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julho 2014 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (15)

Texto publicado na edição #171

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (15)

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta: Tendo em vista a quantidade de livros […]

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

José Luiz Goldfarb
Como anda a literatura no patropi? Pergunta difícil, de resposta necessariamente paradoxal!

Inegavelmente a literatura brasileira, assim como o mundo editorial como um todo, experimentou nas últimas décadas um momento de expansão. Quando iniciei como livreiro em 1985, na saudosa Livraria Belas Artes, na esquina da Paulista com a Consolação, ao lado do cinema, a importação de obras clássicas de Portugal, de ficção e não ficção, era absolutamente necessária, pois nossos catálogos eram extremamente limitados e muitas vezes as traduções eram deverás sofríveis. Por séculos, nossa diminuta elite de leitores acostumara-se a ler clássicos em outras línguas. Já nos anos 80 surgia, provavelmente trazido pelos ventos da democratização, o interesse pela leitura mesmo por quem não dominava outra língua, ou seja, a elite leitora do país ampliava-se intensamente. Era então Portugal uma opção a que a Belas Artes recorria todos os dias do ano — e era uma livraria pequena, de rua, que tinha como lema “aberta todos os dias do ano”, que honrávamos até em memoráveis dias de Natal e ano-novo, quando “saíam fregueses pelo ladrão” como publicou o saudoso JT no início dos anos 90. Arriscávamos também importações da Espanha, insistindo-ensinando nossa clientela que o castelhano é bem próximo do português, oferecendo um bom dicionário Lello para ajudar na tarefa. Para encurtar a história, quando deixei o varejo do livro no início do novo século, a realidade era totalmente distinta. Não apenas possuímos hoje os clássicos em edições nacionais, como temos opções de traduções, uma mais primorosa que a outra.

Para dar um exemplo específico, obviamente decorrente de minha atuação acadêmica na PUC-SP (Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência e da Tecnologia), divulgar a ciência nas estantes de uma livraria, no início dos anos 80, era praticamente garimpar importações. As edições comunistas da soviética editora MIR eram muitas vezes a grande salvação. Além, é claro, da vasta produção portuguesa e espanhola. Pouco antes de deixar a Belas Artes, eu já encontrava diversas editoras nacionais com coleções de clássicos das ciências e obras de divulgação, atualizando o debate contemporâneo em relação ao saber científico e suas aplicações tecnológicas na realidade cotidiana. Essa é uma área que cresce em todo o mundo, devido à própria presença crescente da ciência e da tecnologia em nossa vida, e este crescimento tem sido acompanhado também pelo mercado editorial brasileiro.

Tomando uma perspectiva distinta, também presenciamos uma atenção muito maior das editoras nacionais pelos escritores brasileiros, com lançamentos constantes de novos valores e reedições primorosas de obras consagradas. Em vinte e dois anos de Prêmio Jabuti — atuando como curador — foi raro o ano em que não fosse revelado um novo valor nas categorias romance, conto e poesia. Basta observarmos as mesas das tantas festas literárias que se espalharam pelo Brasil e veremos a saudável variação da faixa etária. Há décadas vemos a consolidação de nossa literatura com uma vasta diversidade de gêneros e estilos. Também os prêmios literários multiplicaram-se nestas últimas décadas. Houve expansão do público e da produção nacional. Não fosse o crime e o perigo que se espalhou pela cidade e invadiu a Paulista no final dos anos 90, estaria até hoje curtindo a Belas Artes e sua crescente clientela de amantes das letras.

Há ainda outro fator que nos coloca numa importante perspectiva de avanços. A literatura brasileira vive um significativo florescer em muitos países. Nos últimos anos, investimentos inéditos permitiram traduções primorosas de lançamentos recentes e também de clássicos para várias línguas; a participação das editoras nacionais em feiras internacionais é crescente; o Brasil tem sido constantemente escolhido como país especial em muitos desses eventos e o governo federal tem apoiado a viagem dos escritores brasileiros. Enfim, muitos autores nacionais estão se tornando revelação editoral em muitos países.

Mas após quase duas décadas atuando como livreiro, em 2003 iniciei nova aventura a serviço do livro: tornei-me incentivador da leitura atuando como consultor (formado e graduado no dia a dia do cotidiano agitado da Belas Artes) junto a governos municipais, estaduais, fundações etc. E aqui descobri um lado sombrio da situação da leitura em nosso país. Apesar da expansão do mercado e do surgimento de uma elite leitora ampliada, vastas camadas da população brasileira desconhecem o prazer pela leitura. Em milhares de pequenos municípios do país, congregando milhões de habitantes, não há uma biblioteca, uma livraria e nem ao menos uma banca de jornal. Ainda prevalece entre os jovens a associação da leitura à mera tarefa escolar para responder questões nas provas — daí a preferência por resumos das obras. Chegam os livros comprados e distribuídos pelos governos, mas a esta altura não há a menor dúvida de que essa estratégia está longe de cumprir o papel em disseminar o hábito da leitura; obviamente é um mecanismo que enriquece editores, mas convenhamos que este não é o objetivo das compras milionárias…

Assim podemos concluir que ainda aguardamos o despertar nacional pelo gosto pela leitura. Continua válida a máxima terrível de que o brasileiro não lê, pelo menos tenho comprovado que nossa população não lê por e com prazer! Retornando à questão inicial sobre como anda a literatura por estas bandas do planeta azul, podemos afirmar que ela resiste, expande-se para um público limitado, produzindo joias raras, mas ainda precisa acontecer para a imensa maioria de nossa população. O Brasil leitor é ainda um sonho, um projeto, uma utopia. Aguarda o gigante acordar e colocar a educação como prioridade nacional. Até lá vamos ter surtos de avanços econômicos que não se enraízam e não estabelecem valores de civilidade que tornem a leitura um hábito, como acontece com a música e o esporte. Até lá seguiremos festejando e lamentando ao mesmo tempo.

José Luiz Goldfarb é consultor de projetos de incentivo à leitura e professor da PUC-SP.

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