Ensaios e Resenhas

abril 2013 / Ensaios e Resenhas / Ousadia kafkiana

Texto publicado na edição #97

Ousadia kafkiana

A obra do escritor tcheco judeu Franz Kafka (1883-1924) é emblemática. Para descrever o realismo alucinado do início do século […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

A obra do escritor tcheco judeu Franz Kafka (1883-1924) é emblemática. Para descrever o realismo alucinado do início do século 20, ele usou principalmente o contraponto entre lucidez e ironia. Desta forma construiu personagens marcados pela opressão cotidiana. Eram homens e mulheres vagando por um mundo irracional e sombrio, onde a esperança se esgueirava pelas vielas e nunca chegava de fato a aparecer. Uma literatura de dor, mas profundamente profética ao descarnar uma sociedade embasada no poder autoritário e na prevalência da ambição.

Retrilhar esse caminho tem sido o desejo de muitos escritores influenciados por Kafka. O problema é que o caminho é extremamente perigoso. Kafka, na sua indiscutível genialidade, criou um mundo tão original que sua revivência pode cair num pastiche aborrecido. E não têm sido poucos os casos de cópias malsucedidas não só dele, mas também de incontáveis outros autores.

Em seu novo o livro de contos, A copista de Kafka, como o título anuncia, Wilson Bueno enfrenta o desafio de produzir mais uma imitação barata ou, enfim, encontrar pontos de originalidade e renovação num universo já tão brilhantemente descrito. Os vinte e sete textos cercados por quatro trechos do diário fictício de Felice Bauer, a copista, formam um volume marcado pela regularidade entre a inovação e uma influência tão forte que beira à cópia. Ou seja, estamos diante do esperado.

Logo aqui é bom que se fale das qualidades literárias de Bueno. Mesmo neste livro fica patente a segurança com que domina a narrativa e as palavras. Há jogos extremamente inteligentes e criativos. “Impossível buscar razões na desrazão do Absoluto”, escreve num determinado momento. Já o domínio narrativo, sobretudo nos contos mais curtos, o leva a prender o leitor, mesmo aquele que chega ao livro com certo ar de déjà vu. “Aqui não há mais que as pulseiras de prata da cartomante de Praga.” Esta frase é todo um conto chamado Um epitáfio e abre todo um mundo de especulações e reinvenções.

O problema está mesmo no universo eleito. Kafka é muito marcante e vivo para se sair ileso de uma releitura de seu mundo. Na contracapa do livro Boris Schnaiderman se mostra bem eufórico com a leitura: “Este novo livro de Wilson Bueno é um mergulho nos fantasmas do século XX e nos proporciona um texto envolvente, cuja leitura se tem pena de interromper. Saúdemo-lo como verdadeira criação do nosso século”. É melhor saudar a ousadia de Bueno.

Inquietante pergunta
É verdade que ele visita com determinação e ironia os fantasmas do século 20. A opressão, o irrecusável apelo da modernidade, o massacre sobre a humildade, o pecado da inferioridade, sujeição de povos inteiros. Também é verdade que demonstra talento e ousadia ao centrar todos estes dramas num ambiente europeu oprimido por duas guerras de proporções universais. Mas fica sempre uma inquietante pergunta: isso já não se encontra na obra original de Kafka?

A crítica fica não para o mergulho no universo kafkiano, outros autores já o fizeram, mas para na forma como ele agora foi realizado. Vejamos dois exemplos. Em seu livro de estréia, A secretária de Borges, Lúcia Bettencourt publicou um conto onde uma barata se transforma em homem. Nada mais kafkiano que isso. Só que a mudança de prisma, de ambiente e até de ritmo narrativo dá cores novos à história. E o que dizer de todos os conflitos familiares, sobretudo da opressão do pai sobre o filho, que atravessa a obra de Milton Hatoum? Também aí estamos diante de um dos temas eletivos do autor tcheco, mas onde não se pode falar de qualquer semelhança e mesmo de influência mais claras.

Wilson Bueno foi mais longe. Não apenas recorreu aos temas mais caros a Kafka como rebuscou seu ambiente e seu ritmo narrativos. Saiu-se bem na empreitada? De certa forma sim, pois seu livro prende o leitor e consegue vários pontos de real grandeza literária. A paixão oprimida de Kafka por sua copista é um desses momentos. A devoção do pai judeu pelo simbolismo impresso numa banal xícara de louça é outro. Pena que fica sempre a inquietante questão: será que já não li isso no próprio Kafka?

A copista de Kafka é apenas um livro razoável de um excelente escritor.

Print Friendly

WILSON BUENO

WILSON BUENO. Foto: Paola de Orte/Divulgação

É autor, entre outros, de Mar Paraguayo, Meu tio Roseno a cavalo, Manual de zoofilia, Amar-te a ti nem sei se com carícias, Cachorros do céu — finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2006. Está publicado no Chile, Cuba, México, Argentina e Estados Unidos. Em 2007, A copista de Kafka ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte na categoria contos.

Wilson Bueno_livro

Wilson Bueno
Planeta
197 págs.