Ruído branco

julho 2014 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (final)

Texto publicado na edição #172

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (final)

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta: Tendo em vista a quantidade de livros […]

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Joaci Pereira Furtado
O título da pesquisa para a qual você pede meu depoimento já me parece discutível, já que evolução é palavra carregada de juízo de valor, no sentido de progresso – entendido, em geral, do pior para o melhor (ou, de qualquer modo, de movimento de um lugar para outro, que pressupõe o olhar teleológico ou onisciente de quem enuncia essa evolução: se a literatura evolui no Brasil, ela está indo ou espera-se que vá para determinado ponto que, acho, deveria ser explicitado).

Feita essa observação, digo que julgar o atual momento do conjunto da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas com um simples bom, mediano ou ruim seria reproduzir a classificação superficial que o jornalismo de cultura pratica para orientar o gosto de seu leitor médio, certamente carente de quem julgue por ele o que vale a pena ser lido ou, mais precisamente, comprado – já que, agora mais do que nunca, cultura é produto, sujeito a julgamentos de quem vai às compras, como o que me pede.

Mesmo admitindo a possibilidade de resumir a avaliação dessa produção artística a uma dessas palavras, seria necessário conhecer profundamente o que se tem escrito nos dois gêneros ao menos nos últimos dez anos – o que não é meu caso.

Como ex-editor da Globo Livros e dos selos Tordesilhas e Tordesilhinhas (se, como tal, minha opinião lhe interessa), o que posso dizer é que, apesar da facilidade de publicação propiciada pelas novas tecnologias, as editoras com maior visibilidade estão cada vez mais refratárias à publicação de poetas que já não estejam devidamente reconhecidos (o que torna ainda mais árduo o caminho para os jovens versejadores). E, ainda assim, publica-se sempre mais prosa. Esta, por sua vez, tem que disputar espaço, em condições bastante desvantajosas, com a chamada literatura comercial, que justifica o negócio da editoras, inclusive a não ficção (como as biografias, que para mim não passam de uma sobrevivência bastante tardia do romance realista do século 19 travestida de reportagem ou história).
Joaci Pereira Furtado é professor do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense

Oscar D’Ambrosio
Escrever sobre a literatura brasileira hoje é um desafio. O binômio quantidade x qualidade nunca esteve tão presente, e isso gera algumas abordagens possíveis. A primeira: quantidade e qualidade são excepcionais. A segunda: temos quantidade e falta qualidade. A terceira: a quantidade ainda é inexpressiva, mas temos qualidade. A quarta: tanto a quantidade quanto a qualidade deixam a desejar.

Dentro dessas possibilidades, cabe uma breve reflexão. Creio que, pelas dimensões continentais do país, ainda se produz pouco e, portanto, desse pouco, é natural que surja um grupo que apresente um trabalho mais qualificado. A grande questão ainda me parece ser o fracasso nacional na formação de leitores. Além disso, numa civilização cada vez mais visual, a palavra perde espaço. E não vejo isso como ruim, mas como um novo caminho que se abre para a literatura.

Os novos meios trazem novos desafios, e um deles está nas interfaces da literatura com outras artes, como as visuais, principalmente a fotografia, o vídeo e as imagens digitais. A literatura não está melhor ou pior. Está mudando e não estamos percebendo isso, nem sabendo como lidar. Os parâmetros que conhecemos de quantidade x qualidade estão ultrapassados, porque, com as publicações online, é impossível medir quantidade e, com a presente relativização de tudo aquilo que se conhece e se imagina, definir qualidade, instância cada vez mais intrinsecamente subjetiva, me parece ser uma utopia.

Sendo assim, dentro dos dois mil caracteres com espaços que esta pesquisa me permite, e sem fugir ao desafio proposto, respondo que a literatura brasileira não está num momento nem bom, mediano ou ruim. Ela está deixando de existir tal qual a conhecemos e está caminhando, com as novas gerações, numa nova direção que ainda não estamos sabendo detectar. Hoje, escritores e poetas cada vez mais escrevem para si mesmos, gerando uma espécie de ilha que se fasta perigosamente cada vez mais da sociedade como um todo. Isso é ruim.
Oscar D’Ambrosio é jornalista e crítico de arte

Flávio Viegas Amoreira
A literatura brasileira, num sentido amplo e sem precedentes de criação, não só em quantidade, mas em densidade e cosmopolitismo, vive hoje um momento gozosamente rico: inapreensível, literatura do estilhaço, quando, por razões cibernéticas e mutações urbanas, não existem mais centros canônicos e em definitivo nos libertamos de todas as peias: acadêmicas, de patotas de redação e tchurmas ungindo e validando a produção dum escritor. Que o arrivismo, o nepotismo e os jogos de influência persistem, isso é da razão do mercado editorial, da companhia das índias autorais, não da insurgência que se desdobra como Literatura de Resistência, através da contaminação virtuosa de pequenas editoras, da descentralização dos eixos de divulgação, da desnormatização através de suportes heterodoxos. Levando em consideração esse renascimento hightech internético que não cria conteúdo novo, mas forja espaços para neoconstruções narrativas e poéticas, e para a retroalimentação de gêneros entre pontes artísticas inauditas. Nascido num porto mítico próximo à megalópole, ainda adolescente eu vibrava com escritores saídos pela Massao Ohno e pela Brasiliense: ainda assim, até os vinte e cinco anos, não me encorajei a bater em porta de editora. Freqüentava os bares, sebos e teatros undergrounds do cais de Santos, da Teodoro Sampaio, em Sampa, e da Barata Ribeiro, no Rio. Que chances tinha um escritor ainda cabaço de convívio literário, fora dos muros da USP, de esquerda, enquanto ruía o muro de Berlim, gay temeroso quando a aids surgia, de encontrar uma porta naquele fim de ditadura brasileira? Ver Plínio Marcos, meu conterrâneo, pelo Copan, e João Antônio, pelo Copacabana, era o máximo de concretude, sinal de que existiam escritores pelas ruas, feito eu! Anotava sofregamente em cadernos infindáveis, com um olho em Rilke e outro em Wilson Martins, lendo tudo de Haroldo de Campos, sem descuidar dos livros de Affonso Romano de Sant’Anna: além das ortodoxias dicotômicas, um escritor precisava ter um galho na PUC ou na Folha. Eu me imaginava, já quase aos trinta anos, um poeta na gaveta. Eis que surge a facilidade do e-mail para este panicoso bipolar. Sou editado pela já antológica 7 Letras, surgem chats literários com João Silvério Trevisan, blogs dos autores da Geração 90 e da Zero Zero, megaportais feito o Cronópios e convites para intermináveis saraus em transe: a re-descoberta da literatura pelo teatro, pelo cinema e pelas artes plásticas. A Literatura não nos faz reféns dos ditames monolíticos do mercado, encontramos brechas deleuzianas, produzimos em larga escala no universo digital paralelamente à produção de livros artesanais pela Dulcinéia Catadora: a TranZmodernidade me salvou do alcoolismo inédito… Sem ufanismo, em retrospecto: me impressiona a quantidade de jovens interessados em Alta Literatura, ainda que começando presos à punheta bukowskiana. Enquanto eu esperava anos pra ler Lautréamont, eles podem comprar em pocketbook nas bancas, e quando imagino a antiga luta para comprar Cioran, vejo que suas obras completas são clicadas e ruminadas com sutileza chinesa por Rimbauds da Vila Madalena! Só o que falta é política pública para a leitura: o Brasil ainda não está à altura da profundez de sua escritura. Criar demanda interna, ultrapassar a antropofagia levando ao mundo nossa imagética: vamos criar o boom tupiniquim! A rua Augusta tem mais valores literários do que os convescotes livreiros de Paraty a Bloomsbury inteiros.
Flávio Viegas Amoreira é autor de Desaforismos (Edições Caiçaras, 2014)

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