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outubro 2019 / Rodapé / Pai contra mãe, de Machado de Assis (3)

Texto publicado na edição #234

Pai contra mãe, de Machado de Assis (3)

É bom destacar também no estilo machadiano o caráter comunicativo e o emprego corretíssimo do vernáculo

> Por RINALDO DE FERNANDES

Os personagens de Pai contra mãe: 1) Cândido Neves — principal personagem do conto. Por um lado, é inapto e mesmo indiferente aos vários ofícios a que se vincula. Mas as pressões financeiras, o casamento e o nascimento do filho forçam-no, e já numa situação-limite de despejo, a ser caçador de escravos fugidos. É um personagem que termina incorporando ou metaforizando a força/violência da instituição da escravidão. Se visto pelo prisma do interesse próprio, no embate com a escrava capturada Arminda, torna-se também profundamente egoísta — além de passar a visão (com certa dose de determinismo) de que na vida social o mais forte atropela o mais fraco; 2) Clara — esposa de Cândido Neves, órfã, é costureira como a tia Mônica, com quem mora antes do casamento. Adere ao ponto de vista da tia quanto à necessidade de levar o filho à Roda dos Enjeitados. Torna-se, assim, uma figura feminina de menor relevo no desenrolar do enredo; 3) Mônica — pragmática, personalidade forte, austera, é, como já indicado na coluna anterior, uma espécie de superego de Cândido Neves, lembrando-lhe o tempo todo de que a necessidade financeira é real, imperiosa, não há como contorná-la; 4) Arminda — escrava capturada por Cândido Neves, representa a condição do escravo fugido, a carga de repressão/violência a que se submete a mando do senhor/proprietário. O aborto de Arminda, na cena final do conto, é dramático — e, para além da justificativa de Cândido Neves (“Nem todas as crianças vingam”), denuncia toda a violência do regime escravocrata. Por outro lado, o narrador do conto, de terceira pessoa, procura ser objetivo, imparcial, como que interessado em descrever, à maneira de um cientista (um historiador), uma situação da vida brasileira. Mas já na introdução do conto nota-se, por exemplo, o seu tom cáustico, irônico, ao escarnecer as práticas do regime escravocrata, como o uso de máscaras grotescas pelos escravos (porque “a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco”). Certos espaços aludidos no conto ajudam a configurar a ironia do narrador. Por exemplo, Cândido Neves procura Arminda pelas ruas do Parto e da Ajuda, “onde ela parecia andar, segundo o anúncio”. No final do conto, Arminda não tem um parto, mas um aborto; e não tem ajuda alguma — é entregue violentamente ao seu proprietário. No que diz respeito ao tempo: o conto configura o tempo histórico especialmente na introdução, quando o narrador comenta aspectos da escravidão, como as práticas violentas a que o regime recorria, as constantes fugas de escravos e o ofício de caçador de escravos. A partir daí, o tempo cronológico predomina, sendo que o narrador faz, inicialmente, observações sobre os ofícios a que Cândido Neves se liga e logo se afasta, sobre o seu casamento, sobre o nascimento do filho, sobre o despejo — até a captura de Arminda e o aborto sofrido por esta. O tempo psicológico é incidental, o que ajuda na fluidez da narrativa, que, em boa medida, se aparenta com um relato histórico, detentor de objetividade — e que, portanto, se inibe na sondagem interna e no exame dos afetos/sentimentos dos personagens. Por fim, uma nota sobre a linguagem: o estilo culto, erudito, de Machado de Assis está em Pai contra mãe. Desde a introdução, em que o narrador, bem informado, com base em referências históricas consistentes, aponta aspectos da escravidão brasileira que irão compor o núcleo forte do enredo, que é a captura de Arminda por Cândido Neves. É bom destacar também no estilo machadiano o caráter comunicativo e o emprego corretíssimo do vernáculo.

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