dobra as palmeiras.

O vazio, deixamo-lo para depois
e para seus falsos, interessados profetas.
No momento, basta-me este rosário de olhares.
Ou mesmo só o reflexo âmbar
que, na partida e no retorno,
inclina, no aperto, o olho na mão
em busca de contorto

 

la timida biscia di maggio
fischiava sul sentiero
alla richiesta del perdono;
invitava l’ombra
a ricoprirsi con lo scialletto
freddo dell’abbandono

il dono non era che
un debito da saldare
a breve scadenza:
ciò che cercavi
non era la fine
ma solo un’idea
della pazienza

a tímida cobra de maio
assoprava na trilha
ao pedido do perdão;
convidava a sombra
a recobrir-se com o xalezinho
frio do abandono

o dom era somente
uma dívida, a ser paga
com certa urgência:
o que procuravas
não era o fim
mas só uma ideia
da paciência

 

anche quest’anno gli ippocastani del parco
sono tornati ad insolentirci
con i loro bianchi maestosi pennacchi,
la bambagina dei pioppi volteggiando riprende
il suo piumoso diavolío nel vento
e l’erba, col favore della pioggia,
ha invaso il giardino
come l’edera il muro
e le mosche la cucina.
Finita messa, i ragazzi
passano canticchiando beffardi
«estote parati! estote parati!»

E loro, strinati dalla primavera improvvisa,
sempre lí a chiedersi
se siano alleati, o nemici,
i libri, i fiori, le luci fugaci,
i soffi vischiosi, le voci
dolci acute invadenti
nascoste nelle cortecce o nelle fessure,
e per quanto tempo potranno ancora durare
le imposte cadenti marce di salmastro…

Qualcosa raschia sul fondo:
un «lasciatemi stare»
— luce di candele
corona di fiele —
o pianto o domanda sconosciuti
o forse pietà,
malcerta e fioca,
per questo misero branco di sperduti

também este ano os castanheiros da Índia no parque
recomeçaram a nos provocar
com seus brancos majestosos penachos,
a penugem dos choupos volteando retoma
seu plumoso esvoaçar ao vento
e a grama, com o favor da chuva,
invadiu o jardim,
como a era o muro
e as moscas a cozinha.
Acabada a missa, os meninos
passam cantarolando zombeteiros
«estote parati! estote parati!»

E eles, chamuscados pela primavera repentina,
sempre ali a se perguntar
se são aliados, ou inimigos,
os livros, as flores, as luzes fugazes,
os sopros viscosos, as vozes
doces agudas invasivas
escondidas nas cascas ou nas fissuras,
e por quanto tempo ainda poderão durar
os batentes bambos podres de maresia…

Algo arranha no fundo:
um “deixem-me em paz”
— luz de velas
coroa de fel —
ou choro ou pergunta desconhecidos
ou, talvez, piedade,
incerta e fraca,
por esse mísero bando de perdidos

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