Ensaios e Resenhas

maio 2011 / Ensaios e Resenhas / Paula Parisot não está só

Texto publicado na edição #134

Paula Parisot não está só

Geralmente, ao concluirmos a leitura de um livro, nos perguntamos: foi bom? Quando cheguei ao final de As teorias selvagens, […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Geralmente, ao concluirmos a leitura de um livro, nos perguntamos: foi bom? Quando cheguei ao final de As teorias selvagens, acrescentei outra questão: para quê? Ainda não consegui definir se o livro de Pola Olaixarac é um texto de humor ou maneirismo oportunista. Suporta uma miscelânea — teorias beligerantes de Clausewitz e Sun Tzu — e passa por uma análise da sexualidade de portadores da Síndrome de Down, culminando com as performances de nefastos hackers. Mas ainda tem o recheio: vai de uma extensa camada de teorias antropológicas centradas em tribos da Nova Guiné a ironias acerca da luta contra a ditadura. E também não podiam faltar pitadas de pornografia e abalos à auto-estima.

O leitor se vê frente a famosa/atual/confusa narrativa fragmentada. Logo tal estilhaçamento narrativo busca justificativas em referências, sejam eruditas, pop ou imaginadas, pouco importa. Fugir da linearidade é um objetivo. História, enredo, quem diz que isso é necessário?

A leitura de As teorias selvagens exige como pré-requisito uma certa intimidade com os meandros da filosofia. Citações e mais citações, mudanças de narrador e uma ironia cinco estrelas atuam como vilões cuja missão é atrapalhar a leitura. Resumo da ópera, ou melhor, um dos resumos cabíveis: casal de estudantes nerds muito feios, ela, K. ou Kamtchowsky, gorda, inteligente, namora Pabst, as “mesmas qualidades” porém magro, ambos filhos de ex-guerrilheiros argentinos. Pola aproveita e desanca a esquerda que combateu a ditadura. Cabe tudo nessa história.

Resta espaço para a autora atacar a Faculdade de Filosofia de Buenos Aires — nesse momento quem entra em cena é uma estudante de Filosofia decidida a conquistar um antigo professor. O motor dessa empreitada é uma teoria filosófica que pretende recriar. A narradora alimenta uma obsessão pelo professor Augustus García Roxler, que ficou conhecido, ou foi reconhecido, por renovar (ou roubar) as teorias psico-antropológicas do holandês Van Vliet, que deixa a cena no início do século 20. Com o objetivo da conquista, a estudante busca orientação nas teses marciais de Clausewitz e também nas tais teorias selvagens de Augustus. Antes, para aquecer, ela faz um refém, um refém sexual: professor, meio século de invernos, esquerdista que conheceu os porões da ditadura. A indecisão entre teoria e prática leva a estudante de filosofia a se aconselhar com Montaigne, seu gato.

Isso não é tudo. É óbvio que não ficaria de fora do balaio (Celan, Althusser e South Park também estão lá), de jeito nenhum, o nosso momento big brother, nosso talento incansável para os exageros narcisistas. Ele acompanha os nerds de Póla, que têm por hábito filmar suas orgias e depois jogá-las no Youtube. Viciados em tecnologia ou cabeças vazias?

Esqueci de dizer que Pabst conheceu K. graças a um blog. O que tem no blog? Lulas gigantes, zumbis, nudistas e uma gama imensa de bobagens, a dita cultura inútil. Pola, infelizmente, vem engrossar essas fileiras. Diz o dito, tripudia sobre várias maneiras de sofrer e, ao que parece, se diverte com isso. Vale lembrar que a autora estará por aqui brevemente e, é claro, será incensada, tratada como futura ganhadora do Nobel, merecerá textos e mais textos sobre sua beleza, aparecerá em todos os programas de tevê e venderá, venderá, venderá.

Confesso, minhas melhores expectativas foram frustradas, mas nem tudo está perdido; Paula Parisot não está só. Mas por que nos rendemos assim tão fácil ao que vem de fora se temos aqui, em nosso torrão, produção tão precária. Por quê? Enquanto isso paira nosso silêncio e nossa cegueira sobre Cíntia Moscovich, Adriana Lunardi, Fal Azevedo. Uma pena. Enfim, arguto leitor, caso você venha a classificar como bom esse As teorias selvagens, responda, por favor: bom para quê?

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Pola Oloixarac

Pola Oloixarac

Nasceu em 1977, em Buenos Aires, e foi considerada pela revista britânica Granta um dos grandes nomes da nova geração de romancistas de língua espanhola. As teorias selvagens foi descrito por Ricardo Piglia como "um romance inesquecível, filosófico, selvagem e muito sereno". Além de escritora, é tradutora e assina artigos sobre arte e tecnologia em periódicos argentinos.

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Pola Oloixarac
Trad.: Marcelo Barbão
Benvirá
240 págs.