Inquérito

março 2018 / Inquérito / Pensar com as mãos

Texto publicado na edição #215

Pensar com as mãos

26 perguntas a Marília Garcia

> Por RASCUNHO

Marília Garcia, autora de Câmera lenta.

Marília Garcia, autora de Câmera lenta.

Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1979. Ao ingressar no mercado editorial, deu-se conta de que gostaria de ser escritora. Na época, aos 20 anos, cursava Letras, “mas não conhecia o que estava sendo produzido naquele momento; foi a leitura dos meus contemporâneos que me levou a querer escrever”. Desde então, publicou 20 poemas para o seu walkman (2007), Engano geográfico (2012), Um teste de resistores (2014), Paris não tem centro (2015) e o recente Câmera lenta, em cuja apresentação Italo Moriconi define a poesia de Marília Garcia como “sempre em movimento, em viagem, entrelaçando motivos em múltiplas espirais de linguagem, fragmentos de narrativas”.

 

 

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Câmera lenta
Marília Garcia
Companhia das Letras
96 págs.

 

 

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Quando comecei a trabalhar em uma editora, a 7letras, e acompanhar de perto a produção contemporânea. Na época, aos vinte anos, cursava Letras mas não conhecia o que estava sendo produzido naquele momento; foi a leitura dos meus contemporâneos que me levou a querer escrever.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Ter vários cadernos e arquivos ao mesmo tempo, passar o texto para o computador, do computador para o caderno, imprimir, mexer no texto à mão, tentar mudar de suporte outra vez. Copiar e incorporar ao texto citações de outros autores tentando achar pistas e outros caminhos para o que estou fazendo. Em suma, achar que estou pensando com a mão.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Poesia; pode ser brasileira ou estrangeira, de qualquer época, pode ser releitura ou não.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
A Constituição.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Cada livro tem uma circunstância “ideal” dependendo do projeto. Alguns textos podem ser escritos na rua, numa viagem, numa circunstância aparentemente desfavorável (mas precisam do registro ali mesmo, no calor da hora, ainda que depois sejam reescritos e trabalhados); outros precisam da calma matinal, e assim por diante.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Em geral, preciso de silêncio.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Se pensar o termo “produtivo” num sentido contrário ao que estamos acostumados hoje (que considera “produtivo” no sentido ligado ao mercado), para mim seria um dia de leitura com anotações, mesmo que sem resultados concretos de escrita, mas com caminhos e possibilidades abertas.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Perceber durante o próprio processo que o texto tomou caminhos que eu não esperava, me levando para lugares que eu não conhecia, que sequer desconfiava que existiam.

• Qual é o maior inimigo de um escritor?
Querer passar por cima do texto.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Ser um meio fechado, sem muito diálogo com outras áreas, como as artes visuais ou a arquitetura, por exemplo. Se abríssemos a escuta para outras áreas e pessoas que estão produzindo e pensando neste mesmo momento talvez o acesso a outros processos e soluções criativas (a partir de ferramentas diferentes) pudesse ajudar a multiplicar os discursos e a produção literária.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Lu Menezes e David Antin.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: Os ensaios de Montaigne.
Descartável: prefiro deixar descartado.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Afetação.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Qualquer assunto poderia entrar no que escrevo, dependeria de como ele entraria.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
O livro Um teste de resistores tem uma mecânica de escrita que aceitou muitos cantos que eram “inusitados” para mim na época da escrita, como por exemplo a engenharia eletrônica, de onde vem esse termo “resistores”.

• Quando a inspiração não vem…
Leio, traduzo ou copio textos à mão.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Gertrude Stein.

• O que é um bom leitor?
Aquele que lê.

• O que te dá medo?
A violência que está dentro, como disse o Kafka, “os assassinos de nós mesmos”.

• O que te faz feliz?
Minha análise.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Só dúvidas guiam o que faço: todas elas, desde as mais básicas, quem somos, para onde vamos, até as dúvidas de como fazer, como seguir adiante. Se paramos para prestar atenção nas coisas, as perguntas e dúvidas começam a aparecer.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Tentar achar a forma.

• A literatura tem alguma obrigação?
Com a própria materialidade.

• Qual é o limite da ficção?
Acho que a cada texto esse limite pode ser recolocado.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Mira Schendel.

• O que você espera da eternidade?
Nem sei o que espero para hoje, sei menos ainda o que esperar de um substantivo tão abstrato como este. Me lembrei de um verso do John Ashberry: “Tomorrow is easy but today is uncharted”.

 

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