Dom Casmurro

agosto 2016 / Dom Casmurro / Poemas de Alexandra Vieira de Almeida

Texto publicado na edição #196

Poemas de Alexandra Vieira de Almeida

Nove poemas da autora dos livros "Painel" e "Oferta"

> Por Alexandra Vieira de Almeida

Cápsula

Introdutório — como uma cápsula essencial
Introdução dos mitos, ele se detém na lanterna
O que convém à florescência que emerge
como arquitetura do mistério
A cor que se debruça
nos lábios dos dois seres
costura o artefato do milagre
não em deter-se na antevisão dos ritos
mas por si só soçobrar qualquer sombra de certezas
O animal que se esconde na moita
já está preparado para morrer
E nós jogamos o jogo da sorte?
Introduz-se no ser
a altaneira madrugada dos tecidos
Vértebras que se carcomem
na poeira dos lençóis
O homem-ser de pano
se extravasa de dores
Saem os suores do corpo
Os temores da sombra
se amotinam na cama
A cápsula da essência interior
é seu remédio mais preciso
mais vidente que o sol que folgueia
com as árvores em penitência
Introdutório — o sorriso do ser-homem
ultrapassa a sorte para se fazer destino
no entreabrir dos versos desta cápsula insana
que é o mundo.

 

Um espetáculo milagroso

Um espetáculo milagroso
Se abre no encontro dos seus olhos
O cálice do sim
Está cheio de seus silêncios meticulosos
Procuro o retrato de seu sol
Brilhando como ouro de interrogações
A água se oferta nas minhas mãos
Vazias e plenas de esperanças
O pássaro voa e canta
Sem saber em qual dia
O sol nascerá mais belo e raro
Refletindo seu rosto nu
Como nuvem macia e vívida de águas
Rios que nadam no espaço celeste
De suas janelas presentes de riso e introspecção
Talvez um misto de mares e cachoeiras
Que se encontram em vaga procissão de riscos
A palavra nada no fundo de seus olhos
Como caixinhas de surpresas líquidas
Na necessidade do encontro dos lábios
A delicadeza se esvazia de seu silêncio-relicário
E se funda na palavra exata e inaugural
O que era sombra se desfaz em luz
Reflexo de seu corpo solar
Os seus dedos teclam
O acorde dos destinos em voo lento e preciso
É hora da chuva colher os frutos raros
Para seu céu em festa
Quanta alegria se inaugura
No despertar de sua voz
O espetáculo milagroso
Não se esconde nas frestas da tristeza
Mas no entreabrir de seus olhos e boca
Que acolhem a beleza do universo.

 

Alfabeto transcendental

Um alfabeto que silencia a escrita
Que faz das letras um atalho para uma estrada esburacada
No meio da lama, encontro uma joia de medos
O medo insípido da humanidade
Em soletrar um alfabeto de cemitérios
Busco a transcendência das formas das letras
Suas sobrevidas, seus fantasmas
As palavras se inauguram na sua disformidade
Não na sua incumbência de levar a outro signo
Que não os signos das estrelas
As letras do alfabeto desencarnadas da vida
Não se fazem corpo de memórias
Mas batismo de espíritos translúcidos
Nas águas da unidade em meio a qualquer diferença enganosa
A comunhão dos signos
Se faz pela hóstia do silêncio
Que traduz o que a boca não vê
Transcendência de nomes
No papel mágico da vida.

 

A fragilidade do estar

A fragilidade do estar
do sentir a pele à beira do abismo
Ser ou estar?
Estar é uma dor do tempo
na inconstância das janelas fechadas
Não ser é a vastidão do infinito
no brinquedo da desrazão
A fragilidade
tem que se tornar uma força
na contagem dos zeros
multiplicados em versos
Poemas que não se deixam
entreter pela razão do mérito
O esvaziamento das caixas
abarrotadas de sentidos
Proliferação de vespas
que ferem o escudo do mundo
Frágil, o homem
construirá uma fortaleza de errância
vagando no descaminho da luz e da sombra.

 

Um gozo

Um gozo não seria o vazio
O que se esconde debaixo dos lençóis
Um vislumbrar do fim do dia
O pôr-do-sol?
Rosas deslizam naquele lugar
Em que as águas passeiam com o céu
A viagem do gozo se mostra
Como o silêncio da espera
O entre a vigília e o sono
Aquela penetração do horizonte
Não há limites para o gozo eterno
Despir é silenciar a mente
Atingir o orgasmo do esvaziamento
Em que as letras vermelhas
Desmaiam após o terremoto da vida
A música ao longe inaugura
O silêncio de minha energia
A força embalada pelos rascunhos da morte
Quero o travesseiro entupido de vozes secas
Que desconexas, apaguem a luz da história
A memória embaralha tudo, tenta corrigir segundos
Mas as peles se abrem naquela noite miraculosa
Em que senti o nada de desejos pelo nirvana de um gozo
Etéreo e pleno de desfolhagens.

 

Apague as ondas do mar

A dureza destas ondas
Enfim, o mar bravio, com suas reviravoltas
Não ao movimento das águas
a placidez perpétua
Apague as ondas do mar
elas estão no início e no fim de tudo
Deixe o mar morto em sua alternância
entre o sim e o não
Mover-se na sombra, deitar-se no mastro
ledo engano
Tempestades movimentam este mar vivo de fogo líquido
Quero transpirar o ar gelado
desaquecer as horas
encontrar a essência que não é essência
A solidão de um mar sem movimento
sem barcos, pescadores, ondas ou animais marinhos
Um mar cristal, fractal
sem nome ou esperança
Um mar do tamanho de minha sombra, porém
maior que o sol dos arrepios
Mar transparente, sem abismos
como a chuva mais fina do inverno
Mar sem ondas desiguais que criam a multiplicidade do mundo.

 

Quadros vazios

Pinturas sem tintas
Cores desfocadas do centro
Os quadros tiram suas máscaras de plenitude
As neblinas dos olhos interrogam estes retângulos
ou diríamos elipses?
Sozinho em sua moldura
o quadro espera uma resposta
Por que não questões bailarinas
a soletrar o espaço do esquecimento?
Os corpos se esvaziam do sangue tinto
São secos como os ossos, ardentes como palhas
O fogo-fátuo das imagens se evaporam no céu inatingível
As perspectivas se calam no silêncio dos ilimitados traços
que não desenham um rosto ou natureza-morta
A vida é desossar estas bases perpendiculares
Escolher o quadro branco da antevisão do nada
Quadros destrancam as portas das perguntas
E lançam nas telas em branco a matéria das possibilidades
Por que não a impossibilidade?
Exaurir as tintas dos potes?
Depenar os pincéis dos limites?
Os quadros brancos preparam a festa de um anti-sol
E de uma anti-lua
Os quadros colidem e formam a implosão do mundo.

 

Poema para dias de chuva

Aproximo-me
de teu ser pelo gostar de mim
e de ti na comunhão do novo
Tu és a beleza que se traduz em inteligência
tendo tua própria realidade
Tens uma perspectiva diferenciada,
uma bela fotografia,
misteriosa e aberta ao imaginário e à criatividade
Mais do que uma fotografia,
talvez uma pintura que refaça
as cores dos dias,
em novos e inusitados encontros
Tu és a imprevisibilidade da chuva
além das meteorologias
e isto me encanta
As pessoas estão acostumadas com a superficialidade,
com a previsibilidade e os números do sem mistério
Por que não a utopia de um zero, surgindo daí a chuva?
Isto se abre a um céu repleto de constelações
Você naufragou o céu no meu ser
que não era um barco no mar
mas uma tempestade de mar dentro de mim
Há muito tempo não me emocionava
e chorava com tanto poetar
A chuva cresceu em mim após ter te conhecido
Minha sensibilidade aflorou
e a arte se tornou mais bela,
prenhe de desejar o universo e os versos.

 

Máscaras

No carnaval
As máscaras adornam
A exuberância dos lampejos
Não das ideias
Mas da corporeidade do fogo
Máscaras que cortam
As ruas de folguedos
Ou por dentro de si
Expõem a pele do interior
Onde mora o silêncio e os afetos
Os objetos de face dupla
Em que o dentro e o fora
Se apresentam como duas asas
Do pássaro no horizonte
Unindo as duas pontas do ser
Não é de fora que as máscaras riem
É de dentro dos corpos
No meio das fantasias tecidas
Pelo espelho do labirinto invertido
O que era cara aparece como o licor da alma
Delicioso de se tragar, nadando nos lençóis dos folguedos
As máscaras do tamanho das palmas de minha mão
Expondo segredos das vitrines dos corpos
Dançando as aleluias da oração mais interna
É tempo de costurar outras máscaras
Mais distantes dos eus, mais vizinhas dos corpos
É hora de partir as máscaras em dois
E multiplicar a equação das formas
Nos carnavais em batismo dos corpos em chama
Máscaras, os segredos dos corpos nus, ou a nudez das almas?
Esconder a face ou expor a vida em festa?
Cabe a você a resposta, máscara.

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