Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Pintura do cotidiano

Texto publicado na edição #104

Pintura do cotidiano

Dalila Teles Veras sente-se, quase sempre, numa janela a espiar a vida e as coisas ao seu redor. É quando […]

> Por ÁLVARO ALVES DE FARIA

Dalila Teles Veras sente-se, quase sempre, numa janela a espiar a vida e as coisas ao seu redor. É quando ela pode examinar o que chama de avesso das coisas, do que vê. Nesse momento, sente algo parecido com remorso. Este livro Retratos falhados é uma espécie de pintura de seu cotidiano e também de sua memória. Como ela esclarece, são retratos imprecisos, distorcidos. E nisso pode se explicar a poesia: “Mas a poesia é, também, a tentativa de dizer o inaudito ou aquilo que não parece ser, mas é. Tentativa de percorrer caminhos ainda não sinalizados”.

Retrato falhados de Dalila Teles Veras pertence à Coleção Ponte Velha, da Escrituras, que publica poetas e escritores portugueses. Dalila é natural do Funchal, Ilha da Madeira, onde nasceu em 1946. Vive no Brasil desde 1957, hoje na cidade de Santo André, na Grande São Paulo. Autora de vários livros de poemas e de prosa, é dona de livraria e atua na área cultural do ABC paulista.

Este novo livro representa mais uma afirmação da poeta que ela é. Cite-se, como exemplo, dois poemas que dedica ao Dia de Finados, uma poesia não apenas de observação, mas de sentimento, das palavras colhidas onde o ser se encontra por inteiro: “Ofereço-te uma rosa/ (gostavas tanto delas…)/orações seculares/ poemas enlutados/ e este pranto incontido/ à beira do teu jazigo”.

Nesse mesmo poema, três versos podem fazer o retrato da poeta: “Inúteis heranças lusas/ que não lavam dores/ nem preenchem vazios”. Destaque-se, ainda, o poema memória, em que Dalila Teles Veras foi buscar um quadro antigo que faz parte dessa fotografia invisível na parede de sua sala: “Em meu dedo/ o teu dedal/ (tento, mãe/ costurar tua memória/ prender-te ao que me resta)/ Incertos pontos/ em que a visa embaraçada/ não deixa urdir”.

Os textos em forma de prosa poética e os poemas de Retratos falhados foram escritos depois que Dalila publicou A janela dos dias, em 2002, reunindo toda sua obra até então. Trata-se de uma poeta consciente de seu ofício de escrever. Especialmente no que diz respeito à poesia, campo de tantas aventuras inócuas e inconseqüências. É uma mulher poeta que sabe da palavra, do poema, da poesia. E elabora sua obra com o cuidado da ave que constrói seu ninho num alpendre, para salvar-se das intempéries. E as intempéries são muitas.

Por isso este livro deve merecer um lugar especial na vida de Dalila Teles Veras, em que a poesia não é mera decoração. É mais, o que inclui decisivamente a existência. E o que inclui a existência e a respiração pode ser o significado maior da poesia. Como escritora brasileira nascida em Portugal, ela afirma com absoluta razão: “Difícil desvencilhar-se da carga atávica e das heranças avós”.

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Dalila Teles_livro

Dalila Teles Veras
Escrituras
120 págs.