Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / Poema, tempo e paisagem

Texto publicado na edição #156

Poema, tempo e paisagem

Um rio pode ser artéria e veia, essência e descarte. Um rio pode trazer riqueza e lixo, vida e morte. […]

> Por PAULA CAJATY

Um rio pode ser artéria e veia, essência e descarte. Um rio pode trazer riqueza e lixo, vida e morte. Ele pode ser tudo isso, numa representação mista de glória e assombro, em um paradoxo infinito. Ronaldo Werneck explora, minera, garimpa em palavras, imagens e sentidos todo o encanto e desencanto do Rio Pomba, artéria e veia de Cataguases, e termina por reencontrá-lo em outras águas, em outras paragens pelo mundo.

Ronaldo lançara Pomba poema em 1977 em homenagem ao centenário de Cataguases. Novamente, em Cataminas Pomba & outros rios, há uma homenagem significativa: até hoje impune, o crime ambiental contra o Pomba faz dez anos neste 2013. O poeta aproveita a ocasião para reverenciar a cidade e seu rio com registros indeléveis da memória — palavra e imagem —, compondo um livro leve, inteligente, com o tempero próprio da mineirice. Unindo passado e presente, poesia e fotografia, Ronaldo passeia e retorna sempre ao seu tema predileto: o Pomba e sua vida entrelaçada à do próprio autor, com pontes, margens, humores, cores, águas mansas e corredeiras.

Balaio do mundo
Estão reunidos em Cataminas Pomba citações de poetas que também se debruçaram sobre rios — Gonçalves Dias, Francisco Marcelo Cabral, Torquato Neto, Drummond, Ascânio Lopes, João Cabral e outros mais. Também compõem esta edição os registros dos livros Pomba poema e de Minas em mim e o mar esse trem azul (1999), além de apresentações e fragmentos que contam a história desse rio de Ronaldo. No posfácio, parte do ensaio de Lina Tâmega Peixoto sobre a poesia do autor, bem como sua fortuna crítica, composta de cartas, textos e excertos de jornais.

Ronaldo dedica o livro a Cataguases, seu rio e sua gente. Os textos poéticos vão separados como em livros dentro do próprio livro. Abre-se o livro com Cataminas: Cataguases et caterva, séculos XX & XXI, para depois voltarmos ao renovado Pomba poema: Itaipu-Cataguases-Cabrália/ Rio de Janeiro: verão 1977, versão 2011, e finalmente desembocarmos nos Outros rios: Rio-Toledo/ Madri-Roma/ Coimbra-Argel-Blumenau/ Asunción-Londres-Lisboa / Firenze-Porto-Paris-Minas: 1977/2012.

Cataminas é livro-poema, documentário, registro, repositório cultural, acervo pessoal que Ronaldo Werneck oferece ao público: primeiramente, aos ktás, povo de Cataguases e, depois, a todos aqueles que não fazem idéia do que seja a representação de um rio enquanto único manancial de água da cidade. Cataminas reúne poemas leves, mas não menos profundos, musicados, ritmados e sensoriais, em que se lança mão da tipologia e da formatação ao estilo de e. e. cummings: não basta a palavra, mas a força da letra e o espaço em branco que a espalha.

Às bordas do Tâmisa ou do Arno, Ronaldo Werneck observou seu mesmo rio cingindo a cidade ao tempo que unia o povo em suas margens. Margens que separam e cerzem o povo: “olha cá meu senhor/ sem o sol de rimbaud/ o oise é um rio/ francês de cataguases”. Em palavras leves, soltas, dispersas e próximas, ele identifica sua proximidade com estrangeiros que, como os ktás, já amaram aquelas águas, fizeram juras de amor sob aquelas pontes e também se arriscaram a usar o rio como trânsito, comércio, esgoto. Um erro que sempre cobra uma fatura alta demais:

bajo la puente/ de toledo/ passa pardo/ o manzanares/ mas não está ali/ o azul do céu/ a claridade/ de madri/ é antes/ um fulgor/ fenecido/ amarelo e triste e barro/ bajo la puente de toledo/ longe/ ao largo da gran via/ ele não vê/ velázquez/ las meninas/ sombra & espelho/ bajo la puente de toledo

Registro essencial
Ronaldo Werneck monta seu livro, largo feito rio, com imagens e lembranças, referências tão únicas e também universais. De fato, o livro tem algo de colagem, de montagens, um sabor de livro-arte experimental: uma aura do tempo em que recortávamos revistas e jornais para registrar a história. Essa necessidade documental de um interior que só aparece nos desastres tem sensibilizado o povo mineiro a mostrar uma Cataguases cultural, viva, pulsante, cheia de regionalismos que, antes de a diminuírem, a diferenciam e elevam como mostra da riqueza e diversidade brasileiras.

Hoje a história passa na internet feito corredeira, onde os parcos itens das retrospectivas anuais determinam o que devemos lembrar de cada ano, seja no Brasil ou no mundo. Talvez seja preciso voltarmos à tesoura e à cola. Para separar o que nos é essencial, guardar o que nos define e comove.

Talvez por isso a necessidade de Werneck de fazer esse livro-guia-poema-fotografia. Se não fizermos como Ronaldo, escrevendo, compondo, tecendo as histórias que nos caracterizam, se delegamos o registro do essencial àqueles que não se sensibilizam com memórias pessoais e comunitárias, a sentença é a mesma: o que não for selecionado será descartado no rio de bytes da internet. Atirado do alto da ponte da tecla delete. Feito água de rio, não volta nunca mais.

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Ronaldo Werneck

Poeta e cronista, editor e produtor cultural, Ronaldo Werneck nasceu em Cataguases (MG) em 1943. Morou por mais de trinta anos no Rio de Janeiro (RJ), onde colaborou com vários jornais e revistas. Participou de diversas antologias literárias e possui sete livros de poemas, entre eles Pomba poema (1977), Minas em mim e o mar esse trem azul (1999) e Mineirar o branco (2008), e três livros de prosa (ensaio e os dois volumes de crônicas Há controvérsias).

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Ronaldo Werneck
Dobra
268 págs.