Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Percursos de uma voz

Texto publicado na edição #152

Percursos de uma voz

Resenha de "Uma voz vinda de outro lugar", de Maurice Blanchot

> Por PATRICIA PETERLE

Uma voz vinda de outro lugar, traduzido por Adriana Lisboa, é o mais recente livro de Maurice Blanchot, publicado pela Rocco, que já lançou seus A parte do fogo e O espaço literário. A problemática dos quatro ensaios que compõem o presente volume, Anacruse, A besta de Lascaux, O último a falar e Michel Foucault tal como eu o imagino (uma homenagem póstuma), já está colocada para o leitor desde o título: uma voz vinda de outro lugar. Voz que não é a do autor, nem a do leitor propriamente dita, mas se revela e se desvela por meio da escrita literária. Um voz-silêncio já presente em outros textos clássicos de Blanchot, como quando afirma que o escrever muda o sujeito. E ele vai ainda mais além dizendo que não se escreve segundo o que se é; de fato, a relação é inversa e, portanto, se é segundo o que se escreve. Todos os textos reunidos nesse volume foram escritos em diferentes épocas e publicados pela primeira vez em 2003.

Anacruse, título do primeiro ensaio, é um termo emprestado do campo musical e designa a ausência de tempos no primeiro compasso da música que podem aparecer no final. Um início sem marcações, sem tempos, surdo. O uso que Blanchot faz da linguagem musical sublinha a necessidade do indivíduo de expressar as suas sensações. O embate entre o sonho enganador e a razão, quase sempre prudente, já está colocado desde a segunda página do livro. Diz Blanchot: “Assim o sonho e o dia racional prosseguem num combate incessante”. E, mais adiante, se pergunta: “E como sobreviver sem sonhar”. Esse “combate” é também aquele da linguagem que obceca e escapa.

O leque musical continua com Ostinato, motivo que se repete de forma persistente. Nas palavras do crítico e escritor francês, “é um tema sem variações, um motivo obstinado que volta e não volta”. Uma nota única que continua a ressoar, depois de escutada. Nota que remete a tantos outros e infinitos caminhos, marcados por ecos, lembranças ocultas, memórias trágicas, epifanias. Um silêncio-sonoro que invade o leitor, e a ele cabe persegui-lo, somente a ele. Um fio condutor único e linear que se esvai nas fraturas harmoniosas da melodia. “Ó Ostinato, ó amarga beleza.” Há ainda o timbre e o contratempo: “Voz, timbre, música. Será que, através dessas palavras, se abre a pergunta sem resposta do CONTRATEMPO? Contratempo: mesmo compreendido de maneira não subjetiva, ele pode apresentar-se a nós de muitas formas”. Contratempo é um deslocamento do acento métrico musical do compasso, por exemplo, o acento que seria no tempo forte se dá no tempo fraco. Uma inversão das expectativas ou um elemento que chama a atenção para a ilusão do presente.

O discurso benjaminiano sobre a origem, em alguns fragmentos de textos, como O drama barroco alemão e Passagens, perpassa os questionamentos blanchotianos, como quando aponta em A besta de Lascaux que a linguagem em que fala a origem é profética, geradora de ordem, de sistema e também anulação, pois só tem legitimidade diante de si mesma. A origem (ou melhor, origens), a sobrevivência está presente no silêncio da arte, no mal-estar de quem aprecia uma obra, nas palavras. Os ecos do “tempo vazio e homogêneo” apontado por Walter Benjamin nas Teses podem ser entrevistos no seguinte trecho:

[…] o que é isso que tem a imutabilidade das coisas eternas e que, no entanto, não passa de aparência, que diz coisas verdadeiras, mas atrás do qual só existe o vazio, a impossibilidade de falar, de tal maneira que aqui o verdadeiro nada se encontra capaz de sustentá-lo, aparece sem fundamento, é o escândalo do que parece verdadeiro, não passa de imagem e, através da imagem e da aparência, atrai a verdade para dentro das profundezas onde não há verdade, nem sentido, nem sequer erro?

A proposta não é naquilo que já se sabe ou conhece, mas na esfera do que pode ser descoberto, daquilo que vem de um outro lugar, de uma outra voz, que “vem de longe e chama para longe”.

Em O último a falar, o personagem central é Paul Celan. Na poesia deste, Blanchot coloca em evidência a necessidade de falar, como se essa ação tivesse um poder sobre a morte-vida, vida-morte. 

Olhos cegos para o mundo
Olhos nas fendas do morrer,
Olhos olhos:
Não leias mais olha!
Não olhes mais vá!

Os versos escolhidos pelo olhar atento de Blanchot trazem a problemática para um outro plano, não mais o plano da linguagem com a palavra, mas o da visão por meio do olhar. Olhar e ler são, de fato, duas ações diferentes. Se o primeiro pode se perder para se achar, está sempre em busca de algo, atento aos detalhes (como já dizia Aby Warburg: “O bom Deus está nos detalhes”; aquele que conhece a cidade é quem se perde nela, para lembrar mais um trecho de Benjamin), o segundo, a leitura, não possui toda essa liberdade, há regras que devem ser seguidas e que também limitam e delimitam. Nesse sentido, “os olhos vêem para lá [além] do que há para ver”. Aqui seria possível lembrar O infinito, de Giacomo Leopardi, um dos poetas italianos mais conhecidos, que nesse curto mais intenso poema faz com que a visão possa transcender os limites geográficos e lingüísticos. Se a geografia de Recanati impede a visão do poeta para além das colinas, esse limite potencializa a imaginação e as possibilidades de visão do próprio poeta que reinventa a língua para falar desse espaço que não “enxerga” por meio do neologismo interminados (interminati).

O último texto, dedicado a Michel Foucault, escrito por ocasião da sua morte em 1984, tem como ponto de partida o questionamento do estruturalismo, do racionalismo esquemático. A descontinuidade na história é um elemento essencial, principalmente na Arqueologia do saber, quando é tratada a problemática do monumento-documento e documento-monumento.

A constelação de Blanchot, que apresenta nomes como os de Mallarmé, Kafka, Bataille, René Char, Louis-René des Forêsts e Michel Foucault, estes últimos presentes no atual livro, e as temáticas tratadas, como a besta, a fascinação pela morte, a obra de arte e sua estranheza, além de um universo obscuro, dão aos seus textos toda uma complexidade, cuja marca perpassa pela vertigem. Esta é a palavra-chave, junto com estranheza, que abre os diferentes percursos aqui propostos.

Print Friendly

MAURICE BLANCHOT

Escritor, crítico e ensaísta. Estudou filosofia e literatura alemã. Seus livros tiveram vários ecos em gerações posteriores de escritores e filósofos, como Michel Foucault e Jacques Derrida.

Maurice_Blanchot_Uma_voz_152

Maurice Blanchot
Trad.: Adriana Lisboa
Rocco
160 págs.