Ensaios e Resenhas

junho 2011 / Ensaios e Resenhas / Otimista incorrigível

Texto publicado na edição #132

Otimista incorrigível

O ensaísmo vem roubando cada vez mais a cena em qualquer discussão que se proponha sobre os gêneros e a […]

> Por MARIA CÉLIA MARTIRANI

G. K. Chesterton

O ensaísmo vem roubando cada vez mais a cena em qualquer discussão que se proponha sobre os gêneros e a crítica literária em geral. Além do mais, o crescente e variado número de ficcionistas, que vêm fazendo de suas narrativas um primoroso espaço em que se privilegia o discurso ensaístico, em suas infinitas nuances e possibilidades, atesta para a importância do tema. Veja-se, nesse sentido, apenas para citar dois grandes autores da atualidade, J. M. Coetzee e Javier Marías.

O renomado crítico contemporâneo Alfonso Berardinelli esmera-se no assunto, especialmente nas obras La forma del saggio: definizione e attualità di un genere letterario e Não incentivem o romance (este último resenhado no Rascunho 109). Mais do que verificar as pegadas do ensaísmo, por exemplo, em autores como Proust, Kafka, Thomas Mann e Robert Musil, e até em poetas como Antonio Machado, Auden e Eliot, que ele classifica como “narradores ensaístas”, Berardinelli aponta também para uma questão crucial da crítica literária ensaística contemporânea.

De fato, teremos, sobretudo a partir da década de 60, o uso abusivo de termos cada vez mais científicos por parte dos que se dedicam a refletir sobre o literário e uma conseqüente perda do discurso “médio” coloquial. A tradição crítica anterior passa a ser considerada superada por não ser científica, mas impressionista, subjetiva e não sistemática. E, como conseqüência, a crítica — nas palavras do que assevera o estudioso italiano — “não é mais escritura, mas sim quebra-cabeça, colagem de termos técnicos”.

Dito isto, num contexto de análises sobre o literário, em que o discurso crítico ensaístico se distancia do leitor médio, num exagero cientificista, nada parece vir a calhar tão bem quanto ler, hoje, os ensaios de O tempero da vida, do padre Chesterton. O livro, dividido em cinco partes, trata dos mais variados assuntos, desde a literatura em geral até os escritores “especiais”; das crenças e reflexões religiosas e de profundos mergulhos filosóficos até as mais aparentes banalidades quotidianas.

Salto no escuro
Mas o que mais surpreende no estilo desse escritor inglês, que viveu no período entre guerras do século 20 e foi interlocutor de H. G. Wells, Maurice Baring, G. B. Shaw e Hilaire Belloc, entre outros, é exatamente sua concepção acerca do que vem a ser a essência do que chamamos ensaio.

De fato, logo às primeiras páginas, ele revela:

O ensaio é a única forma literária que confessa, no seu próprio nome, que o ato temerário conhecido como escrever é realmente um salto no escuro. (…) Um ensaio, por seu nome tanto quanto por sua natureza, é verdadeiramente uma tentativa e é verdadeiramente um experimento. Um homem não escreve verdadeiramente um ensaio. Ele verdadeiramente ensaia escrever um ensaio. Um resultado é que, conquanto haja muitos ensaios famosos, por sorte não há um modelo de ensaio. (…) Nesse aspecto, o ensaio é um produto tipicamente moderno, cheio de futuro e da glória da experimentação e da aventura. Ele permanece um tanto indefinível e reconheço que me assombra a leve suspeita de que o ensaio, com muita probabilidade, irá se tornar cada vez mais concludente e dogmático, devido tão somente às profundas e fatais divisões que os problemas éticos e econômicos podem impor sobre nós…

É justamente por ter plena consciência desse terreno movediço e indefinível, do que inclusive já está implícito na origem latina do próprio termo, “provar”, “experimentar”, “tentar”, antes que passasse ao francês essai, com a conotação literária que o vocábulo passou a assumir depois do século 16, que os ensaios de G. K. Chesterton, lidos em tempos hipermodernos como os nossos, podem recuperar, em boa medida, um tanto do frescor genuíno do que já foi considerado o melhor do gênero. Em outras palavras, a novidade não está no que ele afirma sobre o que já se sabe, desde os primórdios, ser uma característica inerente ao ensaio enquanto arriscada experimentação. O que fascina é que ele queira assumir — confessando com clareza — a vertigem dessa tentativa, com tudo o que ela comporta.

Montaigne e Kierkegaard
Assim agindo, ele nos remete aos pais do gênero, Montaigne e Kierkegaard, não apenas pela versatilidade com que aborda os mais variados assuntos, mas especialmente por recuperar, do segundo, a crença de que o risco faz parte inerente do processo de apreensão do mundo pelo ensaísta crítico.

Com efeito, Chesterton ecoa, em boa medida, os postulados kierkegaardianos de que como não há meio-termo, devido à impossibilidade do crítico de se ajustar a um único e impositivo sistema, não haveria, portanto, como estabelecer mediações e chegar a uma síntese (tal como proposta por Hegel). Desse modo, o ensaísta, por assumir uma postura singular, nesse salto no escuro, tocando de perto a crise irremediável entre indivíduo e sociedade, entrará num terreno de conflito e controvérsia, tornando-se um polemista.

Aversões particulares
Há, nesse sentido, inúmeros exemplos que associam a tradição da crítica à arte de polemizar. George Steiner inclusive afirma que não haveria porque nos escandalizarmos diante dos posicionamentos mais extremados de certos críticos e, em uma de suas pensatas, narra casos de famosas “aversões particulares”, como a de Lukács, que afirma detestar Nietzsche e, além do mais, ser insensível ao gênio de Dostoiévski. De modo análogo, T. S. Eliot, também teria conduzido uma longa polêmica com a poesia de Milton.

Não fugindo à regra e reforçando-a com seu próprio estilo, Chesterton, a propósito de Nietzsche, teria estranhado o fato de que, de tudo que já se dissera sobre a filosofia do grande pensador alemão, faltasse a assertiva de que ela é, essencialmente, “sentimental”:

Ela se rende totalmente a uma das mais antigas, mais generosas e mais desculpáveis fraquezas humanas, o desejo pelo grande homem. Se algum dos seguidores de Nietzsche deseja encontrar a mais completa e mais sincera aceitação das doutrinas de seu mestre, a mais incontida prostração perante a violência e o orgulho masculinos, irá sempre encontrá-la nas novelas.

Nietzsche sentimental? Claro que uma afirmação desse gênero — ainda que guardados os devidos argumentos do contexto em que foram escritos — para dizer o mínimo, causaria um certo estranhamento…

Inspiração irritada
Ainda mais irreverente é o diálogo que, de modo polêmico — como bem cabe ao genuíno ensaísmo — Chesterton estabelece com T. S. Eliot. O que acusa na postura do famoso poeta é seu pessimismo, sua “inspiração irritada”:

Eu sei muito bem que Mr. Eliot descreveu a desolação que observou mais que a desolação que sentiu. Mas penso que The Waste Land foi, pelo menos, um mundo no qual ele vagueou. E ao descrever o mundo recente, posso também descrevê-lo como ele o descreveu em Os homens ocos — embora ninguém o fosse descrever como um homem oco. (…) Agora, perdoem-me se digo, à moda de meu velho mundo, que estou danado se jamais senti dessa forma. Reconheço as grandes realidades que Mr. Eliot revelou; mas efetivamente não admito que esta seja a realidade mais profunda. Estou pronto para admitir que nossa geração valorizava demais o romance e o conforto, mas, até quando me senti desconfortável, fui mais confortável que isto…

Essa verve inflamada do humanista cristão, que combate o que denomina de geração afetada por uma “ânsia no sentido de uma irritação”, se baseia, no fundo, na tentativa de resgatar o “segredo de apreciar a vida”. Em síntese, embora perceba e anteveja as conseqüências funestas de um mundo que, cada vez mais informa tudo e faz, paradoxalmente, com que se perca o essencial, Chesterton, diversamente dos apocalípticos de todo gênero, parece alinhar-se aos otimistas incorrigíveis.

Exatamente por ter a consciência acurada da opressiva angústia de existir, busca enfatizar que esta decorre do fato de que estamos deixando de lado a vida em si, preocupados excessivamente com os temperos que, tantas vezes, usamos para deixá-la mais saborosa. Esquecemo-nos de que esses “condimentos” são apenas aparatos ilusórios, que o sistema capitalista do consumo desenfreado impõe como modelo de felicidade suprema:

Estou absolutamente convicto de que todo o nosso mundo terminará em agonia, a menos que haja alguma forma de fazer a própria mente, o pensamento comum que temos em horas comuns, mais saudável e mais feliz do que parecem ser agora, a julgar pelos romances e poemas mais modernos. Deve-se ser feliz naqueles momentos em que se recorda que se está vivo; não naqueles momentos ruidosos em que se esquece disso. A menos que possamos aprender novamente a apreciar a vida, não apreciaremos por muito tempo os temperos da vida. (…)

Estou certo de que não há futuro para o mundo moderno, a menos que ele possa compreender que não tem de simplesmente buscar o que é mais e mais excitante, porém, antes a tarefa ainda mais excitante de descobrir a excitação em coisas chamadas monótonas… O que temos de ensinar aos jovens do futuro é como se divertir. Até que possa se divertir consigo mesmo, ele se tornará cada vez mais farto de se divertir com todas as demais coisas. O que temos de ensiná-lo é a se alegrar.

Excitação pela existência
A atualidade desses ensaios é mais que evidente. A leveza e o frescor da linguagem convidam o leitor, em vez de afastá-lo. Os discursos do padre Chesterton, tocados pelo humor, que ele considerava ser a virtude humana correspondente à humildade, exerciam o papel contrário ao que exerce boa parte da crítica ensaística desses nossos tempos, excessivamente especializada. Inclusive, e talvez até por isso mesmo, como bem acusa Enzensberger, em ensaio homônimo, estejamos, de fato, vivendo uma espécie de “crepúsculo dos resenhistas”.

Mesmo que, às vezes, os rótulos ávidos por classificações queiram enquadrá-lo como antimodernista ou passadista, é fundamental perceber o que escapa aos apressados estereótipos. Como diria Hannah Arendt: “No mais antigo arsenal”, Chesterton encontra “armas melhores do que nas simplórias meias-verdades da modernidade”.

Nunca, como hoje, é necessário fazer vir à luz a argúcia de reflexões como estas. Em meio ao que ele, à sua época, denominava “Niágaras cósmicas”, ou seja, as cascatas de informações, ofertas e apelos, lançados sobre o ser humano, de modo reiterado e exaustivo, a ponto de fazê-lo perder-se de si mesmo e que continuam até hoje a nos assediar, talvez valesse a pena buscar o velho antídoto da calma alegria, que provém da mera excitação pela existência.

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G. K. CHESTERTON

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Nasceu em Londres, em 1874, e morreu em Beaconsfield, em 1936. Foi escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista. Nascido de família anglicana, converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima. A sua obra foi reunida em quase 40 volumes contendo os mais variados temas, sob os mais variados gêneros.

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G. K. Chesterton
Trad.: Luciana Viégas
Graphia
192 págs.