Inquérito

dezembro 2019 / Inquérito / Peixe fora d’água

Texto publicado na edição #236

Peixe fora d’água

26 perguntas a Amilcar Bettega

> Por RASCUNHO

Amilcar Bettega, autor de Prosa pequena

Amilcar Bettega, autor de Prosa pequena

O gaúcho Amilcar Bettega é mais um exemplo do poder da fabulação. Nascido em São Gabriel (RS), em 1964, foi em meio a uma grande crise existencial e à beira do desespero que começou a escrever. “De alguma maneira, a literatura me salvou. E continua me salvando”, diz o autor d’O voo da trapezista (contos, 1994), seu livro de estreia e pelo qual levou o Açorianos de Literatura. Após um período de oito anos, volta à narrativa curta com Deixe o quarto como está, recebe novamente o Açorianos e uma menção honrosa no cubano Prémio Casa de las Américas. Já com Os lados do círculo, de 2004, levou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura (atual Oceanos). Sua única incursão pela narrativa de fôlego foi com Barreira, de 2013. Sua publicação mais recente é Prosa pequena, que acaba de ser lançada.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Já bem tarde, à volta dos 26 anos. Em meio a uma grande crise existencial e à beira do desespero, sem saber o que fazer da minha vida, e sem nunca ter escrito absolutamente nada antes, de repente comecei a escrever uma história. De alguma maneira, a literatura me salvou. E continua me salvando.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Como escritor, sou obcecado por revisar, reescrever. Como leitor, por descobrir mais um (dos tantos) destes autores que depois não saem mais da minha vida. Mania: quando carrego um livro na mochila, ponho-o sempre num saco de plástico-bolha.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
As notícias sobre o dia do meu time, o Internacional.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Sinceramente, e sem querer fazer nenhuma piada, acho que ele é incapaz de ler um livro, pelo menos em se tratando de ficção. Aliás, duvido que já tenha lido um. Portanto, recomendaria qualquer cartilha de alfabetização. Para começar, no sentido estrito do termo.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
Com certa paz de espírito. Depois de uma boa noite de sono, a saúde em dia, sem grandes problemas a resolver, e algumas horas sem nenhum compromisso pela frente. Ou seja, quase uma utopia.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Silêncio, uma poltrona confortável, com ou sem mesa, mas sempre com uma lapiseira à mão. Ou — grande prazer, porém curto, porque o sono vem — na cama, à noite.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando escrevo alguma coisa.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Sentir que aquela coisa meio nebulosa, sem pé nem cabeça, vai tomando forma.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
O sucesso.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Não conheço muito, aliás não sei bem o que é isto. Mas do que eu vejo por aí em entrevistas ou quando me convidam para participar de algum evento, me incomodam as poses, os esforços para parecer cool, inteligente, erudito, alinhadinho às últimas tendências, etc., e os esforços para fazer parte do clube, deste “meio”, que, como eu disse, nem sei bem se existe. O artista é sempre um peixe fora d’água.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
São tantos, tantos… A maior parte a gente desconhece, justamente porque a indústria cultural não lhes dá nenhuma atenção. Mas há mais de um tipo de falta de atenção: os ignorados, os mal lidos, os reconhecidos mas pouco lidos, os caídos no esquecimento, etc. Pra ficar com um nome só, do último grupo: João Antônio.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Imprescindível: O processo, de Kafka, mas isto é estritamente pessoal, só vale para mim. Descartável: uns 80% do que o mercado editorial faz circular pelas livrarias, e isto também é bem pessoal.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
As teses, as grandes verdades. A escrita “sobre” alguma coisa.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Absolutamente nenhum. Qualquer assunto pode entrar na literatura.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Não sou um escritor inspirado, copio de outros livros, de filmes, etc.

• Quando a inspiração não vem…
Escrevo. Se estivesse esperando por ela, não teria escrito nenhum dos meus livros. De fato, não acredito em inspiração. Posso pensar em vontade, desejo forte de fazer alguma coisa, às vezes até necessidade. É por aí que eu explicaria a “inspiração” na minha escrita.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Robert Walser.

• O que é um bom leitor?
Aquele que chega ao livro disposto a entrar em sintonia com ele. Que busca ali um tesouro, mesmo quando não há tesouro nenhum.

• O que te dá medo?
A doença. E que alguma coisa de ruim aconteça às minhas filhas.

• O que te faz feliz?
A felicidade das minhas filhas.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
Muitas dúvidas, sempre. Se vou conseguir escrever, se vou continuar a escrever, se vou ter força (física e mental) para isto, se escrevendo sou capaz de acrescentar alguma coisa, se sou digno de fazer o mesmo tipo de trabalho que tantos escritores geniais fizeram, se sou digno do tempo que o leitor vai pôr na leitura do meu livro, se sou digno da confiança deste leitor…, e outras, todas as dúvidas. Certeza: de que só conto com elas, as minhas dúvidas, para poder continuar.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Buscar à exaustão a melhor maneira de dizer aquilo que eu não sei exatamente o que é.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma.

• Qual o limite da ficção?
A rigor não há limite para a ficção, vai depender de como ela é lida.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Diria que o produto está em falta, que voltasse daqui a uns setecentos anos. Mas que o melhor seria telefonar antes.

• O que você espera da eternidade?
Oi? Eternidade?!

Amilcar_Bettega_Prosa_pequena_236

Prosa pequena
Amilcar Bettega
Zouk
208 págs.

 

Print Friendly

Deixe uma resposta