Dom Casmurro

julho 2011 / Dom Casmurro / Poemas de César Cantoni

Texto publicado na edição #135

Poemas de César Cantoni

Onde estava Deus? Onde estava Deus quando se alastrou o incêndio e a humilde casa foi devorada pelas chamas? Como […]

> Por CÉSAR CANTONI

Onde estava Deus?

Onde estava Deus quando se alastrou o incêndio
e a humilde casa foi devorada pelas chamas?
Como pôde estar distraído, à uma hora da madrugada, em
pleno inverno,
enquanto as crianças dormiam em seu quarto,
abrigados numa estufa inflamada?
Que fazia que não olhou a sirene do caminhão do corpo de bombeiros,
os gritos sufocados da mãe voltando
do trabalho,
o desatino dos vizinhos em busca de ajuda?
Agora alguém buscará entre os restos fumegantes a
causa do sinistro;
alguém se encarregará de formular condenações.
Mas que pode importar isso aos pequenos mártires?
Eles querem saber por que ficaram sem
opções,
por que os cuidados do céu nunca chegam.

***

Aqui não há Deus

Aqui não há deus, nem grego nem romano,
que presida nenhuma cerimônia.
Não há ouro nem prêmio para os vencedores.

Aqui não há mais que um piquete de trabalhadores,
com martelos pneumáticos, quebrando a estrada,
fazendo um poço que não será nunca
o umbigo do mundo, a fonte das revelações.

Um poço mais fundo que o sentimento dos deuses,
mais negro que o próprio coração humano.

***

À maneira de William Carlos Williams

Só quero que saibas
que se detive minha marcha
diante da sua porta,

e não segui adiante,
e não cruzei a rua,
e não dobrei na esquina,

não foi porque esqueci
onde vive
o jardineiro

(a quem buscava
para podar
o alfeneiro),

mas porque teus olhos
me distraíram
do caminho.

***

Destruições

Corrompemos o ar,
devastamos as matas,
envenenamos a corrente dos rios.
E agora, o que esperamos?
Nos campos brumosos, o silvo da perdiz
é um duro lamento repetido.
A lebre, diante do cano da escopeta,
Somente pôde olhar com piedade o caçador.

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