Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Outro índio de casaca

Texto publicado na edição #116

Outro índio de casaca

Hoje não tem introdução, vamos direto, curioso leitor. O livro é extenso, 565 páginas, o livro é premiado, Prêmio Leya […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Hoje não tem introdução, vamos direto, curioso leitor. O livro é extenso, 565 páginas, o livro é premiado, Prêmio Leya 2008, o autor é experiente, mas o livro é “quase”. Quase bom, quase repetitivo, quase entediante, quase uma aventura, quase previsível. Deve muito a Tristes trópicos, de Lévi-Strauss, deve um pouco a Trevas no Eldorado, de Patrick Tierney, e outro pouco a Os sertões, de Euclides da Cunha. O enredo é simples, mas a tentativa de torná-lo complexo o transformou numa trama previsível. Tudo isso embalado pelo sentimentalismo sempre exagerado da música de Wagner. Isso é opinião, você não é obrigado a aceitar, tampouco concordar. Respeite e estamos conversados, educado leitor.

A trama é a seguinte: véspera do ano-novo de 1900, Pereira, velho jornalista de origem portuguesa, começa a desfiar suas memórias, que chegam da metade do século 19. Conta que saiu de Paris junto com Pierre. O jornalista/narrador pretende apresentar o Brasil que nessa época está em guerra com o Paraguai. Detalhe: o Brasil não está só nessa “dificílima” empreitada. Ajudarão no massacre a Argentina e o Uruguai.

O rastro do Jaguar é a história de Pierre, soldado francês de origem guarani, que vem ao Brasil em busca de suas raízes, tendo como pano de fundo a colonização dos índios.

O que me proponho a escrever não são minhas memórias, não é um romance; será, talvez, uma longa reportagem sobre a história de várias guerras, grandes e pequenas, que acompanhei ao longo desta vida de repórter. Mas principalmente sobre a viagem de um homem em busca de sua alma e de seu povo. Esse homem se chamou Pierre de Sanit’Hilaire, foi soldado, músico, poeta e mais tarde transformou-se no Jaguar, o Iauaretê das pradarias do Sul.

Pierre não é pouca coisa. Guarani, formou-se na Europa, músico erudito, tocou na estréia do Tannhäuser, dramalhão wagneriano, em Paris. Seria Pierre o nosso outro “índio de casaca” — apelido que Menotti del Picchia deu a Villa Lobos?

A busca de Pierre se desenvolve em quadros pintados com as tintas da melancolia, a leitura de cartas antigas vai deixando à mostra a quantidade incompleta de peças de um quebra-cabeças. Gravados nessas peças, as incursões das personagens e um capítulo da história do Brasil do século 19.

As veredas de Pierre e Pereira começam pelo sertão. É lá que eles percebem a resistência dos nômades botocudos. Esses aimorés não se rendem ao colonizador, não abandonam seus hábitos nômades, tais atitudes os encaminham a um fim deplorável.

Pierre, você logo perceberá isso, arguto leitor, encontrará sua gente e, a seguir, se ocupará com os mitos de sua gente. O mito que não exige dissociação entre ser e natureza, tudo se confunde, o eu e a natureza são uma coisa só. Nossa sociedade atual, massificadora, opera nessa mesma faixa, provocando a perda das individualidades. O indivíduo acompanha a vontade das massas. Bem, mas isso é assunto para outra hora.

Voltamos a seguir o rastro do Jaguar. Ao mergulhar nos mitos criadores de seu povo, Pierre tem atenção despertada pela existência de uma Terra Sem Males. E Pierre parte…

Não importava que o Norte os levasse ao coração do Império — nada limitaria a caminhada em busca da Terra Sem Males.

— Por quê? Porque assim nossos antepassados nos mandaram; porque assim continuaremos vivos, assim teremos a esperança. Até onde iremos? Não é possível saber o destino antes de começar a caminhar. Haverá, em algum lugar, um vale pequeno onde nossa gente poderá abrigar-se, silenciosa, aguardando seu futuro.

O rastro do Jaguar tem alguns pontos em comum com Trevas no Eldorado, entre eles o massacre dos índios. Na obra de Tierney percebemos as ações criminosas de cientistas e jornalistas. O rastro do Jaguar, por sua vez, traz a reportagem da Guerra do Paraguai.

Argentinos, brasileiros e uruguaios se uniram para combater as tropas de Solano Lopez, que contava em suas fileiras com um vasto contingente de guaranis paraguaios. Dizimados, é claro.

O rastro do Jaguar enquanto aventura, aventura de índios, lutas, selvas, radiografia da colonização, da nefasta contaminação religiosa/ideológica, tem lá seus méritos. Do seu caráter antropológico não convém tratar, Tristes trópicos ainda vale leituras e releituras infindáveis. No quesito reportagem, a obra de Murilo Carvalho fica bastante aquém de Os sertões, inclusive no que diz respeito à aventura, ao quase faroeste tupiniquim que ele e Euclides da Cunha escreveram. Desse modo, concluo que a floresta seja o terreno por onde Murilo de Carvalho melhor conduz sua narrativa e seus personagens. Embora seus personagens sejam de uma firmeza psicológica assustadora, buscar aproximações com a realidade não é tarefa das mais fáceis. Tem um quê daquelas construções idealizadas, o índio de José de Alencar e suas façanhas. Murilo tem resquícios de um romantismo que compromete. Vale ressaltar o olhar crítico do autor no que diz respeito à moral vigente no Brasil pós-colônia, onde negros e índios eram tratados como “bois de piranha”. Os Farrapos, General Canabarro enviou os lanceiros negros, armados com lanças e nada mais, a enfrentar as balas. Viraram nomes de ruas e avenidas os “anjos Caxias, Canabarro, Borges de Medeiros et caterva. Feito o desvio, voltemos ao rastro do Jaguar.

Ao ingressar no cenário urbano, os aspectos de gosto duvidoso se tornam mais evidentes. Na viagem da floresta para a Europa, Murilo esquece algumas coisas e acrescenta outras, entre elas a pieguice e os lugares-comuns. A história de amor de Pereira, o narrador, é constrangedora em seus exageros nostálgicos. Mas Murilo não deixa a pieguice de lado quando o cenário é a floresta, não embarque nessa canoa, ingênuo leitor. Atente para o trecho onde o narrador se refere à poesia de Gonçalves Dias.

Hoje, depois de tantos anos, percebo como ele estava errado; seu romantismo não era exagerado; as virtudes como honestidade, honra, coragem, lealdade, amor, que ele colocava romanticamente, nos personagens de seus poemas, existiam sim entre os índios brasileiros.

Isso posto, vale acrescentar mais um quase a O rastro do Jaguar: o quase épico. O quase épico que não enaltece feito algum, o quase épico a apresentar desastres e mais desastres culturais.

E de Wagner, a influência maior que se nota não vai além dos absurdos sentimentais.

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MURILO CARVALHO

É jornalista, escritor e documentarista. Durante os anos de ditadura militar no Brasil, foi repórter do jornal Movimento. Trabalhou ainda no jornal Folha de S. Paulo e em revistas da Editora Abril. Nos últimos anos, dedicou-se à produção de documentários e programas de televisão sobre a realidade brasileira.

Hoje, relendo o poeta Gonçalves Dias, não apenas este poema, mas outros versos em que fala da nobreza, do amor, dos grandes sonhos que nascem nas noites da floresta, posso compreender ainda com mais clareza as decisões de Pierre e também por que seu povo passou a chamá-lo de Jaguar, o grande tigre das florestas americanas, solitário, valente e poderoso. O Jaguar, cujo rastro venho seguindo, para que eu mesmo possa ter certeza de que a honra e a lealdade são os valores que levarei comigo desta vida de aquém-túmulo.

Murilo Carvalho_O rastro do Jaguar

Murilo Carvalho
Leya
565 págs.