Ensaios e Resenhas

abril 2014 / Ensaios e Resenhas / Os sonhos de Daniil Kharms

Texto publicado na edição #168

Os sonhos de Daniil Kharms

Lançado no final de 2013, Os sonhos teus vão acabar contigo reúne uma seleção de textos — prosa e poesia […]

> Por DIRCE WALTRICK DO AMARANTE

Lançado no final de 2013, Os sonhos teus vão acabar contigo reúne uma seleção de textos — prosa e poesia para adultos e crianças, teatro e crítica — de Daniil Kharms (1905-1942), considerado um dos principais nomes da vanguarda russa dos anos 1930. Apesar disso, sua obra permaneceu engavetada por anos, em razão da censura stalinista, que, em 1937, o proibiu de publicar qualquer texto por inteiro. Sua obra só passou a ser conhecida na íntegra no final da década de 1980 na então União Soviética. Os poemas infantis foram praticamente os únicos textos do escritor publicados em vida.

Kharms participou da Associação dos Escritores para a Infância e escreveu textos que agradaram desde logo os pequenos leitores. Com o ápice do regime stalinista, as editoras passaram a não publicá-lo sob a alegação de que suas poesias alienavam as crianças. De fato, seus textos desorientam o leitor que aguarda um desfecho narrativo lógico. E, em tempos de se educar as crianças russas para o sistema vigente, não se devia de modo algum distraí-las com abstrações dessa natureza. O poema A raposa e o galo, contudo, se parece, diria, com uma fábula de Esopo ou de La Fontaine.

É difícil distinguir, em Kharms, a obra adulta da infantil, já que toda ela é impregnada de nonsense, gênero que nasceu dirigido às crianças, no século 19, na Inglaterra vitoriana com os escritores Edward Lear e Lewis Carroll.

Os “causos” de Kharms, embora direcionados aos leitores adultos, têm características muito semelhantes aos seus textos para crianças, assim como os de Lear e de Carroll. O Caderno azul nº 10, primeiro “causo” de Os sonhos teus vão acabar contigo, conta a história de um homem ruivo que não tinha olhos, orelhas nem mesmo cabelo, “de modo que”, conclui o escritor, “não está claro de quem estamos falando. Pois o melhor é não falar mais dele”. As primeiras marcas do absurdo de Kharms, lembra Aurora Bernardini, são “a mistura do essencial e do acidental, a predileção pela fala dos bobos, loucos, simplórios, bufões etc., com todos os ‘acidentes’ de retórica a ela inerentes.”

O escritor russo fez parte da OBERIU (Associação para uma Arte Real), que acolhia artistas que se diziam “criadores de uma nova língua poética, mas também construtores de uma nova percepção da vida de seus objetos”. Para esses artistas “a arte tem sua própria lógica e esta não destrói o objeto, mas ajuda a reconhecê-lo”. Em Sobre fenômenos e existências nº 1, lê-se a seguinte passagem, que talvez possa exemplificar a filosofia de Kharms: “Dizem que o famoso pintor [Miguel Ângelo] observou um galo com muita atenção. Olhou, olhou e chegou à conclusão de que o galo não existe”.

Certo é que Daniil Kharms era um modernista e fazia parte de uma “família muito interessante e variada”, mas com expressões individuais diferentes, unidas, porém, por um ponto em comum: o de acreditar, como afirma Peter Gay, que “muito superior ao conhecido é o desconhecido, melhor que o comum é o raro e que o experimental é mais atraente que o rotineiro”.

Kharms ainda é pouco conhecido no Brasil, Os sonhos teus vão acabar contigo é um convite para leitores adultos e crianças conhecerem a sua obra inusitada que narra, entre outras tantas histórias, uma viagem nonsense de dois russos por terras brasileiras.

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Daniil Kharms

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Seu nome verdadeiro era Daniil Ivánovitch Iuvatchóv. Nasceu em São Petesburgo, em 1905. Foi poeta, escritor e dramaturgo. Em 1928, ele e outros artistas da vanguarda de Leningrado, como Aleksándr Vvediénski, Konstantin Váguinov e Igor Bákhterev, criaram a OBERIU (Associação para uma Arte Real). Durou cerca de três anos e reuniu literatura, cinema, teatro e artes plásticas. Kharms teve um percurso como o de muitos artistas do período stalinista. Foi preso duas vezes, em 1931 e em 1941, morrendo logo depois numa cela psiquiátrica.

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Daniil Kharms
Trad.: Aurora Bernardini, Daniela Mountian e Moissei Mountian
Kalinka
296 págs.