Inquérito

janeiro 2020 / Inquérito / Pedaço de loucura

Texto publicado na edição #237

Pedaço de loucura

26 perguntas a Nara Vidal

> Por RASCUNHO

Nara Vidal, autora de Sorte

Nara Vidal, autora de Sorte

“A cada desconforto, a cada questionamento, a cada falta de ar. É sempre aí que eu quero escrever”, conta Nara Vidal, que estreou no romance com Sorte e levou o terceiro lugar no Prêmio Oceanos de Literatura 2019. Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Artes pela London Met University, a autora mineira — que hoje vive na Inglaterra — abriu mão das exatas desde cedo e enveredou pelo caminho das letras, tendo lançado livros infantojuvenis. Além de sua obra premiada neste ano, publicou as narrativas breves de A loucura dos outros (2016) e Lugar comum (2015).

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Para mim é o verbo que está muito acima do substantivo. Sempre que escrevo é algo que vem de uma vontade de dizer. Substituiria a pergunta por “quando se deu conta de que queria escrever”. A cada desconforto, a cada questionamento, a cada falta de ar. É sempre aí que eu quero escrever. Escrever sempre será um processo e sempre corremos o risco de perdê-lo de vista. Escrever nunca é uma garantia. Mas, para pontuar uma origem, ainda menina meu interesse era nas letras, nas palavras, nos idiomas. Nunca na matemática, por exemplo. Isso me faz pensar numa professora de química da escola secundária. Numa manhã de prova eu era a última que restava na sala. A prova tinha dez perguntas e eu ainda estava na primeira. Essa professora olhou o relógio — já era quase meio-dia — e me perguntou: “Nara, você acha que vai trabalhar com alguma coisa no campo da química?”. Fui categórica: “Nunca!”. Ela pegou a minha prova, disse para eu não me preocupar com a matéria, mas investir cada vez mais no português e na literatura. Anos depois, lancei meu primeiro livro adulto na minha cidade e ela estava lá. Me contou do orgulho que sentia por mim como professora de química. Uma dessas educadoras que enxergam a pessoa dentro do aluno.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Quando escrevo no meu escritório, minha mesa fica de frente para a parede com estantes. Gosto de organizar os livros e o esquema é um pouco esquisito: Plath ao lado de Hughes, que está espremido por Clarice, que esbarra o ombro com Ferrante ao lado de Woolf, que se apoia em T. S. Eliot. Lygia está perto de Drummond, que está perto de Cabral e Murilo Mendes. Shakespeare está sempre ao lado de Cervantes, numa briga eterna pelo argumento do legado. Kafka está ao lado de Euclides da Cunha, e acho que isso o incomoda. Dou a Camus a companhia de Anaïs Nin, Capote ao lado de Bishop — que no momento está um pouco tímida, não quer sair da estante, e por aí vai. A coisa não tem fim, mas tem uma razão de ser na minha cabeça. Quando essa estranha ordem se altera, acho que é sinal de que o texto desandou. Apago o que escrevi, reorganizo a prateleira e começo de novo. Sei que é um pedaço de loucura, mas também sei que não estou sozinha nesses desatinos. Eu pelo menos admito o delírio.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Poesia toda noite antes de dormir. Jornal de manhã. Todo o resto na hora que dá.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Jair Bolsonaro, qual seria?
Desculpa, mas essa me parece uma pergunta de enorme inutilidade. Claramente o homem não lê.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
A luz e o silêncio das quatro da manhã. Trabalho bem quando o mundo ainda está suspenso. Gosto da ideia de ter me antecipado como se fosse possível viver um pouco do dia antes de todo mundo. Geralmente é um momento produtivo.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Um sofá confortável, silêncio, crianças ocupadas, um café ou um vinho tinto.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Pode ser uma pesquisa para determinado livro que tenha se aprofundado e ramificado. Pode ser um parágrafo que me deixa com vontade de não parar de escrever. Pode ser um conjunto de parágrafos num ritmo mais acelerado. Pode também ser uma mostra de arte, uma passagem de um livro ou um balé.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Me surpreender com a trama ou resolver um problema que eu criei. O ponto final é um grande alívio também.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A ansiedade, a vaidade, o excesso de autoconfiança.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
O puxa-saquismo e a vaidade que extrapola limites e se transforma em inveja de olhos cegos e vesgos e em espuma no canto da boca.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Eu acho essa pergunta um pouco pretensiosa e pontuada por um sopro de arrogância que não se encaixam na posição que eu ocupo. Mas, como leitora, gostaria de sugerir Adriane Garcia, Jeferson Tenório e Juliana Diniz.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Eu raramente desisto de uma leitura. Por isso, se não consigo avançar, o livro morre para mim. Imprescindíveis são muitos e vários, ainda bem!

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
A pretensão literária, o moralismo e o uso gratuito de ações ou palavras.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Qualquer assunto entraria na minha literatura.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Um documentário sobre os piores assassinos em série da Grã-Bretanha que mostrava um homem que matava suas vítimas e cozinhava os corpos. Mas há leveza também e geralmente os gestos, as vozes e o andar das pessoas me trazem muitas ideias.

• Quando a inspiração não vem…
Alguma atividade ligada à arte: assistir a um filme, balé, exposição em companhia das crianças, que é sempre mais interessante. Correr ou caminhar também ajudam a refrescar ideias.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Shakespeare. Tenho muitas perguntas pra ele. Sylvia Plath. Tenho muitas perguntas pra ela. Mas o que eu prefiro mesmo para um café ou um jantar ou uma garrafa de vinho é a companhia de gente que ri, que escuta, que conversa e de preferência que esteja viva.

• O que é um bom leitor?
É o que explora além do óbvio, além do que ditam as livrarias e a imprensa.

• O que te dá medo?
O tempo passando nos meus filhos.

• O que te faz feliz?
O tempo passando nos meus filhos.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza de que a minha pátria é a minha língua. A dúvida se a minha língua é a minha pátria.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
É uma preocupação com algo aparentemente tão simples, mas tão difícil de fazer: contar uma história.

• A literatura tem alguma obrigação?
Nenhuma. Ela é livre como toda arte deve ser.

• Qual o limite da ficção?
O final.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
A ninguém, mas convidaria para um café, um tinto para que me contasse da vida dele.

• O que você espera da eternidade?
Que ela seja apenas uma ideia descabida.

Nara_Vidal_Sorte_237

Sorte
Nara Vidal
Moinhos
100 págs.

 

 

Print Friendly

Deixe uma resposta