Atrás da estante

janeiro 2012 / Atrás da estante / Palavras do Sol

Texto publicado na edição #117

Palavras do Sol

E o que foi a vida? Uma aventura obscena de tão lúcida. Hilda Hilst   “Eu fiz tudo o que […]

> Por CLAUDIA LAGE

E o que foi a vida? Uma aventura obscena de tão lúcida.
Hilda Hilst

 

“Eu fiz tudo o que pude fazer”, disse Hilda Hilst em entrevista à Folha de S. Paulo, em 1999. A escritora estava com 69 anos. Autora de 40 livros, não hesitou em afirmar à jornalista, “Não escrevo mais”. A decisão não vinha do desinteresse pela escrita, nem por algum ressentimento de ter tido uma carreira literária brilhantemente criativa e, na mesma proporção, solitária e obscura, mas de uma contestação: “Já disse o que tinha a dizer, e a da melhor forma que pude”.

Foi justamente a forma, ou a linguagem, a grande companheira de Hilda em sua vida literária. Ao se mudar para a Casa do Sol, aos trinta e cinco anos, com o então marido Dante Casarini, Hilda deixou uma vida social intensa para se dedicar exclusivamente à literatura. Opção que manteve até o fim de sua vida, aos 73 anos. Opção que a tornou uma escritora de inspiração inquieta e transgressora, ou foi antes a sua inquietude e a transgressão que a fizeram optar radicalmente pela literatura. Amante da física e da filosofia, reconhecia em escritores como Joyce e Kafka a dimensão einsteiniana do espaço e do tempo. “Por isso, não acredito mais no texto linear”, ela disse uma vez, “em romances com começo, meio e fim”. Realmente, quem for corajoso o bastante para ler Hilda Hilst, irá se deparar com um narrador essencialmente lírico, cuja voz anuncia pensamentos, reflexões, sentimentos e atos, mas que nunca exercerá, como faz o narrador mais prosaico, o papel de organizador dessas anunciações. “Nunca é assim na própria vida”, ela considerava, destruindo conscientemente toda e qualquer hierarquia em sua escrita. “Minha linguagem é inovadora sim, e essencialmente poética. Não obedece a convenções gramaticais, tem outro ritmo porque não pensamos nem sentimos de forma simplezinha, organizada ou linear”, afirmou, em uma de suas últimas entrevistas.

“Cheguei aqui nuns outubros de um ano que não sei, não estava velha e não estou”, fala a narradora de Matamouros, novela pertencente ao livro Tu não de moves de ti, um dos mais densos e belos da prosa de Hilst, “talvez jamais ficarei porque faz-se há muito tempo nos adentros importante saber e sentimento”. E depois dessas primeiras frases, a narrativa mergulha num ritmo insinuante e ardoroso, sem praticamente mais interrupções de pontos finais e parágrafos a ordenar os assuntos, a separar o que se diz do que se sente, a elucidar o que é memória ou acontecimento. “Amei de maneira escura porque pertenço à Terra, Matamouros me sei desde menina, nome de luta que com prazer carrego e cuja origem longínqua desconheço, Matamouros talvez porque mato-me a mim mesma desde pequenina”. E assim, nós, capturados pelo serpentear mágico da palavra de Hilda, conhecemos essa menina que se relaciona com todos e tudo com uma sensualidade e sexualidade exacerbadas: “desde sempre tudo toquei, só assim é que conheço o que vejo, tocava os morangos antes do vermelho, tocava-os depois gordo-escorridos, tocava-os com a língua também, mexia tudo muito, tanto, que a mãe chamou um homem para que fizesse rezas sobre mim”.

A busca dessa escrita não linear, a ausência de um narrador que organiza os eventos, que dá seqüência ao enredo, situa o leitor em um espaço e tempo, apresenta personagens e conflitos, expõe sentimentos justificados e reflexões contextualizadas, desenvolve acontecimentos até o seu clímax e inevitável desfecho, exige tanto do leitor quanto a literatura exige da escritora, Hilda sabia. “Sei que não escrevo do jeito que a grande maioria dos leitores está acostumado a ler”, profere, com a consciência de que a ânsia criativa e a proposta criadora que sua arte demandava poderiam ter um preço. “A minha forma é inovadora, mas não incompreensível.” Hilda não se surpreendia de provocar estranhamento no leitor, o que a espantava era o rótulo da incompreensão.

Aclamada pela crítica em grande parte de sua carreira, premiada muitas vezes, e até se não o fosse, Hilda tinha consciência do seu trabalho de escritora. Mais tarde, a própria crítica e o meio literário silenciaram a respeito de sua obra. Quando não havia o silêncio, havia a classificação errônea de que era pornográfica, ou de complexa, dois adjetivos que a própria Hilda não resistia a dar uma resposta irônica: em toda a sua vida, ela nunca tinha visto duas qualidades como aquelas andarem juntas. No entanto, não era a ausência da crítica, mas a dos leitores que mais a incomodava. Numa tarde, na Casa do Sol, uma amiga foi visitá-la, e a encontrou chorando em seu escritório. Preocupada, perguntou se havia acontecido alguma coisa de grave. Hilda foi direta em sua resposta: “Eu não sou lida!”, disse. E ali estava o maior lamento sobre a sua obra. Não ser lida. Era isso que havia acontecido de grave.

Quando sua obra completa foi enfim relançada pela editora Globo, em 2002, e começou a crescer o interesse em torno de seu nome, a reação de Hilda foi plácida. “Fico feliz, mas agora isso não tem mais tanta importância.” A escritora, com 72 anos, tinha a convicção de que a sua missão literária estava cumprida. “Não escrevo mais”, ela havia dito à jornalista, e completou: “Está tudo lá”. Lá: em seus romances, contos, poemas, peças, uma obra vasta e surpreendente, que atrai cada vez mais leitores, fascinados pelo seu texto pulsante e desconcertante, pelo intenso fluxo de imagens e sensações que a sua leitura desperta. “O escritor e seus múltiplos vêm nos dizer”, ela escreveu, em um dos seus últimos textos, “Tentou na palavra o extremo-tudo”. Palavras que eram praticamente um epíteto de sua obra, “Esboçou-se santo, prostituto e corifeu”, de sua relação apaixonada com a escrita, “Transgressor metalescente de percursos”, de sua entrega absoluta à sua voz criativa, “Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra”, consciente de todos os riscos, sim, “Poupem-no o desperdício de explicar o ato de brincar”, mas, principalmente, de toda a liberdade artística de seguir o próprio caminho: “Sinto-me livre para fracassar”.

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