Entrevistas

maio 2019 / Entrevistas / Pelo mundo quase todo

Texto publicado na edição #229

Pelo mundo quase todo

Para Maria Valéria Rezende, a literatura sempre foi “um modo de tentar compreender as atitudes dos outros”

> Por Sandro Retondario

Maria Valéria Rezende, autora de Carta à rainha louca

Maria Valéria Rezende, autora de Carta à rainha louca

Muito antes de enveredar “oficialmente” pelo caminho das letras em 2001, às vésperas de completar 60 anos, com o lançamento de Vasto mundo, a paulista radicada na Paraíba Maria Valéria Rezende já tinha um laço estreito com a literatura. “Sempre escrevi, durante toda a vida, sem nenhuma intenção de publicar nem de me tornar ‘escritora’”, diz a autora do recente Carta à rainha louca, sobre o qual comenta nesta entrevista, concedida por e-mail ao Rascunho.

Se para Maria Valéria a literatura sempre foi “um modo de tentar compreender as atitudes dos outros” e expandir sua visão de mundo para além das relações cotidianas, a opção de se tornar uma militante da Juventude Estudantil Católica na adolescência mostra que essa visão de mundo lhe guia desde cedo.

Em sua vivência como freira e educadora popular na Congregação de Nossa Senhora, ajudou comunidades e coletivos de trabalhadores, seguindo uma metodologia que buscava despertar a reflexão dos menos abastados a partir de narrativas. Para ela, ao “recontar a experiência das suas ações”, as pessoas têm a oportunidade de avaliar suas mazelas e “seguir adiante com novos planos”.

Essa escolha de vida permitiu-lhe conhecer diversos países e, para a autora d’A face serena (2018) e d’O voo da guará vermelha (2005), foi crucial em sua produção: “Para meu trabalho, hoje como escritora, os contatos com o povo da rua ou da aldeia é que sempre foram fundamentais”.

Com obras que são frutos de seus 70 anos como leitora assídua, Maria Valéria já transitou pelo conto, romance e publicou dez livros infantojuvenis, abocanhando prêmios como o Jabuti, Casa de las Américas e São Paulo de Literatura.

Na conversa a seguir, ela comenta seu papel fundador no Clube do Conto da Paraíba e a importância do projeto (“hoje percebemos que sempre foi uma espécie de oficina de escrita criativa, sem mestre”), discorre sobre a promissora condição atual dos autores ao redor do Brasil, conta curiosidades sobre a produção de alguns de seus títulos e, entre outros assuntos, fala sobre o Mulherio das Letras, um “movimento de libertação solidária das mulheres escritoras, que prefere a aliança à competição!”.

• Você acaba de lançar Carta à rainha louca. Como foi a gestação desse romance e o que os leitores podem esperar?
Carta à rainha louca é para mim como, finalmente, o cumprimento de um compromisso assumido há mais de 40 anos! Na década de 1980, dediquei-me muito à pesquisa histórica sobre as mulheres no período colonial na América Latina e depois especialmente no Brasil. Em 82, encontrei, no Arquivo Ultramarino de Lisboa, uma carta escrita de próprio punho (o que era raro na década de 1750) por uma mulher que se defendia, com ricos argumentos e muita ironia, da acusação de tentar fundar um convento clandestino, sem ordem da Coroa, o que era “crime”, passível de punição, especialmente na região das Minas, onde a presença de ordens religiosas, masculinas ou femininas, era proibida. Não achei, entretanto, nenhuma outra referência a ela, nem os documentos de conclusão do processo. Fiquei me sentindo sua irmã, e como que responsável por dar-lhe voz. Finalmente, percebi que, com as hipóteses que formulei para pesquisar e tudo o que havia imaginado, a melhor maneira de fazer-lhe alguma justiça era escrever um romance. Para pesquisa histórica eu já tinha muita coisa acumulada. Mas ao optar pela forma de carta, pois foi assim que a descobri, tive de enfrentar o desfio de escrever numa linguagem plausível para o século 18 e legível no 21. Foram anos de trabalho intermitente, até que o apoio do programa Rumos Itaú Cultural me permitiu deixar outros trabalhos, traduções, etc. de lado e me dedicar intensamente a terminá-lo. Nesse intervalo, o Arquivo Ultramarino foi digitalizado, e eu poderia ter lido o processo todo… mas a história já estava inventada na minha cabeça. Então deixei para ler o resto do história real só agora, com a “minha” carta pronta e publicada! Espero que a verdadeira Isabel Maria me perdoe!

• Em diversas entrevistas você comenta que a literatura sempre fez parte da sua vida. O que escrever significa para você?
Escrever é, e sempre foi, um prazer. É também um modo de tentar compreender as atitudes dos outros, diferentes de mim e entrar em diálogo com um número muito maior de pessoas do que na minha vida cotidiana. Cresci em meio a escritores e me parecia que aquilo era uma coisa que faziam por prazer. Sempre escrevi, durante toda a vida, sem nenhuma intenção de publicar nem de me tornar “escritora”. Desde antes de ser alfabetizada já sabia muitos poemas de cor. E depois sempre fui uma devoradora de livros, pelo simples gosto de ler, e muitas vezes escrevia histórias como que para entrar naquela “brincadeira” de inventar coisas possíveis (e impossíveis), jogando com as palavras.

• Como foi sua infância em Santos?
Santos, nos anos 1940 e 1950, era “o meio do mundo”, uma cidade em torno de seu porto e o mundo todo parecia passar por ali, entrava e saía da cidade. Sempre fui muito curiosa e a cidade era pequena, a gente tinha muita liberdade para circular, uma grande efervescência cultural, uma população “multinacional”, onde se ouviam todas as línguas. Então, minha infância foi um longo acúmulo de experiências, descobertas, com muita liberdade que as crianças de hoje já não têm.

• Por que decidiu se tornar freira?
Na adolescência, tornei-me militante da Juventude Estudantil Católica. Participei ativamente do processo de renovação e abertura da Igreja que resultou no Concílio Vaticano II. Até 1964, fui dirigente do movimento — primeiro no nível diocesano, depois regional e, finalmente, nacional. Andava pelo Brasil inteiro e parte da América Latina. Conheci inúmeras congregações religiosas diferentes e pude fazer uma escolha muito bem informada. A perspectiva de continuar numa vida missionária foi o que mais me atraiu para a vida religiosa, assim como a vários de meus companheiros daquela época. Nunca me arrependi.

“Escrever é, e sempre foi, um prazer.”

• Você já comentou que seu método de trabalho com os grupos populares, com movimentos de luta pela moradia, pela água, entre outras reivindicações, sempre foi a narrativa. Como funciona esse método?
A metodologia da Educação Popular na linha freiriana [de Paulo Freire], que foi o que nos inspirou e prevaleceu nas décadas finais do século 20, baseia-se em ajudar comunidades e coletivos de trabalhadores a olhar para sua própria vida e circunstâncias e, ao falar delas, tomar consciência daquilo que lhes faz sofrer e buscar saídas para mudar essa situação. Assim, recontar a experiência das suas ações seria uma forma de avaliá-las e seguir adiante com novos planos. É claro que o papel do educador, nesse caso, é o de fazer as perguntas que suscitem a narrativa e a reflexão, aprender com elas e, muitas vezes, transportar a história de um grupo a outro para suscitar novas narrativas. Contar o que vivemos, refletir sobre isso, planejar ações, rever as ações realizadas, refletir sobre os resultados e seguir assim, adiante. É tudo narrativa.

• Como foi a experiência do exílio por conta da ditadura militar?
Nunca me considerei em exílio, embora muita gente achasse que eu devia me exilar. Estive fora do país várias vezes durante a ditadura, mas a serviço da minha Congregação, fazendo um trabalho de pesquisa em vários países onde minhas irmãs estavam. Nunca me vi nem tive a intenção de ser exilada. De certo modo, é cada pessoa que se define como exilado ou não. Eu sempre priorizei a permanência no meu país para ajudar, do meu modo e com meus limites, como fosse possível, a mudar o que faz sofrer o nosso povo. Sempre que saí do país por alguma razão de trabalho, voltei imediatamente logo que pude. Também nunca me arrependi.

• E como eram essas viagens?
Andei pelo mundo quase todo. Nunca como turista, mas sempre para trabalhar junto aos “nativos”, com outros educadores e comunidades em geral muito pobres. Nessas condições, a gente pode se dar conta muito melhor de quanto nós, humanos, somos ao mesmo tempo capazes de uma variedade enorme de “inventos” e, paradoxalmente, o quanto somos semelhantes no que diz respeito às necessidades e dores, aspirações e sentimentos profundos, bondades e maldades. Nessas andanças, muitas vezes esbarrei em pessoas famosas, que ocupavam lugares marcantes no mundo político ou literário. Costumam me perguntar muito sobre meus contatos com Fidel Castro ou com Gabriel García Márquez e outros escritores que encontrei desde quando não tinha a menor intenção de publicar literatura nenhuma. Na verdade, para meu trabalho, hoje como escritora, os contatos com o povo da rua ou da aldeia é que sempre foram fundamentais. Quanto aos escritores, com exceção dos amigos próximos e mesmo anteriores à literatura, é muito mais importante para mim, como escritora, a leitura de seus livros do que um eventual café com bate-papo em algum lugar do mundo. Certamente minha escrita é herdeira de tudo o que li ao longo de 70 anos, de modo que me é impossível responder à pergunta que me fazem muitas vezes: “Que autor teve uma influência especial na sua literatura?”.

• Uma situação curiosa permeia a publicação de seu primeiro livro, Vasto mundo, por conta da apresentação. Como foi isso?
Tanto eu quanto meus primeiros editores, da Editora Beca, consideramos Vasto mundo como um romance, e isto está registrado claramente na ficha bibliográfica da primeira edição. A característica é que não tem um protagonista individual, e sim “o povo da vila” tem o protagonismo — um coletivo que exerce, nas pequenas cidades do interior, um papel muito marcante na vida de cada um e nos acontecimentos que atingem a muitos. Tanto que a voz que narra é a “voz do chão”, o próprio chão da vila da Farinhada. Não era um modo frequente de se construir um romance, e isso não fica logo evidente. A própria apresentação da primeira edição, feita por outro escritor, intitulada “Contos, cantos e encantos”, contribuiu para que ele fosse considerado como um livro de contos. Como aquele povo continuou a viver na minha cabeça, ao longo dos anos fiz mais alguns capítulos e na nova edição, que saiu pela Alfaguara, esses capítulos foram acrescentados, assim como mais falas diretas da “voz do chão”. E fiz uma reestruturação dos capítulos, de forma a tornar mais clara a unidade da linha narrativa. Mesmo assim, continua a ser referido como sendo um livro de contos.

• Um dos seus livros mais lidos talvez seja O voo da guará vermelha (2005), que foi adotado em vestibulares e ganhou edições na França, Portugal e Espanha. Como foi o processo criativo do romance?
Escrevi o primeiro capítulo, creio que em 2001, achando que era apenas um conto. Ficou guardado no meu baú de escritos. Mas aqueles dois personagens centrais continuaram vivendo na minha cabeça e, algum tempo depois, relendo aquele “conto”, percebi que devia ser o primeiro capítulo de um romance. Os capítulos seguintes seguiram vindo, na forma de uma grande viagem pelo mundo dos excluídos no Brasil. Curioso é que, quem ler o livro com atenção, notará que o único lugar que tem nome é a Grota dos Crioulos, remanescente de um quilombo que inventei e não situei geograficamente. Mais nenhum dos espaços onde se passam os acontecimentos narrados tem nome, e poderiam ter acontecido em várias regiões e cidades do país. Até misturei propositalmente a fauna, a flora e a linguagem, porque queria falar do “estado das coisas” no país inteiro e não de uma certa região. Muitos comentadores e resenhas, porém, logo situaram por conta própria os episódios da cidade grande em São Paulo, fizeram de meus personagens “nordestinos”, enfim, não puderam perceber que eu tentava sair dos esquemas “regionalistas”. Creio que os leitores em geral, mesmo inconscientemente, perceberam isso, identificam-se com essa ampla realidade e talvez por isso ele seja tão lido, apesar de não ter sido premiado.

• Você escreveu uma dezena de livros infantojuvenis, alguns deles premiados. Gosta mais de escrever livros para adultos ou para o público infantojuvenil?
Eu escrevo, simplesmente, o que me vem. A decisão de a qual leitor deverá ser preferencialmente dirigido é posterior, em geral em diálogo com as editoras. Inclusive livros que escrevi e foram publicados “para adultos” têm sido amplamente utilizados pelas escolas para adolescentes dos últimos anos do fundamental ou para o ensino médio. E vice-versa, livros publicados para crianças têm sido apreciados por adultos, segundo as mensagens frequentes que recebo.

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“A perspectiva de continuar numa vida missionária foi o que mais me atraiu para a vida religiosa.”

• O Clube do Conto da Paraíba é uma iniciativa literária muito democrática e original, da qual você participou ativamente da criação e da realização. Como essa história começou?
O Clube do Conto da Paraíba é integrado por escritores paraibanos ou radicados no estado. Surgiu em 2004 de uma lista de discussão na internet, via e-mail. Eu, que ainda não conhecia pessoalmente quase nenhum escritor na Paraíba, reclamei que preferia conhecer as pessoas ao vivo, e não apenas via tela de computador. Então, no próprio grupo, a grande Dôra Limeira, que então descobri ser minha vizinha, propôs nos encontrarmos, as duas, para um cafezinho numa tarde de sábado, num shopping popular de nosso bairro. Para nossa surpresa, na hora marcada, apareceram mais três ou quatro escritores do grupo virtual, preferindo também o encontro presencial. Assim começamos a realizar os encontros semanais com o desafio de trazer sempre um conto novo, mas sem punição nenhuma a quem não trouxesse. A cada reunião os escritores traziam contos produzidos a partir de um tema que elegem na semana anterior, expondo os mais diferentes e curiosos assuntos ficcionais. Hoje percebemos que sempre foi uma espécie de oficina de escrita criativa, sem mestre. Atualmente temos dificuldade em manter o ritmo semanal. Perdemos para a “outra vida” ou para outras regiões do país vários de nossos companheiros, e hoje há uma intensa atividade cultural em João Pessoa que compete com o clube. O grupo nunca teve nem regulamento escrito nem coordenador, diretor, representante ou nada semelhante, no entanto continua a existir, e se encontrar, e se manifestar, em determinados momentos. O grupo é aberto a quem quiser participar e ganhou certa visibilidade fora da Paraíba também, atraindo o interesse de escritores de outros estados que agendam encontros para interagir com a literatura e os leitores da Paraíba. E, o mais importante, foi meio para trazer à luz, fazer publicar e unir solidariamente muitos excelentes escritores, de todas as idades, que temos na Paraíba.

• O livro Conversa de jardim (2018) nasceu de várias conversas com o escritor Roberto Menezes, que também faz parte do Clube do Conto da Paraíba. Conte-nos sobre essa experiência.
Durante uns anos, o Roberto, que podia ser meu neto, se dedicava à corrida a pé. Como tudo o que faz é muito intenso, vinha correndo da ponta da praia de Manaíra até minha casa, subindo um bocado de ladeiras. Chegava exausto, e nos sentávamos no jardim, com muito café, água e sucos para que ele se preparasse para a volta. Conversávamos um bom tempo, sobre tudo, evidentemente muito sobre literatura ou o fazer literário, mas sem roteiro, simplesmente ao sabor do acaso. A certa altura ele decidiu gravar para ouvir de vez em quando assuntos que lhe interessassem mais. De repente, no início de 2017, chegou com um calhamaço de transcrições dessas gravações e a proposta de fazer um livro. O trabalho pesado foi todo dele, pois tivemos de editar tudo aquilo, pôr em certa ordem e eliminar repetições, já que os temas iam e voltavam e estavam dispersos ao longo dessas conversas. Daí saiu, pela editora Moinhos, o Conversa de jardim.

• Em 2018 você lançou A face serena, um livro de contos muito enxuto na extensão, mas de alta densidade dramática. Como foi a composição deste livro? Fazem parte dele textos escritos no Clube do Conto?
Para os encontros do clube, quando éramos muitos, às vezes 15 ou mais pessoas numa reunião, tivemos que limitar o tamanho dos contos lidos a cerca de duas páginas. Eu escrevia semanalmente e ia guardando os contos no meu baú. Creio que a maioria dos contos de A face serena, assim como os de Histórias nada sérias, tiveram sua origem nos desafios do Clube. Os que estão contidos em A face serena foram sendo retrabalhados ao longo dos últimos anos e, apesar de muito variados em estilo e temas, estão reunidos segundo um fio que se revela pelas epígrafes que incluí no livro, referindo-se à vida e à morte que se misturam em nosso cotidiano desde que nascemos.

“Certamente minha escrita é herdeira de tudo o que li ao longo de 70 anos.”

• Sobre os talentos literários fora do eixo Rio-São Paulo, quais você acompanha e aprecia?
Seria impossível listar aqui! Leio sem parar, na quase totalidade, nos últimos anos, só autores brasileiros, e principalmente autoras brasileiras, de todos os cantos do Brasil, sobretudo graças ao que eu chamo de “editoras de escritores”, que brotam por todo o país e publicam a literatura que nos representa e interessa, e deve nos orgulhar, pois a qualidade é cada vez melhor e mais impressionante. Alegro-me a cada livro muito bom que recebo e leio, e tenho a impressão de que as gavetas estão sendo abertas em todo o país, em todos os paralelos e meridianos, e não se fecharão mais!

• O movimento Mulherio das Letras reuniu mais de 500 escritoras em João Pessoa em 2017. Em novembro passado aconteceu o segundo encontro, no Guarujá, também com bom público. Como surgiu essa ideia e qual o balanço que você faz da iniciativa?
Acho que o movimento que se desencadeou com esse nome, que antes seria lido, talvez, como um termo meio pejorativo — “mulherio” —, ganhou um sentido entusiasmado, uma rede solidária, uma visibilidade crescente das mulheres na nossa literatura. E já não para mais. Na verdade, é o “movimento de libertação solidária das mulheres escritoras”, que prefere a aliança à competição!

 

 

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Carta à rainha louca
Maria Valéria Rezende
Companhia das Letras
144 págs.

 

 

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