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fevereiro 2014 / Ruído branco / Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (11)

Texto publicado na edição #167

Pesquisa sobre a evolução literária no Brasil (11)

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta: Tendo em vista a quantidade de livros […]

> Por LUIZ BRAS

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Ibraíma Tavares
Falo do ponto de vista do mercado, e assim considero que o momento é razoavelmente bom. Há muitas festas, feiras e baladas literárias. Há entre os editores um interesse renovado pelos escritores nacionais e a disposição de investir em sua publicação e divulgação, inclusive na literatura de gênero — coisa que eu acho bastante positiva para a formação de leitores e de mercado. Dito isso, não posso deixar de observar que no Brasil o número de leitores é pífio, triste mesmo. Décadas de descaso com a educação produziram esse iletramento calamitoso. E é boa a produção literária contemporânea? Há coisas bastante boas e coisas muito ruins, mas eu sou daquelas que acreditam que da quantidade sairá a qualidade, do exercício sairá a excelência.
Ibraíma Tavares é publisher da editora Alaúde

 

Maurício Melo Júnior
Depois da tempestade da década de 1970, quando os escritores mergulharam de vez num país urbano e violento, e das reflexões dos anos seguintes, quando o experimentalismo se uniu a uma prosa de reflexão, os descendentes dos desbravadores passaram a olhar seu espaço ficcional misturando todos estes elementos com uma linguagem mais apurada e cuidada. É esta a prosa que hoje lemos.

A poesia é que ainda não encontrou seu prumo. De modo geral, os novos poetas não conseguiram se desligar do descompromisso formal que marcou a Poesia Marginal. Sem terem lido sequer Drummond, saem a equilibrar versos sobre versos sem formalizarem uma poética digna deste nome. Alguns ainda descambam a falar de amores numa linguagem de cabaré de quinta categoria que, como um bom cabaré de quinta categoria, só promove asco e sonolência. Tem ainda aqueles que não se libertaram dos conceitos do dadaísmo e do futurismo, coisas vistas como ultrapassadas, velhas e caquéticas já no distante ano de 1924.

Os que conseguem se livrar deste caos, os poetas de verdade, cada vez mais raros, estão produzindo uma poesia profundamente comprometida com a tradição. Trabalham a poética na leitura cotidiana de bons e maus autores. Bebem em todas as fontes, do parnasianismo ao modernismo, passando pela geração de 45, pelo concretismo e até pelo movimento marginal. Tentam enxergar os acertos e equívocos de cada momento e retrabalham temas e estéticas numa poesia original e forte. Lamentavelmente este grupo é minúsculo e precisa ser procurado com olhos de Sherlock Holmes.

A prosa vive um momento melhor. Tenho lido textos surpreendentes, embora não consiga escapar de uma turma que acredita no sexo e na violência como eixos de um movimento cultural. Mais sensato é ficar com aqueles que buscam o aprimoramento da linguagem e da reflexão. Este é o primeiro passo para se chegar a uma literatura consistente.

A base deste avanço, pelo menos em minha visão, está nos incontáveis encontros literários espalhados país afora. Isso tem promovido enriquecedores debates e trocas de experiências. Também pululam as oficinas literárias, que podem não formar um escritor de fato, mas fatalmente lapidam talentos e promovem a conscientização sobre o necessário compromisso com a literatura.

Os autores, velhos e novos, vêm falando mais de seus métodos de trabalho, outro mérito de nosso tempo. Claro que o fenômeno não é coisa de agora, basta ler o imensurável volume de cartas escritas por Mário de Andrade. Ou buscar Hermilo Borba Filho em seu Diálogo do encenador, de 1964, que mesmo se debruçando sobre o trabalho teatral fala do ato da criação artística. Ou Osman Lins em sua Guerra sem testemunha, lançada em 1969, mas que se mantém profundamente atual. Ou Autran Dourado e sua Poética do romance lançada em 1973 e relançada acrescida de Material de carpintaria três anos depois, que conduz a mão do leitor sobre o risco do bordado.

Parece que definitivamente o fazer literário entrou em pauta. E os escritores saíram de casa, viajaram, enxergaram outros ambientes e estão mais atentos ao que passa sob seus olhos. Assim estão fazendo uma literatura de melhor qualidade, marcada por uma diversidade meritória.

Pena que esta diversidade ainda esteja sendo trabalhada com timidez. Muitos, temendo a pecha de regionalista, optam por uma linguagem pasteurizada, pondo o peão gaúcho e o vaqueiro nordestino a se encontrarem em Copacabana. Melhor é ler Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Simões Lopes Neto e não se deixar cair na pobreza lingüística da chamada literatura periférica.

Enfim, o tempo é de boa esperança, pois ainda existe muita matéria de ficção e poética borbulhando à espera de autores reais e vivos e criativos.
Maurício Melo Júnior é jornalista

 

Schneider Carpeggiani
Eu edito o Pernambuco, que é o jornal literário do estado. Apesar do título fincar uma fronteira psicogeográfica, nunca procurei transformá-lo num jornal pernambucano ou nordestino, nem mesmo brasileiro. Mas em uma publicação de literatura. É mais Pernambuco pela força e pela beleza da palavra do que pela condição regional que ela poderia impor. Meu interesse é fazer um jornal de literatura, da mesma forma como acredito que literatura não seja necessariamente uma ficção, mas uma palavra que, tensionada, ganha eco e reverbera. A partir dessa afirmação, começo a pensar na questão colocada sobre a situação da literatura brasileira contemporânea. Apesar de eu ter uma vida acadêmica, em que termos como literatura brasileira e literatura latino-americana são necessários, gosto de pensar na literatura como um fenômeno maior que esse, maior que a restrição de um mapa. Mas, pensando de forma restritiva em livros de autores brasileiros lançados no Brasil, o que posso muito afirmar é de forma bastante parcial: a partir dos livros que despontam no mercado literário e a partir dos que, humanamente, consigo ler. O que percebo, na verdade, dentro desse espectro é uma saudável e bem-vinda diversidade de vozes. Nem todas elas me agradam como leitor, mas é fundamental que elas existam, porque nos fazem pensar em várias literaturas brasileiras ou em várias literaturas sendo feitas no Brasil. É ótimo que exista um livro quase alienígena como O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, ganhando o principal prêmio literário do Brasil, ou mesmo uma obra densa, voltada também para a exportação, como é o caso de Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, recebendo tamanha atenção. Ou um trabalho como o do curitibano Luís Henrique Pellanda, que retoma e subverte a tradição do cronista de ser o cronista de uma cidade. Ou a poesia de Paulo Henriques Britto ou as fábulas quase bíblicas dos contos de Ronaldo Correia de Brito, que também fez um grande romance ecoando o universo de suas histórias curtas, Galiléia, ou o rebanho de loucos de Raimundo Carrero. Ano passado mesmo tivemos um romance que passou longe das premiações, uma obra sui generis, As visitas que hoje estamos, de Antonio Geraldo. Isso tudo sem falar no ensaio desafiador de Denilson Lopes, professor de comunicação social da UFRJ, nas reportagens literárias de Fabiana Moraes (repórter especial do Jornal do Commercio de Pernambuco) e nos poemas de afeto cortante de Angélica Freitas e Ricardo Domeneck. Diante desse quadro irregular que coloco aqui, que expõe apenas minha visão limitada (como são todas as visões) de leitor, essa literatura brasileira, pensando nesse caso em fronteiras psicogeográficas, vive um momento de várias vozes histéricas. O que sempre é bom.
Schneider Carpeggiani é editor do jornal Pernambuco.

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