Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Pequenas enciclopédias amorosas

Texto publicado na edição #104

Pequenas enciclopédias amorosas

Por que lemos? Certamente que, os leitores habituais, nem se perguntam mais isso. Lemos porque, em algum momento de nossas […]

> Por LÚCIA BETTENCOURT

Por que lemos? Certamente que, os leitores habituais, nem se perguntam mais isso. Lemos porque, em algum momento de nossas vidas, essa habilidade transformou-se num prazer; esse prazer, num vício; e esse vício, numa necessidade vital. Lemos, e cada um de nós, leitores contumazes, acredita que escolhe as obras mais interessantes, as mais deliciosas, aquelas que devem ser lidas.

Por que lemos? Sem nos perguntarmos, essa é a pergunta que nunca nos abandona. O que é que nos faz acordar e tatear a cama à procura do livro do momento? O que é que nos provoca a entrar numa livraria ou numa biblioteca e encontrar um novo objeto cifrado, que revelará, a cada um de nós, o “nosso” segredo, especial, formulado à medida de nossa necessidade e entendimento?

Grandes escritores se debruçam sobre o assunto — é preciso que se lembre que os grandes escritores sempre foram grandes leitores? — e tentam responder essa pergunta em livros ou ensaios. Calvino e Borges são dois exemplos, um explicando por que ler os clássicos, outro dando as razões para lermos o Quixote. Umberto Eco, em seu O nome da rosa, também reflete sobre o assunto — qual o fascínio da leitura, que leva as personagens a desafiarem a morte para satisfazer seu desejo?

Em nosso cotidiano, agora que nos dividimos entre as obrigações dos deveres e as (também!) obrigações dos prazeres que se multiplicam, precisamos administrar nosso tempo. Se as exigências do trabalho e da sobrevivência se tornam cada vez mais vorazes, nossa obrigação (!) de ser feliz, de levar uma vida saudável, de tirar proveito do tempo de lazer, se transforma numa opção cada vez mais acirradamente disputada entre cinema, boates, televisão, bares, cruzeiros e livros… isso para mencionar apenas algumas das possibilidades. Alguns pensadores se debruçam, então, sobre o que leva alguns a escolher assistir aos anestesiantes BBBs — onde, sintomaticamente, não proliferam leitores — enquanto outros preferem a leitura de livros sempre estimulantes, que mantenham os neurônios em funcionamento e as imaginações em atividade. Por que ler, e não jogar futebol, ou fazer aulas de aeróbica, ou nos jogarmos de pára-quedas?

Patrimônio cultural
Se essa questão se revela um assunto para os neurocientistas ou para os filósofos, a questão aparentemente mais simples — que indaga as razões para se ler alguns autores em especial —, é geralmente respondida por professores de literatura ou por escritores que compartilham suas preferências. Na coleção Por que ler, coordenada por Rinaldo Gama, o intuito é revelar por que ler autores clássicos, canônicos, que, de tão conhecidos e comentados fazem parte de nosso patrimônio cultural mesmo quando nunca lidos por nós.

Estruturados segundo um modelo simples (Um retrato do artista; Cronologia; Ensaio de leitura; Entre aspas; Estante e Notas) e sempre igual, cada um dos livros da coleção adquire personalidade própria graças às peculiaridades de cada autor. Em Um retrato do artista, Ana Cecília Olmos consegue fazer um perfil biográfico de Jorge Luis Borges a partir das bibliotecas que marcaram determinadas fases da vida do autor argentino. Iniciando com a biblioteca paterna, que marca sua infância em Buenos Aires e que lhe apresenta, ao mesmo tempo, tanto as literaturas inglesa e americana, como a literatura e a história argentina do século 19, a vida deste “imperfeito bibliotecário” vai sendo narrada e explicada a partir da ampliação dessas bibliotecas que o acompanham e o definem pela vida afora. Passando do protegido limite da “biblioteca familiar”, Borges amplia suas leituras com a “biblioteca peregrina”, ou seja, a do colégio e das cidades visitadas na Europa: a literatura francesa e a latina; os autores de língua alemã que lhe apresentaram a filosofia; “novos” autores de língua inglesa e de língua espanhola, tais como Carlyle e Chesterton, ou Quevedo e Unamuno, vão revelar o cosmopolitismo da formação borgeana. Continuando a narrar a vida do autor, chega a vez de explicá-la através da “biblioteca crepuscular”, ou seja, a Biblioteca Municipal Miguel Cané, onde Jorge Luis Borges, na curva dos quarenta, sofre as conseqüências do peronismo e da cegueira que chega gradual, mas definitivamente.

Vida entre leituras
A última biblioteca examinada é a da “consagração”, a qual chega por volta dos anos 50, e o leva a ser nomeado ao prestigioso cargo de Diretor da Biblioteca Nacional. Uma vida passada entre leituras parece adequadamente narrada através das bibliotecas freqüentadas, principalmente quando é o próprio Borges quem afirma, segundo citação de Olmos: “Poucas coisas me aconteceram e muitas coisas li. Ou melhor, poucas coisas me aconteceram mais dignas de memória que o pensamento de Schopenhauer ou a música verbal da Inglaterra”.

Seguem-se a essa interessante biografia, uma cronologia, e, em seguida, um “ensaio de leitura” que chama atenção para dois aspectos da obra de Borges. Primeiramente, a sua idéia de “livro infinito”, retirada do conto O livro de areia, que, em sua obra, parece se materializar a partir do “gesto auto-referencial de uma literatura que alude a si mesma e revela seus próprios processos de construção, a exposição recorrente de uma apurada reflexão sobre diversas tradições literárias, ou as eruditas referências dos mais variados títulos e autores”. Em segundo lugar, ressalta o aspecto “criollo” presente sobretudo nos poemas em que Borges, afastando-se da tradição modernista de seus companheiros, cria uma “poética de subúrbio” e que tanto vai permear toda sua poesia, como aflorar em ensaios e mesmo em contos. Ana Cecília valoriza a obra poética de Borges, e demonstra também o trabalho de contaminação entre os gêneros praticados pelo autor, que deixa seus leitores sempre em suspenso, e “transformam suas narrativas em armadilhas para o leitor, que nunca sabe com certeza se o que está lendo é imaginado ou verdadeiro”. Ademais, ela ilumina a importância do ato da leitura para Borges, que, em seus textos de reflexão crítica, “sustenta que o ato da leitura define a condição literária dos textos e abre ao indeterminado suas possibilidades de significação”.

Seguindo-se a esta leitura há uma pequena coletânea de textos borgeanos, que corroboram a leitura crítica feita pela autora, e exemplificam os temas e opiniões do autor. Finalizando, uma “estante”, onde se acham classificadas as obras de Borges em espanhol e em português, seus escritos em colaboração, entrevistas, adaptações para o cinema de seus textos, documentários, livros sobre a vida e a obra do autor. É interessante a “estante” onde estão arrumadas as “leituras” de Borges, ou seja, os livros que ele comenta e cita com freqüência, e que influenciaram seus escritos. Há também a indicação de sites dedicados ao autor.

Se Ana Cecília Olmos não responde diretamente à pergunta “por que ler Borges”, em especial, ela nos dá as pistas do que devemos procurar na leitura que, curiosos, possamos fazer. Afinal, a resposta pertence sempre a cada leitor, pois os livros se revelam sempre diferentes, conforme os olhos que os contemplem.

Íntimos de Dante
Outro dia, conversando com um grande leitor, famoso por sua biblioteca, mas que está com sua visão diminuída, ele me disse que chegara o tempo de reler. Elaborando o que me foi dito, concluo que seu prazer estava agora em voltar àquelas obras que lhe deixaram uma impressão tão forte que ele desejava revisitá-las e reencontrar, nelas, sua vida passada. Com um bom gosto e inteligência ímpar, o livro que ele relê é o famoso romance de Proust, a bela procura do tempo perdido, tempo que se perdeu por vivido, mas que se ganhou por escrito. Não me admiraria, porém, se ele tivesse escolhido Dante e sua comédia, em lugar da obra francesa, uma vez que, como esclarece a epígrafe (retirada de Borges) que Eduardo Sterzi escolhe para abrir sua obra, Por que ler Dante: “Conhecemos Dante de um modo mais íntimo que seus contemporâneos. Quase diria que o conhecemos como o conheceu Virgílio, que foi um sonho seu”.

Sterzi, sonhando-se em Dante, faz o relato da vida do poeta através da leitura de Boccaccio e das informações históricas e políticas que conturbaram a existência da colcha de retalhos que era a Itália da época. Devido à falta de documentação, muitos detalhes da vida de Dante permanecem obscuros e alguns não passam de suposições. O autor, modestamente, propõe: “tentemos, quando possível, ir um pouco além do mito, um pouco além da lenda, um pouco além do amálgama de obra e vida proposto pelo poeta e por seus primeiros leitores, com apoio nas pesquisas e nas ponderadas conjeturas dos mais respeitados biógrafos de Dante da atualidade, Giorgio Petrocchi e Robert Hollander”. Apesar da escassa documentação, Sterzi logra construir um texto interessante, com uma abertura dramática, partindo da morte do poeta para, com habilidade de mosaicista, traçar um perfil vivo e convincente não só do autor como de sua época, a partir dos pequenos fragmentos coletados.

Obedecendo ao modelo adotado pela série, segue-se ao retrato do artista uma cronologia, e a esta uma leitura da obra completa de Dante. Sterzi tece considerações muito importantes, referentes à leitura de textos que não pertencem à nossa época. Como ler Dante seria a pergunta a ser respondida, uma vez que a obra, distante de nosso tempo, exige um conhecimento periférico que explique não só as circunstâncias em que foi composta bem como as circunstâncias que nos permitem ler os clássicos hoje em dia. Vivendo numa época de transição, de passagem de um mundo a outro, quando tudo, inclusive a língua, se inaugurava, Dante talvez tenha sido o autor cuja modernidade veio a inspirar o que alguns chamam de pós-modernidade. Sem dúvida alguma, reconhecemos no autor florentino a capacidade de “apropriar-se do que lhe interessava nos precursores e, simultaneamente, descartar-se deles sem remordimentos”. No equilíbrio entre tradição e modernidade, nessa encruzilhada sempre variável, é que os escritores armam suas tendas e compõem suas obras. Escrevendo e, ao mesmo tempo, comentando o que escreve e o que leu, criticando e experimentando, ele “inventa” a língua italiana, cria uma nova modalidade de rima (a terza rima), contribui para o estabelecimento do Purgatório e ainda fornece uma espécie de enciclopédia da cultura da época, que aparece julgada e classificada, organizada em mundos e círculos, louvada ou depreciada segundo o entendimento do autor.

Teoria sobre o conhecimento
Constata-se, assim, que tanto Dante quanto Borges compartilharam de uma estratégia: ao escreverem suas obras, teorizavam, ao mesmo tempo, sobre o conhecimento. Escrever poesia é reescrever a teoria da poesia. Escrever sobre a vida é filosofar sobre a própria vida. Criar um texto é corrigir a criação do Universo.

Sterzi coleciona algumas opiniões influentes sobre Dante. Recolhe, em Auerbach e Stefan George, a idéia de que foi Dante quem “descobriu a representação européia do homem”. De Harald Weinrich, ele destaca a importância da memória e de sua relação com o tempo. Se o tempo provoca o esquecimento, o tempo por escrito, ou seja, o poema, seria a “arte da memória”. E termina com uma brilhante citação de Ossip Mandelstam, que acredita que os cantos de Dante são dirigidos à contemporaneidade, pois “são mísseis para capturar o futuro”.

Na seção Entre aspas, Sterzi coloca alguns textos em prosa retirados da Vita Nuova e algo da lírica madura das Rimas pedrosas, bem como alguns pequenos excertos da Comédia. Já na seção Estante, Sterzi, ao invés de fornecer uma lista de obras de e sobre Dante, faz um pequeno ensaio bibliográfico, comentando as diversas edições e publicações em torno do poeta.

Os dois livros examinados podem ser comparados a verbetes enciclopédicos, que iluminam a vida e a obra de Borges e Dante. Mas, distanciando-se da obra de referência, revelam-se criteriosas declarações de amor aos autores examinados. E, como todas as declarações de amor, podem até não revelar o motivo que levam os apaixonados a elegerem o objeto de suas paixões. Mas a intensidade do sentimento é tão grande que nos faz desejar conhecer e quem sabe experimentar as mesmas emoções.

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Ana Cecília Olmos
Globo
120 págs.

Por que ler Dante
Eduardo Sterzi
Globo
176 págs.