Dom Casmurro

outubro 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Ana Blandiana

Texto publicado na edição #198

Poemas de Ana Blandiana

Ana Blandiana é conhecida como a “poeta anticomunista”

> Por VIVIANE DE SANTANA PAULO

A poeta romena Ana Blandiana

A poeta romena Ana Blandiana

Apresentação e tradução: Viviane de Santana Paulo

A romena Ana Blandiana quase chegou à presidência de seu país nos anos 1980, seguindo a tradição de Vaclaw Havel, em Praga, e Aspad Gomcz, em Budapeste, mas desistiu da política. Por quê? “Cresci com o meu pai lendo um poeta que se tornou primeiro ministro e meu pai sempre me dizia: que pena que ele se rebaixou a primeiro ministro!” Ana Blandiana é o pseudônimo de Otilia Valeria Coman, nascida em 25 de março de 1945, em Timisoara. A origem do pseudônimo deve-se à cidade natal de sua mãe. Blandiana é membro da Academia Mundial de Poesia (Unesco), possui livros traduzidos para mais de 24 idiomas e tornou-se um dos expoentes mais significativos da literatura romena atual, ao lado de Herta Müller.

Seu pai foi sacerdote na catedral ortodoxa Biserica cu Luna, em Oradea, militante político preso por “conspirar contra o Estado” ao participar da luta para a libertação do norte da Transilvânia, Hungria e Checoslováquia, e semanas após ser libertado morreu em um acidente de trânsito. Por ser filha de um “inimigo do Estado”, Blandiana foi proibida de estudar naquela época. Sua primeira publicação surgiu no jornal Tribuna, com o poema Originalitate, no qual a poeta esboça críticas ao regime de Gheorghe Gheorghiu-Dej. Por esta razão, ficou proibida de escrever e suas obras não podiam ser publicadas. Apesar das diversas represálias exercidas pelo regime, Blandiana consegue finalmente estudar e terminar o curso de filosofia, em 1967, na Universidade de Klausenburg.

O primeiro livro da autora, Persoana întâia plural (Primeira pessoa no plural), é publicado em 1964, dois anos depois surge, Călcâiul vulnerabil (O calcanhar de Aquiles). Blandiana trabalhou seis anos como redatora no jornal Viața Studențească (Vida de Estudante) e Amfiteatru (Anfiteatro), e como bibliotecária no Instituto de Artes Plásticas, em Bucareste, nos anos 1970. Novamente, foi proibida de escrever e mantida em prisão domiciliar após publicar o poema Motanul, contendo críticas ao regime de Ceausescu.

Ana Blandiana é conhecida como a “poeta anticomunista”, sua obra reflete o profundo conhecimento do sofrimento durante o período de opressão e concentra-se na derrota e esperança decorrentes desta experiência. O povo romeno também identifica-se com a poesia metafórica de Blandiana porque a sua origem procede da antiga poesia popular romena. A poeta a transforma, a rearticula de forma moderna, mantendo assim suas raízes, criando ao mesmo tempo uma nova forma de expressão. Segundo Hans Bergel, tradutor de Blandiana para o alemão, nenhum outro poeta romeno cultiva esta influência. O poeta e crítico espanhol Martín López-Vega descreve o traço mais característico de Ana Blandiana como sendo a capacidade de olhar de uma forma nova para as coisas vistas milhares de vezes, um pouco semelhante à polonesa Wislawa Szymborska.

 

Corabia cu poeţi

Poeţii cred că e o corabie
Şi se îmbarcă

Lăsaţi-mă să mă urc pe corabia cu poeţi
Înaintând pe valurile timpului
Fără să-şi clatine catargul
Şi fără să aibă nevoie să se mişte din loc
(Pentru că timpul se mişcă
În jurul ei tot mai repede).

Poeţii aşteaptă, şi refuză să doarmă
Refuză să moară,
Ca să nu piardă clipa din urmă
Când corabia se va desprende de ţărm —

Dar ce e nemurirea dacă nu
Chiar această corabie de piatră,
Aşteptând cu încăpăţânare ceva
Ce nu se va întâmpla niciodată?

 

O barco com os poetas

Os poetas acreditam ser um barco
E entram nele

Permita-me também eu embarcar neste barco
Avançando sobre as ondas do tempo
Sem que o mastro se arqueie
Sem que haja a necessidade de se mover do lugar
Porque o tempo passa cada vez mais célere
À volta do barco

Os poetas esperam, se recusam a dormir
Se recusam a morrer
Para não perder o último momento
Quando o barco se desprender da costa

Mas o que é a imortalidade se não
Este barco de pedra
Que espera com inabalável tenacidade
Aquilo que nunca se realizará?

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Orologii pe sine

Ceasurile din când în când
Se opresc, apoi pornesc mai departe,
Dar cei care sunt duşi astfel
Nu ştiu că ele s-au oprit
Şi cât timp au stat,
Şi cât de tare accelerează
Ca să se-ajungă din urmă,
Şi cum în câte-o parte s-a făcut gol
Şi câteva secunde pot să se lăfăie
În compartimentul unei întregi zile.
Pe când în altă parte
Mulţimile fac valuri-valuri
Şi se caţără pe acoperişuri, pe scări,
pe tampoane.
Cei duşi răspund conştiincios
“Am patruzeci şi doi de ani”,
Fără să stie că unele cifre sunt minute,
Lar atele mileni
Şi nici numele staţiilor
În care s-au oprit
Pentru a face cruce cu alţii
Sau fără motiv

 

Relógios nos trilhos

Relógios de vez em quando
Param, em seguida, funcionam
Mas aqueles que se entregam à viagem
Não sabem quando interromper
E por quanto tempo
Também não o quanto devem acelerar
Para resgatar o tempo
E em um final sempre haverá um lugar vago
De forma que um segundo possa lá se ajustar
No compartimento de um dia inteiro.
No outro final porém
Formam-se ondas de multidões
E erguem-se aos telhados, às escadas,
ao algodão.
Os passageiros respondem conscientes
“Eu tenho quarenta e dois anos”
Sem saber que alguns números são minutos,
Ou milênios
Sem conhecer todos os nomes das estações
Onde se encontram
Para cruzarem com outras pessoas
Ou por nenhuma significativa razão

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Cadran

Mai întâi dispar cifrele,
În timp ce imbile pipăie
Greoaie şi oarbe cadranul,
Nevenindu-le să creadă
Că nu mai au ce arăta.
Ceea ce nu-nseamnă nici pe departe
Că timpul nu mai există,
Dimpotrivă,
Că vârtejul trecerii lui a spulberat
Măsurile,
Puhoiul nu mai poate fi impărţit
În secunde, minute, ore, milenii,
Ci mătură tot, clepsidre, clopotniţe, orologii
Pe când, disperate, arătătoarele
Văslesc haotic prin aer
Nereuşind să arate nici măcar
Sfârşitul lumii

 

Girar

Primeiro desaparecem as cifras
Enquanto os ponteiros demoram
E cegos tateiam o mostrador
E indubitáveis acreditam
Não haver mais o que marcar
O que não significa
Não mais existir o tempo
Pelo contrário
O vórtice do seu efêmero alterou
O paradigma
A torrente do acúmulo não pode ser dividida
Em segundos, minutos, horas, milênios,
Tudo ela leva consigo, ampulhetas, sinos, relógios de torre
E os ponteiros desesperados
Remam caóticos no arIneptos eles próprios em apontar
O fim do mundo

NOTA
Poemas traduzidos do alemão, coletânea Uhren auf Schienen, seleção e posfácio de Franz Hodjak, Editora Ralf Liebe, Weilerswist, Alemanha, 2010.

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