Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Parede contra a dor

Texto publicado na edição #149

Parede contra a dor

Por mais cruel que seja uma história de ficção, ela nunca o é mais que a realidade. Afinal, pensamos, toda […]

> Por ADRIANO KOEHLER

Por mais cruel que seja uma história de ficção, ela nunca o é mais que a realidade. Afinal, pensamos, toda a dor e o desespero que um autor coloca nas páginas de uma história são falsos, são invenções para dar mais dramaticidade à narrativa. Correto? E quando a dor e o desespero são reais, provocados por fatos reais, com pessoas de carne e osso responsáveis por eles? O que fazer quando cai a ficha de que a realidade é perversa, de que as pessoas são capazes das piores malvadezas? Dá para manter a esperança?

Basicamente, esses são alguns dos sentimentos que nascem da leitura de K., estréia na ficção do jornalista Bernardo Kucinski. Sim, é um livro de ficção, mas quando se conhece a história de Kucinski, de seu pai e de sua irmã, percebe-se que a ficção foi a maneira encontrada pelo jornalista para expurgar muitos dos seus fantasmas pessoais.

K. é um judeu ancião, estudioso do idioma iídiche, viúvo, imigrante que veio para o Brasil fugindo do nazismo em sua Polônia natal. Sua primeira esposa era judia também, a última sobrevivente de uma família que havia sido dizimada durante a guerra. Em 1974, já viúvo, K. desconfia de que algo havia acontecido a sua filha, pois esta ficara dez dias sem entrar em contato com ele. É a partir dessa ausência que começa a busca de K. — e de tantos outros — por uma pessoa que o Estado brasileiro suprimiu a existência.

No início, K. não quer acreditar que a filha era militante política. Mas os indícios que vão aparecendo aqui e ali, a recusa de todos em ajudá-lo a encontrar qualquer sinal de sua filha e as ameaças veladas e não veladas a respeito de sua procura fazem K. tomar consciência de que ela era mais uma dos “desaparecidos”, como um jornal havia apelidado os tantos que tinham sumido sem deixar rastros. A sua dor em ver que os mesmos terrores sofridos na Polônia, na Segunda Guerra, estavam se repetindo no Brasil, país que julgara imune a essa tragédia, é o fio condutor da narrativa.

K. praticamente reconstrói a vida de sua filha, pois percebe que nunca viveu realmente ao seu lado. K. se culpa pelo seu desaparecimento. “Se eu tivesse estudado menos o iídiche e sido mais pai, com certeza ela não teria se enfiado na política”, é o seu pensamento. Nessa busca, K. descobre que a filha tinha se casado com Wilson, militante ativo da Aliança Libertadora Nacional (ALN), uma das organizações clandestinas de esquerda que havia durante a ditadura militar. K. não sabia do casamento, nem de suas tendências políticas e de várias outras coisas. Seu sentimento de culpa aumenta a sua dor.

Ao longo da busca, K. bate contra uma parede invisível formada pela mão forte do Estado e de sua máquina intimidadora. Quando uma esperança parece se abrir, logo ela é fechada, pois “esse assunto é muito perigoso”. E as pessoas que poderiam ajudar, no Brasil ou no exterior, aos poucos vão desaparecendo. Resta a K. a dor de não saber nada. Nem enterrar a memória da filha ele pode, pois os ritos judaicos estabelecem que deve haver um corpo para que possa ser feita a cerimônia do adeus. Mesmo anos depois da abertura política, ainda há os que o atormentam com falsas notícias. Para o autor, há grupos ativos que continuam trabalhando para manter aterrorizadas as famílias dos desaparecidos (a passagem do livro que fala disso foi tirada de uma experiência pessoal).

K. não é um romance. Na prática, são diversos contos que têm um tema central e que gravitam ao redor dele, cada um dando a sua contribuição para um quadro maior, em que há mais elementos em cena. Como o autor explica na abertura do livro, há a apresentação de K. iniciando os relatos, e um outro relato dando conta do fim das suas atribulações. No meio, uma ordem que veio de acordo com as lembranças, sem ser cronológica. A ordem não é necessária, porém, os retalhos se juntam de maneira harmoniosa para compor o quadro final.

Com uma linguagem precisa, Kucinski vai nos colocando mais próximo de K. Mesmo quando o autor inventa alguns trechos, como por exemplo a fala do delegado Sérgio Paranhos Fleury, chefe do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) em São Paulo durante o auge dos desaparecimentos, ele o faz baseado em fatos reais. Fleury existiu, e sobre sua morte paira a desconfiança de que foi provocada, pois ele sabia demais, muito para alguém que devia ser apenas operacional, não inteligente. Como o autor disse em entrevista ao site Rede Brasil Atual: “É autobiográfico, mas não é. Tem muita coisa factual, e muita coisa inventada. Foi uma parede que eu montei ao meu gosto, mas os tijolinhos são todos factuais, entende? A parede toda é como se fosse uma metáfora. Coloquei tudo no personagem do meu pai, mas, na verdade, metade daquilo fui eu quem vivi”.

O livro não entra em longas digressões. Bastam algumas poucas palavras a respeito do estado de espírito de K. para entendermos sua dor. Esta economia não significa “pão-durismo” — pelo contrário, mostra que o autor quer nos levar rapidamente ao centro do sofrimento do protagonista. Os interventos fictícios, longe de desviarem a atenção, ajudam a compor o quadro maior do período da época, novamente sem o uso de descrições extensas ou dados históricos cansativos. Mesmo que não haja ação, a narrativa nos prende. Queremos desafiar a lógica já colocada pelo autor no início, de que a filha de K. não aparecerá nunca mais, e ver se há alguma chance de ela aparecer. E, claro, ficamos ainda mais indignados com um país que permitiu tudo isso acontecer e que não tem coragem de esclarecer o que se passou.

O livro é baseado na história real de Ana Rosa Kucinski, irmã do autor, que “foi desaparecida” em 22 de abril de 1974. Nessa época, o autor morava na Inglaterra e trabalhava como correspondente do jornal Gazeta Mercantil. Ana Rosa, bem como a filha de K., era professora da Faculdade de Química da USP e casada com Wilson, dirigente da ALN. Ela é uma dos 138 desaparecidos da ditadura militar que ainda não tiveram seus destinos esclarecidos. Ainda que livros como K. não tragam novidades a respeito dessa passagem negra na história do Brasil, conhecer os sentimentos das pessoas que viveram esse drama pode nos ajudar a não repetir a história.

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Bernardo Kucinski

Bernardo Kucinski. Foto: Divulgação

Nasceu em 1937, em São Paulo. Jornalista, escritor e ex-professor da USP, ficou conhecido pela publicação de duas matérias sobre o mapa da tortura na ditadura, na revista Veja, em 1971. Nesse ano, parte para a Inglaterra, onde trabalhou na BBC e foi correspondente da revista Opinião e da Gazeta Mercantil. Retornou ao Brasil em 1974 e participou da fundação dos jornais alternativos Movimento e Em Tempo. Outros livros de sua autoria são ligados a estudos sobre a comunicação e a economia. K. é sua primeira obra de ficção.

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Bernardo Kucinski
Expressão Popular
177 págs.