Dom Casmurro

setembro 2019 / Dom Casmurro / Patrícia Claudine Hoffmann

Texto publicado na edição #233

Patrícia Claudine Hoffmann

Oratórios d’água Reconduzo a chuva por dentro das agulhas até a palha movediça das procuras. Acho, no injusto avesso das […]

> Por Patrícia Claudine Hoffmann

Beto Paiva

Beto Paiva

Oratórios d’água

Reconduzo a chuva
por dentro das agulhas
até a palha movediça
das procuras.

Acho,
no injusto avesso das costuras,
a escuta de um pulso
bordado em índigos relevos.
Fluviais. Primevos.

Lavo os nervos nas pedras,
lavo também as pálpebras
entreabertas de tudo…
lavo
até abrir a pedra.

*

Havia uma bacia de alumínio
no quintal calorento de sermos
crianças,

onde guardávamos tsunamis
em miniatura,

entre os liames das rendições
e das solturas…

etéreas ondas vindouras
ainda estouram por dentro do presente
de nossas idades:

cidades interiores.

Incidem entre as saudades recusadas
no recuo das memórias
dessas marés em crescimento.

Sonhávamos com Deus
numa plantação de alentos

em plena reconstrução
pelos cedos das manhãs.

E tínhamos o frio das tainhas.

E tínhamos cedros.
E tínhamos credos…

Nada do que não pudéssemos
nos salvar.

*

Nada fácil converter a dor
nas curvaturas líquidas do que margeia,
se havemos de dobrar também
os joelhos da incerteza
sobre a nossa própria areia.

É de se romper
ao menos um instante inteiro
da bagagem interior e seu granizo…
até chegar ao sorriso estrangeiro
de si mesmo…

às certezas desossadas na viagem.

Para crer de novo na beleza
das azaleias
quando for hora da ancoragem.

Crer no zelo dos milagres
próprios da noite,
quando os poemas saem para rezar
na correnteza em flor.

E amanhecem!

 

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