Palavra por palavra

julho 2019 / Palavra por palavra / Os políticos na luta verbal

Texto publicado na edição #231

Os políticos na luta verbal

Lima Barreto recorre, na maioria das vezes, ao risível, com a contundência de um retrato vivo

> Por RAIMUNDO CARRERO

A classe política, hoje tão contestada em vários níveis, foi também duramente criticada por Lima Barreto na sua luta verbal. Implacável, o narrador de Recordações do escrivão Isaías Caminha traça o perfil psicológico do parlamentar a quem fora recomendado desde os primeiros momentos quando chega ao Rio de Janeiro, reduzindo-o a duas palavras.

Se os senhores algum dia quiserem encontrar um representante da grande nação brasileira, não o procurem nunca na sua residência. Seja a hora que for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora do jantar, quando quiserem, enfim, se o procurarem, o criado há de dizer-lhes secamente: não está. Falo-lhes de experiência própria, porque, durante as inúmeras vezes, a hora do dia, em que fui ao Hotel Términus procurar o deputado Castro, apalpando a carta do coronel, tive o desprazer de ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas últimas vezes, antes mesmo de acabar a pergunta, já o homenzinho respondia invariavelmente da mesma desesperadora forma negativa.

Ao lado disso, o autor utiliza, como nas vezes anteriores, o recurso do perfil-físico psicológico para definir o personagem, sobretudo psicológico, examinando os gestos, os movimentos, a maneira de falar, para que o leitor veja-o no transcurso da história. Assim, Lima Barreto recorre, na maioria das vezes, ao risível, com a contundência de um retrato vivo.

Embora num estilo de relatório, jornalístico, a seu modo editorialístico, o narrador empresta às duas palavras um tom literário forte e virulento, que decide, verdadeiramente, o significado da sentença cheia de dor e de inquietação. É assim que a obra de Lima transcende o meramente discursivo, tornando-se literário e artístico. Com este estilo, Lima Barreto provocou a ira dos bem pensantes, sobretudo daqueles que se propunham a realizar na literatura o “sorriso da sociedade.”

É bem fácil de imaginar com que sorte de cogitações eu ia passando esses dias.

Mais adiante, insiste, com alguma esperança:

Ia assim risonho, cheio de mim, contente de viver, chegava ao hotel, falava ao porteiro e voltava amargurado sobre os meus passos felizes. De tarde, repetia a visita, e mais uma vez voltava desalentado, para ficar na janela do hotel desanimado, oprimido de saudades do sossego, da quietude, da segurança do meu lar originário. Era quando me encontrava com os outros hóspedes.

Não podemos esquecer, sobretudo, a impressão que causara em Caminha a Câmara dos Deputados onde relembra e quase vê as grandes figuras da política nacional. É um momento decisivo do admirável romance de Lima Barreto.

Entrando na Câmara, verifiquei que a grandiosa representação que eu fazia do legislador, não se me tinha diminuído com o exame da opaca figura do dr. Castro. Era uma exceção, mas certamente os outros deviam ser quase semi-deuses, mais que homens, pois eu queria-os com força e com faculdades capazes de atender e de pesar tão vários fatos, tão desencontradas considerações, tantas e tão sutis condições da existência de cada e de todos. Para tirar regras seguras para a vida total desse entrechoque de paixões, de desejos, de ideias e de vontades, o legislador tinha que ter a ciência da terra e a clarividência do céu e sentir bem nítido o alvo incerto para que marchamos, na bruma do futuro fugidio.

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