Ensaios e Resenhas

janeiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Pequenas fotografias

Texto publicado na edição #101

Pequenas fotografias

Oeste é um livro absolutamente delicado. E, neste caso, delicadeza é tudo. Paulo Franchetti mergulhou fundo na alma japonesa, na […]

> Por ÁLVARO ALVES DE FARIA

Oeste é um livro absolutamente delicado. E, neste caso, delicadeza é tudo. Paulo Franchetti mergulhou fundo na alma japonesa, na sua expressão poética, no significado das palavras numa obra que, com o cuidado da Ateliê, é um objeto de arte. A tradução dos poemas para o japonês foi feita por H. Masuda Goga – poeta e pintor, nascido no Japão em 1911, no Brasil desde 1929 – que há muito trabalha pela incorporação do haicai à língua portuguesa e particularmente à poesia brasileira. Se a poesia brasileira tivesse essa delicadeza na sua elaboração, não estaria nessa escuridão em que se encontra, assassinada todos os dias por alguns delinqüentes.

Franchetti lamenta, com razão, que quase tudo que tem três versos, no Brasil, seja logo chamado de haicai. Ou que seja chamado de haicai qualquer “sacada” (as aspas são do autor) poética. Não é assim. Não pode ser assim, especialmente em se tratando dessa tradição da poesia do Japão. Franchetti não aceita que tudo que tenha três versos, espirituoso ou não, seja chamado de haicai: “Sinto que estou perante um texto de haicai apenas quando reconheço nesse texto uma dada disposição de espírito, uma atitude frente ao mundo e à linguagem poética que conota uma estratégia específica de composição e de recepção do poema”.

Nada mais correto. É bom encontrar, de vez em quanto, alguém que respeite a poesia. Paulo Franchetti – professor titular de Teoria Literária na Unicamp – observa que o haicai só faz sentido, no Brasil, por exemplo, se sua realização significar uma tentativa de obter algo “radicalmente novo”. O que seria isso? “A novidade que o haicai oferece a um ocidental, de meu ponto de vista, é o fato de ele ter por objetivo não a beleza da imagem ou da combinação dos sons, mas o registro ou o despertar de uma percepção muito ampla ou intensa nascida de uma sensação”.

Franchetti não aceita o simplismo de dizer-se que haicai é síntese. Como diz, “é antes uma recusa de dizer longamente, ou a dizer com muitas palavras”. Como observa, o bom haicai é aquele que consegue, com o mínimo, obter apenas o suficiente.

O autor lembra que estuda o haicai há mais de vinte anos. Reuniu neste Oeste poemas escritos nos últimos quinze anos. A primeira parte do livro, Um dia após o outro, dedicada à primavera, ao verão, ao outono e ao inverno, é de puro encantamento, o que ocorre em todas as suas páginas. Mas é preciso saber-se do haicai como alma poética, como essa paisagem do tempo, da natureza, do ar, da possibilidade de um gesto. É preciso ler o haicai além do haicai, onde, talvez, as palavras desapareçam: “Quando a chuva pára/ Por uma fresta nas nuvens/ Surge a lua cheia”. Ou: “Sob a névoa fria,/ O cemitério da vila/ Cercado de ciprestes”.

Pequenas fotografias anotadas na sensibilidade de um caderno invisível, dentro da mais íntima sensação de observar e guardar talvez para sempre. As palavras são poucas em três versos. Mas suficientes. Corretas.

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oeste

Paulo Franchetti
Ateliê
160 págs.