Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Para todos os leitores

Texto publicado na edição #119

Para todos os leitores

Luis Fernando Verissimo preenche o romance Os espiões com alguns de seus traços mais conhecidos e mais admirados: bom humor, […]

> Por ROBERTA ÁVILA

Luis Fernando Verissimo preenche o romance Os espiões com alguns de seus traços mais conhecidos e mais admirados: bom humor, paixão pelo futebol, o flerte com o gênero policial e a despretensão. O livro narra a história de um editor que recebe originais para avaliação e vai se amargurando com o tempo. Não à toa, a frase que abre o livro resume a situação do protagonista: “Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer”.

Essa amargura faz do editor uma máquina de escrever cartas de rejeição com as maiores ofensas possíveis aos pretensos autores, até que um dia chega à editora um pacote com o primeiro capítulo da história de Ariadne, uma moça que escreve seu nome com uma florzinha em volta do “i”, que não coloca vírgulas no texto, comete erros de grafia e endereça as cartas para a editora com letras trêmulas. Além de tudo, ela promete se matar quando o livro estiver pronto.

O protagonista, em sua própria desilusão, se identifica com ela. Ele, que vivia um casamento de fachada, que sonhou um dia ser escritor, mas já não se atrevia a tanto. Quando chega a carta de Ariadne, ele se agarra a ela como Teseu se agarrou ao novelo de fio que a filha do rei de Creta (a Ariadne original) lhe dera de presente para que encontrasse a saída do labirinto, depois de matar o Minotauro. A Ariadne escritora de Verissimo, que mora em uma cidade fictícia no interior do Rio Grande do Sul, é o fio que guia a trama. Seu desespero, sua desilusão com a vida e sua vontade de morrer fazem o editor encontrar um novo sentido para sua vida: salvar a autora do texto de seu purgatório.

Esse objetivo é discutido na mesa do bar e os amigos do protagonista também se envolvem na empreitada. Passam todos de simples bêbados fracassados a espiões de primeira viagem. Fracassados, sim, porque Verissimo faz de seus anti-heróis criaturas deliciosas, com as mais inesperadas obsessões e manias, que cativam o leitor e dão leveza ao livro. As anedotas são disfarçadas pela narração de maneira a parecerem informações suculentas que complementam o desenrolar da trama. É o caso da descrição sucinta e eficaz do rumo tomado pelo casamento do protagonista: “A doce Julinha com quem me casei porque estava grávida desapareceu dentro de uma mulher gorda e amarga do mesmo nome e nunca mais foi vista”.

Apesar de não haver um crime, mas sim a intenção anunciada de um suicídio, o livro flerta com os romances policiais, mas a maior conquista de Verissimo, que já mostrava a sua afinidade com o gênero quando criou o detetive Ed Mort, não é a de criar um grande suspense, ou cenas de extrema violência, que por sinal são praticamente ausentes na trama. A questão de Verissimo é outra. Ele reflete sobre o papel do escritor, sobre o que cabe ao editor, sobre como as pessoas se apegam a certezas na vida sem que de fato exista uma certeza, como fica claro no final do livro. Ao invés de salvar Ariadne, o editor descobre que na verdade ela não precisava ser salva e que a sua interferência foi a desgraça de uma criatura que ele amou muito, sem nunca conhecer. Era ele quem precisava ser salvo.

Verissimo também agrada a gregos e troianos ao dialogar com leitores de todos os tipos. Satisfaz os intelectuais ao citar De Chirico, le Carré, o mito grego de Ariadne. Mas fica ao alcance de todos quando satiriza o casamento e expõe os fracassos de suas personagens. Ao fazer com que boa parte da história se passe em Frondosa, uma pequena cidade genérica e inventada no interior do Rio Grande do Sul, Verissimo se permite divagar sobre as cidadezinhas do Brasil e seus tipos. Por mais metropolitana que uma pessoa seja, ela provavelmente já esteve ou já ouviu falar de uma cidade exatamente como essa e passou pela mesma escolha que Verissimo. Ele podia enxergar Frondosa como uma cidade pacata e sem graça, mas no fim das contas é por isso que vale a pena ler o livro, porque para Verissimo (ou com ele) nada é sem graça. Os espiões carrega essa marca do conhecimento que Verissimo tem sobre o gaúcho, o brasileiro e o ser humano e que imprime com delicadeza e ironia em cada parágrafo.

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Luis Fernando Verissimo_Espioes_119

Luis Fernando Verissimo
Objetiva
142 págs.