Ruído branco

agosto 2013 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (4)

Texto publicado na edição #160

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (4)

Andréa del Fuego, Paulo Scott e Rinaldo de Fernandes comentam o atual momento da literatura brasileira

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Andréa del Fuego
Ainda que haja poucos leitores, a possibilidade de que em cada safra de novos leitores exista ao menos alguém com interesse pela ficção já justifica que um escritor saia do armário para a prateleira. Mas ainda que um se realize com o outro, a existência do leitor não pode estar ligada à existência da escrita. Talvez porque a escrita não seja apenas um desejo, mas necessidade, e existirá ainda que o mundo entre em guerra, em fome, em barbárie, ainda que esse registro encontre seu leitor em outro tempo. Um dos problemas de se qualificar a literatura está em levar em conta o mercado, um parâmetro volátil. O prazer literário é uma busca, o leitor peregrina de livro em livro até que encontre uma fruição que justifique a busca pelo próximo. O leitor é muitas vezes subjugado, tido como número, como consumidor a ser conquistado — alcançar o maior número de leitores é um objetivo.

O problema é que, no caso literário, entre o leitor e o livro não há consumo, mas encontro. Um certo envolvimento que se dá silenciosamente, na solidão de quem aprecia o estado de leitura. Não se pode sair com uma rede e jogá-la no meio da avenida para pescar leitores. O leitor tem o direito de negar-se a ler, pois aqui a liberdade não é só a do escritor de escrever o que bem entender, mas do leitor em abandonar ou nem mesmo abrir o livro de determinado autor. Se um dos parâmetros de qualidade for a quantidade de leitores ou vendas, esse critério por si eclipsa o que verdadeiramente acontece entre um leitor e um livro. Se houver muitos encontros, leitores aos contêineres, isso ainda permanecerá no mistério do encontro que o próprio mercado desconhece e não controla.

Saindo dos números, talvez estejamos cometendo outro erro nessa avaliação, que é primeiro analisar o autor e não a obra. Paira no ar uma idéia de que o escritor deve ter uma vida equivalente à sua obra. Se tem um cotidiano banal ou opiniões medíocres, ele não encarna um ideal de artista que estaria ou em estado febril de criação ou em estado meditativo de puro contato com a arte, sabe-se lá onde. Uma esperança de que o autor recupere toda uma tradição cultural, que carregue o espírito do mundo. O mistério entre a obra e o autor está cada vez menor e acredito que isso seja um dos culpados pela opinião de que não há mais obra, apenas autores.

Espera-se que o autor recolha do mundo aquilo que nós leitores não temos tempo, oportunidade e dom para fazê-lo. Justamente porque o bom autor é menor que sua obra, a pergunta é se haverá autonomia do texto em relação ao autor e ao seu tempo. A atual tendência ao consumo do autor, de sua espetacularização, pode tirar o tempo de mergulho do escritor, mas o ajuda a pagar a luz e o almoço. Autor não é vento. O boom das oficinas de escrita criativa, os meios fáceis e livres de publicação são outros fatores que favorecem uma produção plural — seus frutos já estão nas livrarias, são obras buscando encontro.

Andréa del Fuego é autora de Os Malaquias (Língua Geral, 2011)

Paulo Scott
Não há, com relação à produção em si, um bom momento ou um momento especial. É certo que — para pegar uma observação que é sua, Luiz, quando você reflete sobre a perspectiva da narrativa curta e a quantidade dos que a produzem — verificou-se num determinado momento que as estréias, as primeiras publicações de autores desconhecidos, passaram a se revelar com significativo grau de inovação e densidade temática. Há, sim, uma pequena revolução tecnológica, um amadurecimento do mercado — mesmo que de um mercado induzido —, um aumento episódico da capacidade financeira de certas classes para adquirir produtos de cultura como livros (considerando que não se paga mais por músicas ou filmes, são produtos que se baixa de graça) e uma maior segurança — uma diminuição do complexo de vira-lata — na afirmação de nomes de uma nova geração de escritores, tudo isso configurando um cenário mais otimista, uma promessa que pode ou não se confirmar mais adiante.

Um país que mal descobriu Lúcio Cardoso agora possibilita que os agentes editoriais mais expressivos banquem apostas e acionem certa máquina publicitária para sustentar novos nomes, novos autores. Penso que a onda do início do século 21 é mais significativa. O que se verifica hoje é que os reflexos começam a se fazer notar, principalmente quando se fala em narrativa longa. Há um aprendizado bem-sucedido de como se posicionar como autor (a internet acabou de vez com a ingenuidade do escritor brasileiro contemporâneo, todas as informações estão à mão). Há, em termos quantitativos, mais segurança na linguagem, uma possibilidade de afirmar vozes próprias no campo da narrativa longa. No campo da poesia, por sua vez, penso que há sim uma revolução acontecendo, uma revolução que atualiza a produção nacional, emparelhando-a com o que está sendo feito neste momento lá fora. Escrevi para a revista Bravo! sobre isso, não sei se vão publicar. O poeta brasileiro, sob a óptica da quantidade, está mais destemido.

Paulo Scott é autor de Habitante irreal (Alfaguara, 2011)

Rinaldo de Fernandes
Sempre se extrai boas obras da quantidade. A produção literária brasileira atual tem um dado curioso — os autores mais importantes estão hoje na faixa de oitenta anos. São eles (ficcionistas e poetas): Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Ariano Suassuna, Manoel de Barros, Lygia Fagundes Telles, Augusto de Campos e Ferreira Gullar. Estes são os nossos grandes notáveis, creio. São os já canonizados em vida. Tirando eles, não creio que haja outros autores que possam ser canonizados neste momento. Há uma leva de autores na faixa dos cinqüenta e sessenta que são grandes nomes, como João Gilberto Noll e Milton Hatoum. São reputações, são boas apostas — mas ainda não chegaram ao patamar dos nomes indicados acima. Depois deles, estão aí os nomes emergentes, que vieram dos anos 90 pra cá, e estão ainda em busca da grande obra que fará com que sejam lembrados pelas gerações futuras.

Por outro lado, as feiras, as bienais e os mais diversos eventos literários da atualidade, embora sejam pensados como produtos culturais, com um bom retorno sobretudo para as editoras, trazem também benefícios para os autores, que são divulgados, se apresentam diante de platéias nas quais sempre há gente interessada, que quer obter informações sobre as coisas da literatura. São eventos que ajudam a propagar o livro, que desmistificam a figura do autor, criando uma aproximação maior entre leitor e obra literária.

Rinaldo de Fernandes é escritor e professor de literatura brasileira na Universidade Federal da Paraíba.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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