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outubro 2012 / Translato / Pluralidades de originais e traduções

Texto publicado na edição #150

Pluralidades de originais e traduções

Há várias pluralidades na tradução. O texto de partida, claro, detona a proliferação de múltiplas interpretações. Texto vivo, plástico, plural. […]

> Por EDUARDO FERREIRA

Há várias pluralidades na tradução. O texto de partida, claro, detona a proliferação de múltiplas interpretações. Texto vivo, plástico, plural. Imparável processo de derivações pendentes de outras derivações. Pletora de sugestões que conduzem ao descaminho e à dissolução — fracionamento do texto que tão singular parecia no papel.

O ato de traduzir é plural. Leva o tradutor em recessos, quebradas, picadas — sem esperança de encontrar aquela avenida larga à luz do dia. Tradução não se faz à luz do dia. Tarefa soturna, noturna, solitária. Dissecador de textos, o tradutor opera no limite da salubridade. Até onde é possível manter a sanidade em meio a tantos desvãos?

Plural, o texto em tradução é matéria de análise e brincadeira literária. Um pouco de ludismo, um tanto de rigor. Pesquisa séria e criatividade com rédeas frouxas. Largando o pensamento — que puxe todos os fios, deixe, que nenhum deles leva mesmo a nenhum lugar. Impossível medir com régua tão reta e precisa.

Já traduzido, o texto — agora esculpido em papel definitivo — parecia livre da doença. Até sua primeira leitura. Ou releitura. Não releias nunca, pois não deixarás de corrigi-lo. Plural proliferação.

Plural, a tradução abre portas: há sempre escape para o excesso de rigor. Ou mesmo para o rigor sem excesso. Fácil escudar-se mostrando o conjunto interminável de portas que se abrem a partir do texto original. Cada qual desembocando em sua tradução singular, que singular permanece até que a leitura venha de novo impor o caos.

Pluralize o texto: traduza. Ainda que não plural no início, a tradução já será pelo menos dois textos: ela e seu original. O resto — maldita dispersão! — farão as leituras e, sobretudo, as releituras.

Plural, o texto não é lugar de consolidações. Nada ali está gravado a ferro e fogo. Elemento diáfano, próprio para deixar passar luzes e pensamentos. Barthesianamente plurais, texto e traduções são lugar de instabilidades. Cada leitura atravessa o texto por caminhos quase irrepetíveis — como encontrar o caminho de volta se você não soltou o fio? E quem se lembra disso? Mas quem, mesmo se lembrando, terá a louca pachorra de fazê-lo?

Texto como estrutura inconstante. Nada que possa fixá-lo para todo o sempre, apesar de todo o fervor de nossas orações e esperanças. O texto é lugar de passagem e não dura mais nem menos que seu autor ou tradutor — todos sujeitos que estão a releituras suas ou de outros.

O plural que dissemina e infunde sopro novo de vida é o mesmo que insufla o hálito de morte — morte pelo excesso e pelo caos, quando se atinge o limite da inteligibilidade. Texto agora ilegível e, portanto, intraduzível. Como traduzir o que não se entende? Antes, a pedra de Roseta. Só depois a tradução.

Tradutor que tenta matar a pluralidade do original dá à luz texto torto — não menos plural, talvez, mas certamente morto como mar com sal demais. É preciso preservar a pluralidade justamente para ser fiel às tantas veredas abertas pelo original.

Plural, o texto hesita em entregar sentidos definitivos. Não titubeia em instilar o veneno da dúvida. A pluralidade se estende de palavra a palavra, frase a frase, em movimento contínuo que não deixa espaço vazio nem ocasião de contestação. Como questionar aquilo que faz do texto objeto tão instigante?

Pluralidade como vínculo contínuo entre idéia, palavra e sua tradução. Visgo que liga e amalgama — e faz a fantasia que anima a literatura. Cada travessia se faz contínua na leitura — como se puxasse fio único que deslizasse pelas mil trifurcações. Singular como o original, plural como toda tradução.

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