Dom Casmurro

novembro 2016 / Dom Casmurro / Os sonetos hilariosos

Texto publicado na edição #199

Os sonetos hilariosos

8 Poemas de Phelipe Fernandes de Oliveira

> Por Phelipe Fernandes de Oliveira

Soneto terrorista

e não adianta nem tentar me abandonar,
meu coração está armado até os dentes
e se vier com seus pendões me sabotar
lhe cuspo à cara a pátria, o pão e o presidente

declaro guerra se fingirem me amar;
se não fingirem se prepara pra vir quente;
estou fervendo a ponto de me dilatar
do céu ao solo, do Oiapoque ao Oriente

porque meu corpo é templo pleno da Euforia
e de um exército ardente e furibundo
capaz do mais louquipotente atentado;

eu sou a Vida, eu sou a Massa, eu sou a Glória
Xadrez de Estrelas, Vácuo Orgânico do Mundo
pequeno bárbaro dançando no Tablado

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Soneto que arrasta

no coração está gravado um pensamento
que não para de pensar um ferimento
que não cansa de ferir um movimento
que não move nem sequer um sentimento

que só sente se houver descabimento
que descabe sem o teu consentimento
que consente sem o teu ponderamento
que pondera quando já não há mais tempo.

e se acaso desolado o eu escampo
rezando atualizo o zaratempo
que erra sobre o meu psicopompo.

no coração está gravado um pensatempo:
toda vez que eu salto fora do hipocampo
ele me arrasta feito água de garimpo.

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Soneto do amor tadela

mas há coisa no amor que não entendo
que mesmo em desalento o duro dano
e feito pelo amor amado ao extremo
jamais chegará o dano ao vácuo ermo

antes cobre o seio de esbelta escama
de pavão, e sôbolos os ombros arma
uma dose de todas as emendas
de faisão, remenda a seda sedenta

mas esse amor só persiste no limite
da noite, como um corvo que nunca
mais verá a luz do dia, vai em busca

de uma louca lua que aumente o
seu desejo, que o enleve, que o infinite,
ah! essa lua loira, essa cadela manca!

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Soneto sentimental-cocaína para Carina

ah Nininha, teu ácido matina
sonâmbulo arfar de cocaína,
melhor que coca — pura droga fina —
elã que o deus do mal me desatina.

sublime gosto, mas terrível sina,
cavalo implacável de acetina,
dissolve meu desejo em parafina
e em parafuso o que era opalina.

Dionisio, que uniu nossa jogada,
nos deu a natureza de insulina
pra não morrer na praia ou na piscina,

vivendo qual se a vida fosse nada,
bebendo o vinho como limonada,
vendo morrer o sol pela latrina.

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Soneto do dedão até a testa

mergulho em um horizonte infinito
onde a forma do Vazio não me encrespa.
onde Você, meu bem desprevenido,
me preenche do dedão até a testa.

espaldar é este meu corpo todo hirto
que o teu corpo dele usa uma cadeira.
teu encosto e teu assento favorito,
infinito como toda a Natureza.

e se assento ou cadeira não bastarem
religiosamente eu viro cruz
caderno branco, árvore, banheira

em que saltam osso e carne todos nus,
da natura saturando as maneiras
de cesuras, murmúrios e vertigens.

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Soneto contra os mimimis da caretice

Meu corpo, mal despontas, já reclama
um número de espasmos infinito;
tu és a minha Fonte, eu sou a chama
do teu Cigarro e o teu Meteorito.

Eros me tange acaso o teu pijama
(que apressa teu cofrinho tão bonito)
por terra se espalha, e pela cama
saltas, tigresa no ar, toda êxito.

Marte e Vênus nunca foram tão felizes
pois a tua dura carne e sem escudo,
e sem os mimimis da caretice,

assoma um montão de mil raízes
felizes por estarem na tolice
do Desejo, que é um nada mais que tudo.

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Soneto da sanha

Sanha, pega tua unha e me arranha,
me força no teu cabelo, me enforca,
mas não se acanha, a vida é tacanha,
não surfa nem sequer em pororoca.

Apanha os teus desejos, e se banha
em mim como na lama aquela porca,
pois que a vida é aranha que emaranha
quem muito se preocupa com sua oca.

Se te falta um cigarro ou pó-de-coca,
me bebe, me embriaga e me coloca
no teu maço como o aço funde a broca.

Passado? Não! Vivamos minha Sanha!
Há muito o que viver quem de ti ganha
milhões de insânias todas as manhãs.

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 Soneto cagado

este soneto feito chumbo quente
não cansa de esquentar o meu traseiro
pois eu que cago nele diariamente
não canso de cagá-lo o dia inteiro

e se passar um mês tão brevemente
tão pronto a evacuar eu vou ligeiro
e nunca contentar-me hei de contente
se o reto me travar todo o bosteiro

e não pode sobrar uma metade
que adentro o cu me corta o hemistíquio
ardendo as minhas tripas com vontade

pois que meu corpo é por obséquio
o templo da Santíssima Trindade
solvendo verso e merda até que seque-o

 

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