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junho 2014 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (14)

Texto publicado na edição #170

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (14)

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta: Tendo em vista a quantidade de livros […]

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Luciana Villas-Boas
Como se sabe, a humanidade não se propõe problemas para os quais já não tenha a solução. A literatura brasileira nunca foi tão problematizada quanto hoje em dia. É um bom indicador.

Viver a véspera é um privilégio. Retroativamente, quando a perspectiva histórica dá a dimensão do que foi vivido, dizer “eu estava lá” é um prazer. Viver a véspera com a consciência da força do porvir é estimulante. Para mim, esses últimos anos de trabalho com a literatura brasileira têm sido intensos.

Dito isso, os problemas e desafios do presente são muitos e pesados. Basta registrar que somente sete por cento de toda a ficção publicada no país é criação de escritores brasileiros. Uma aberração editorial que singulariza o Brasil. Um autor que considere esse um problema menor tem que receber o galardão do autoengano.

Lembrando o que é sabido por todo assinante deste jornal, a obra literária só se realiza quando é lida. A ficção nacional contemporânea é lida por um número de leitores ridículo, patético. Aumentou o consumo de livros, mas com benefício apenas marginal para a boa literatura brasileira.

O que me permite então o otimismo dos primeiros parágrafos? O fato de esse quadro estar em movimento. Se olharmos para a situação da ficção brasileira quinze anos atrás, é indubitável o salto que foi dado. Naquela época, nossa literatura parecia morta para todo o sempre, e quase ninguém se perguntava ou queria saber o porquê.

Governo e opinião pública parecem cada vez mais preocupados com a precária saúde cultural e literária da população. O Estado passou a dedicar verbas maiores para a criação de bibliotecas e a divulgação de nossa literatura no exterior, entre outras ações. Isenções fiscais permitem a realização de festivais literários em todas as regiões do país.

Empresas desvinculadas do meio editorial estão dirigindo orçamentos de marketing para o meio literário. Deus me perdoe fazer propaganda de banco, mas o trabalho do Itaú é notável. A toda hora, as novelas da Globo valorizam a leitura, exibindo seus protagonistas a ler e elogiar livros que estão sendo lançados, sempre brasileiros. Até o Faustão anuncia lançamentos.

A internet e as mídias sociais facilitam a comunicação entre autores e leitores e a informação sobre as obras publicadas. Essa comunicação se dá com mais eficácia entre autores e leitores de igual nacionalidade, ou ao menos que usam o mesmo idioma.

Pressionados pelos desafios do livro eletrônico, os editores estão, finalmente, se abrindo para a ideia da publicação profissional da nossa produção literária. Ainda são apenas um ou outro que atuam de fato em prol da ficção brasileira, mas a tendência é claramente perceptível.

Tudo isso é mais do que sabido por quem lê este jornal, embora não possa ser omitido em face da pergunta proposta. Com o que de novo posso contribuir da minha posição de agente, que abre para um amplo panorama da indústria literária e editorial, é a garantia de que na ponta da criação a movimentação das camadas sinaliza um terremoto. Terremoto bom.

Ao contrário do que dizia o Barão, de onde menos se espera pode sair muita coisa, pelo menos em termos de originais. Por meio do site da VBM, recebo textos interessantíssimos, que nem sempre saem apenas do eixo Rio-São Paulo, vindos de várias capitais e cidades brasileiras. Não posso assumir a representação de todos eles, abnegação tem limite, e muitas vezes minha atitude é aquela que critico nos editores: me pergunto como representar um autor que não tem conhecimentos no meio literário e editorial, ou entre os críticos universitários. Mas é inegável que a produção existe.

Tenho folgado em saber que uns tantos escritores percebem vida literária além da autoficção, que tanto caracteriza a literatura brasileira contemporânea. No exterior, agentes e editores me perguntam quando nossa produção literária vai apresentar histórias que não envolvam almas torturadas de narradores com bloqueio de criação, mergulhados em relações perversas, em cenários de grandes metrópoles, narrativas que buscam sistematicamente diluir sinais de brasilidade. Respondo que o catálogo da VBM conta com vários exemplos, mas sempre ouço que não são o que dá o tom da oferta brasileira.

O sucesso extraordinário do suspense psicológico de Dias perfeitos, de Raphael Montes, lançado pela Companhia das Letras em abril e cujos direitos de tradução foram vendidos desde então para oito países por quantias significativas, passou a funcionar como cartão de visitas da VBM no exterior. Com as obras de Alberto Mussa, Edney Silvestre, Francisco Azevedo e Ronaldo Wrobel, ofereço Dias perfeitos como prova de que há mais do que autoficção na literatura brasileira de hoje.

Um parêntese: nada, pessoalmente, contra a autoficção, quando é boa, excelente, um O filho eterno, embora indiscutivelmente sua facilidade de realização seja enganosa, preguiçosa e viciosa. A VBM representa alguns exemplos de autoficção extremamente bem-sucedidos. Vale notar, porém, que não fizeram autoficção os autores da agência mais bem publicados no exterior — os acima citados, com Traduzindo Hannah, de Wrobel, traduzido em seis países, até o máximo de O arroz de Palma, de Azevedo, que está saindo em doze idiomas, todos os títulos publicados sempre por fortes editoras internacionais.

Fechado o parêntese, devo dizer que pelo Brasil afora está se escrevendo de tudo: romance histórico de qualidade literária, muita ficção científica, policiais, histórias de amor, dramas (infelizmente muita fantasia juvenil também). O terremoto bom vai acontecer quando essa produção diferenciada conseguir largo escoamento até nossas livrarias físicas ou digitais.

Para isso, o editor brasileiro precisará encarar com seriedade a busca de originais, independentemente do capital social do autor, independentemente das amizades e relações do meio. Serão necessários mais agentes para ajudar o editor a fazer a triagem da massa avassaladora de escritos em oferta — naturalmente, a maior parte do que é enviado não tem valor literário — e para profissionalizar o ambiente como um todo.

Descrito assim, parece que esse momento só poderá existir em um futuro distante. Minha aposta é o contrário. Creio que o gatilho está sendo disparado agora. Depois de mais de duas décadas de desolamento, a literatura brasileira começa a encontrar suas soluções e a se aproximar de um período de prosperidade e fortuna.

Luciana Villas-Boas foi diretora editorial do Grupo Record e atualmente é sócia da Villas-Boas & Moss Agência e Consultoria Literária.

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