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setembro 2013 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (6)

Texto publicado na edição #162

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (6)

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta: Tendo em vista a quantidade de livros […]

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Ivan Marques
Eu diria que a literatura brasileira vive atualmente um bom momento, não porque as obras surgidas nos últimos dez ou vinte anos apresentem uma qualidade extraordinária (o que fica evidente a partir da comparação com outros períodos da produção poética e ficcional ao longo do século 20, mais ricos em termos de qualidade literária e impacto cultural), mas porque houve um notável crescimento do mercado editorial e dos eventos em torno da literatura, que por sua vez refletem o crescimento do número de leitores, e sobretudo porque aumentou bastante a quantidade de poetas e prosadores em atividade no Brasil. Individualmente, acho que não se deve exagerar o valor dessas obras apenas porque são contemporâneas, mas o conjunto formado por elas é inegavelmente expressivo e auspicioso.
Ivan Marques é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo.

 

Jiro Takahashi

Panorama visto da ponte
Neste depoimento, de caráter impressionista e superficial, vou evitar falar de momentos marcados pelo surgimento dos grandes gênios literários, como Machado de Assis, que despontam até em condições desfavoráveis. Não vou negar que a fama de uma literatura no exterior se deve a eles, como podem atestar as obras de Dostoiévski e Tólstoi na Rússia, Akutagawa no Japão, Kafka na velha Checoslováquia e assim por diante. O Brasil também tem a sorte de ter Graciliano, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Mas deixemos essa questão para um estudo mais aprofundado. Aqui a idéia é pensar um pouco coletivamente, pensar em alguns momentos que senti como significativos no Brasil por algumas razões.

Na segunda metade dos anos 1960, quando comecei a trabalhar na Ática, eram os primeiros anos da ditadura militar. É claro que isso deve ter afetado o cenário literário, mas não saberia dizer em que medida. Eu podia ver os escritores que haviam se consagrado em décadas anteriores resistindo bravamente em seus espaços. As poucas chances dos novos escritores restringiam-se a concursos literários — lembro como ficávamos ansiosos aguardando os resultados do concurso do Paraná — e a suplementos literários. Em grande parte isso poderia explicar a explosão do conto na época. Corriam muitas notícias em tom de brincadeira sobre a impressionante quantidade de contistas mineiros circulando pelos bares do edifício Maletta, próximo à redação do Suplemento Literário de Minas Gerais, dirigido por Murilo Rubião, grande contista.

João Antônio utilizava uma expressão que eu sempre achei muito feliz para o momento que os novos escritores viviam editorialmente: a literatura estava congelada. Como se estivesse em uma ponte, via que a Ática, como quase todas as editoras brasileiras, também não abria espaço para o processo de descongelamento da literatura. Na metade dos anos 1970, na esteira da conquista de um bom espaço para a literatura juvenil brasileira, eu perceberia novas estradas se abrindo.

Panorama visto da estrada
Como Affonso Romano de Sant’Anna aponta no tópico nove de seu depoimento (Rascunho — maio/2013), no final dos anos 1970, escritores como João Antônio, Ignácio de Loyola, Antônio Torres, Wander Piroli, Deonísio da Silva e tantos outros — até mesmo Lygia Fagundes Telles —, viraram viajantes literários, um novo bandeirantismo desbravando o interior com palestras em faculdades, divulgando seus livros, como já faziam os chamados poetas marginais nas portas de teatro e bares das grandes capitais.

Escritores bem sucedidos em concursos literários passaram a ser acolhidos por algumas editoras e pudemos ler ficcionistas de peso, como Sérgio Sant’Anna, Moacyr Scliar, Luiz Vilela, Dalton Trevisan e tantos outros. Uma marca recorrente era a rebeldia, embora de forma diferente de autor para autor. Para mim foi a época em que publicávamos as coleções Nosso Tempo e Autores Brasileiros — com ênfase nos autores inéditos — pela Ática. A Brasiliense, a Nova Fronteira, a Brasília, a Civilização Brasileira e a José Olympio participaram fortemente desse processo de descongelamento da literatura brasileira.

A partir da virada dos anos 1990, acompanhamos o processo de profissionalização do escritor, mesmo novo, que já passa a negociar condições de contrato, muitas vezes com a parceria de um agente literário. Junto a isso, uma salutar valorização da expressão literária que se harmonize com o conteúdo.

Panorama visto do shopping
Hoje se publica mais facilmente um novo escritor. Não se pode negar que o cenário que se vê é de uma movimentação muito grande. Apesar de divergências quanto aos dados, quaisquer números sobre a publicação de autores contemporâneos nos últimos dez anos são bem maiores do que em décadas anteriores. Quando um autor se vê com alguma dificuldade para encontrar um bom editor, volta-se para a auto-publicacão, hoje com muitos recursos midiáticos disponíveis.

Não se pode dizer o mesmo quanto às vendas. Aparentemente paradoxal, não há tanto espaço para o novo escritor nas seções literárias dos grandes jornais e das grandes revistas nem nas gôndolas das grandes redes de livrarias. Enfim, uma situação que merece uma análise mais cuidadosa.

Porém, há um bom número de concursos literários, com corpos de jurados respeitados e prêmios idem, um estímulo para novos e velhos autores.

Nos últimos anos, vemos surgir grupos, eventos, movimentos, todos com focos determinados e com abertura crítica para novas vozes, como — só para citar alguns de memória — Rompendo o Silêncio (na Casa das Rosas); Coletivo 21, de Belo Horizonte; Cooperifa, com Sérgio Vaz.

As redes sociais do mundo virtual constituem uma nova realidade. Guardadas as proporções, lembram as mudanças de comportamento durante o surgimento da grande imprensa, do rádio e da televisão. De que modo elas afetarão a difusão da literatura? Ao lado disso, há um bom número de autores surgindo em blogues e portais literários. Alguns já apostam de início em e-books, tema para ser estudado seriamente.

Enfim, na evolução literária, que papel estão desempenhando as livrarias físicas e as virtuais? Como irão conviver os livros impressos e digitais? Como o público leitor está se comportando neste contexto tão plural de hoje?
Jiro Takahashi é professor e editor.

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