Ensaios e Resenhas

outubro 2013 / Ensaios e Resenhas / Paisagem de homem e menino

Texto publicado na edição #162

Paisagem de homem e menino

Em “Aos 7 e aos 40”, João Anzanello Carrascoza consolida sua prosa poética através do uso preciso da linguagem

> Por MARIA CÉLIA MARTIRANI

João Anzanello Carrascoza, autor de Aos 7 e aos 40

João Anzanello Carrascoza, autor de Aos 7 e aos 40

O romance Aos 7 e aos 40, de João Anzanello Carrascoza, recém-lançado pela Cosac Naify em edição primorosa, confirma o que já se anunciava em boa parte da trajetória ficcional do autor: a bem realizada investida num tipo de prosa que se caracteriza, acima de tudo, por ser poética.

Em tempos como estes, em que certas tendências artísticas acabam, muitas vezes, por forjar produções ficcionais altamente pretensiosas, repletas de arroubos de intertextualidade, ensaísmo e citações carregadas de erudição, que exigem verdadeiras acrobacias por parte do leitor comum, pode soar estranho falar em autêntica prosa poética.

No entanto, Carrascoza vem se afirmando como mestre no gênero, isento aos ismos de toda espécie, dono de uma voz que lhe é muito própria. Parece saber que qualquer pequeno deslize pode ser excessivo a ponto de fazer a narrativa se encharcar de tintas melodramáticas — daí por que tudo o que escreve reforça a idéia da justa medida e da boa e necessária contenção. O que advém, em decorrência disso, é o depuro de uma linguagem que tangencia o poético, sem jamais cair no prosaico, conciliando esses dois elementos — que adquirem extrema densidade, como se cada palavra assumisse o peso de todo o universo. E esse universo passa a ser apreendido no singelo das coisas simples, das ações cotidianas, do contraste entre o espaço urbano e o rural, do intercâmbio sutil das relações e dos afetos, num tempo que se suspende e se dedica a capturar o flagrante do aqui e agora. 

Duas consciências
Não é diferente o que ocorre neste seu primeiro romance. Trata-se de uma obra de tom memorialístico, uma vez que temos duas consciências narrativas que dialogam num interessante jogo de espelhos, refletindo-se reciprocamente.

Uma delas, em primeira pessoa, é a de um homem a resgatar fragmentos dispersos da infância, buscando aproximar-se — o mais intimamente possível — do menino que teria sido aos sete anos. A outra, distanciada em terceira pessoa, revela a trajetória madura daquele mesmo homem (aos quarenta) em seu presente, repleto de dúvidas e incertezas.

Importa notar o quanto o romance ganha força justamente a partir dessa opção do autor em trabalhar com dois níveis distintos de consciências do narrar. Temos, assim, logo ao início, a divisão das partes da obra, configurada por meio de dísticos ou de duas variações sobre o mesmo tema; ou ainda, da justaposição de índices antitéticos, a revelar o inconciliável, o imponderável da vida e, mais que tudo, o das desconcertantes tentativas de aproximar presente e passado.

É o que percebemos nessa abertura, em que a parte superior da diagramação da página, em tom de verde mais escuro, dedica-se aos capítulos de volta à infância, e os da inferior, em verde mais claro, aos do homem maduro. Mas o que separa os dois universos é apenas uma linha muito sutil, como se as duas instâncias fossem os dois lados da mesma moeda ou, em outros termos, como se, para cada ação do menino correspondesse uma reação do homem:

Depressa      Leitura      Nunca mais      Dia       Silêncio      Fim

Devagar   Escritura    Para sempre    Noite   Som    Recomeço

Assim, por exemplo, o menino, ávido pela vida, tem pressa; o homem, por buscar as coisas de modo mais desencantado, faz com que tudo se arraste num ritmo mais lento. No momento em que o menino aprende a ler — tanto as palavras, quanto as pessoas —, num ritual de iniciação, o homem, já vivido, arrisca-se a uma compreensão (um tanto quanto dolorosa) do mundo, escrevendo-o.

Os movimentos duais, embora opostos, fazem parte, dialeticamente, da mesma partitura musical, que aprendemos a executar, vivendo…

João Anzanello Carrascoza por Robson Vilalba

João Anzanello Carrascoza por Robson Vilalba

A nascente da memória
De certo modo, a estrutura romanesca que aqui se desenha revela o fracasso de qualquer empreitada da memória — ainda que bem intencionada — em resgatar o passado, uma vez que é impossível recuperar integralmente o que já se deu. É o que depreendemos do seguinte trecho final, em que o homem decide viajar para o interior, para sua cidade natal e onde vivera a infância (num caminho de volta às origens), e se depara com o vazio daquela busca:

[…] por isso viera em sua nascente — como se fosse possível encontrar nos escuros do passado outra coisa além de alegrias mortas…

[…] no vão entre suas palavras, lá ela se escondia, a voz vigorosa da certeza. Certeza de que o dia saía, quebradiço, do molde que ele imaginara perfeito para conformá-lo — a realidade, como uma lava, vazava, espessa e rija, petrificando suas lembranças.

A vida era o que era, e ele cada vez mais longe de sua fonte, mesmo se de volta a ela, como agora — tudo no caminho é para ficar para trás, as pessoas carregam só aquilo que deixam de ser, o presente é feito de todas as ausências.

[…] precisava tirar os véus de seu pensamento, ver se debaixo deles reencontraria a sua velha infância. Caminhou vagarosamente até a praça, como se sobre as águas, andando distraído pela calçada empoeirada, mais dentro de si do que fora, com seus anos todos em cada um de seus passos. Reconhecia a igreja matriz adiante, a rua Quinze à esquerda, a casa da esquina onde antes era o Bar do Ponto.

Tudo ali havia perdido a cor, a luz, os contornos vivos.

A cidade que lá estava era a mesma, mas a outra, a sua, a cidade que se enraizara nele, essa se apagava aos seus olhos, como um glaucoma, sob a camada fria da atual. […]

E os pés o levaram à escola, cujo prédio, embora com a mesma fachada de antes, já se revelava outro.

Parou diante do portão e observou a janela das salas de aula, o pátio onde conhecera a generosidade do Bolão, o cercado de areia onde treinava salto em altura. Na escadaria, umas folhas secas ao vento, era o que havia. O passado se recolhia em concha.

Ele, agora, só reencontrava bordas, o recheio das coisas se perdera.

E, afinal, o que ele desejava?

Reviver?

Mas tudo — adianta não admitir? — tudo é um viver único, de uma só vez, sem repetição…

Composição simbiótica
Mesmo que sua tentativa de reapropriação do passado fracasse, já que “aquele passeio pela cidade era uma hora final”, anuncia-se, por outro lado, um incipiente reinício: “ele se saindo da placenta úmida, um novo velho menino”.

Então, embora os dois níveis narrativos se configurem ao longo da disposição das páginas como células independentes, que, inclusive, podem existir de modo autônomo, ao final, eles se entrecruzam, numa composição quase simbiótica. O homem extrai do inevitável colapso de sua viagem no tempo, de seus resquícios, a seiva vital para se reinventar — ainda que com os limites do presente — com uma força análoga à que possuía outrora.

Melhor dizendo, diante do desconcerto de que “o presente é feito de todas as ausências” e de que não há como trazer de volta o já vivido, pois tudo só acontece uma única vez, talvez as reminiscências do que fomos sejam o principal alimento a nutrir o que somos e o que viremos a ser. Porque, na verdade, o presente segue, visceral e paradoxalmente, com o passado e, no homem, sempre habita o menino. 

Quadros
Com quadros narrados a partir da observação minuciosa de paisagens, desde as mais interiores e íntimas até as do ambiente externo, numa economia de meios capaz de traduzir um uso preciso da linguagem que busca também o não dito, o que se oculta no “vão das palavras”, Carrascoza materializa formalmente seu intento literário, revelando o que há de melhor na prosa brasileira contemporânea.

Não importa aqui indagar se, machadianamente, neste Aos 7 e aos 40 “o menino é o pai do homem”, procurando verificar o que condiciona, às vezes de modo um tanto quanto estereotipado e determinista, a vida adulta ao que foi plantado na infância. O que importa é notar que o narrador em primeira pessoa propositalmente adere às descobertas do menino, às urgências do primeiro olhar sobre a vida, afoito, apressado, espontâneo, num à vontade que deixa de existir por completo quando o distanciamento se instaura pelo narrador em terceira pessoa. Este, de maneira diversa à do anterior (seu duplo), revela o homem maduro, cuja fala contida é a tradução precisa das perdas e de suas conseqüências. É nele que se precipita a crise e a necessidade de voltar ao passado, à cata de lembranças que possam brotar frescas da nascente da memória.

É da tensão entre os dois planos narrativos que surge a força dessa prosa poética, que trata de temas que nos são extremamente familiares, tão pertinentes à nossa condição.

Ainda que transite pelo fio da navalha, pela linha tênue que separa duas fases distintas da vida, em que predominam situações de radical confronto e oposição, o menino e o homem — aparentemente antitéticos — não duelam, nem digladiam. Compõem uma paisagem, que não é jamais figurativa, muito menos plácida ou coerente, porque a memória é a tela fluida, escorregadia, inapreensível e acima de tudo, ficcional e contraditória — e na qual Carrascoza bem manuseia as tintas de seu narrar.

LEIA PAIOL LITERÁRIO COM O AUTOR.

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João Anzanello Carrascoza

Nasceu em Cravinhos, interior de São Paulo. Formou-se em comunicação social da Escola de Comunicação e Artes da USP e trabalhou durante anos como redator publicitário. Em 1994, publicou seu primeiro livro, Hotel solidão, com o qual venceu o Concurso Nacional de Contos do Paraná. Recebeu outros prêmios (Radio France Internationale, Jabuti e Eça de Queiroz) e publicou mais de vinte livros, entre infanto-juvenis e de contos, como O vaso azul, Duas tardes, Espinhos e alfinetes e Aquela água toda. Alguns de seus contos também apareceram em antologias na Itália, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Suécia, na Índia e pela América Latina.

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João Anzanello Carrascoza
Cosac Naify
224 págs.