Passe de letra

janeiro 2013 / Passe de letra / Os personagens

Texto publicado na edição #101

Os personagens

Se você escrever para 221-B, Baker Street, em Londres, sabe quem vai receber sua carta? Sherlock Holmes. Você pode fazer […]

> Por FLÁVIO CARNEIRO

Se você escrever para 221-B, Baker Street, em Londres, sabe quem vai receber sua carta? Sherlock Holmes. Você pode fazer essa loucura, se quiser, mas fique sabendo: não terá sido o primeiro. Sherlock superou de tal maneira sua condição de personagem de ficção que muitos acreditaram que fosse mesmo real. Daí o museu Sherlock Holmes – que é uma reprodução da casa do detetive, com alguns de seus objetos (capa, lupa, cachimbo) espalhados aqui e ali, e que fica no mesmo endereço de Holmes citado nos contos e romances – ter registradas todas as cartas recebidas por Sherlock, enviadas de várias partes do mundo.

Nem todos sabem quem foi Conan Doyle, mas é difícil encontrar alguém que não conheça seu personagem mais famoso. Acontece algo parecido com Mary Shelley. Pergunte na rua quem foi Mary Shelley. Muitos provavelmente dirão: não sei. Depois pergunte se conhecem Frankenstein e compare o resultado.

A existência de Sherlock, Frankenstein, Drácula, Dom Quixote e Sancho Pança, dentre outros, apenas prova que personagens são tão importantes numa narrativa que às vezes voam para além da página impressa. Para se ter uma idéia, Conan Doyle, certa vez, quis matar seu Sherlock – e de fato matou, no conto O problema final – já cansado das peripécias do detetive e tentado a buscar outros caminhos literários (dentre eles o da ficção científica). Houve, no entanto, um verdadeiro boicote dos leitores a seus novos livros e Doyle acabou tendo que ressuscitar Holmes, que então reaparece em O cão dos Baskerville.

E se uma partida de futebol é uma narrativa – e de fato o é, uma narrativa que mistura várias linguagens -, é natural que, também aqui, o personagem seja figura importantíssima, tanto quanto o narrador (de que tratei na crônica passada) e o enredo (de que tratarei na seguinte). Uma partida de futebol pode sempre ser lida como uma história, por trás da qual se escondem outras, e atrás dessas outras ainda, num abismo que beira o infinito, e nesse redemoinho há incontáveis personagens dignos de nota.

Do épico ao cômico
Dentre os jogadores que se transformaram em grandes personagens, há vários tipos. Temos os heróis épicos, como Pelé, e também os líricos, como Garrincha. Há os trágicos, marcados pelo destino, como Barbosa, goleiro da seleção brasileira na derrota para o Uruguai, na final da Copa de 1950, e há os cômicos, como Dadá Maravilha. E cada um deles, para além da história que vemos contada em campo, tem histórias particulares, narradas em surdina até que alguém as estampe numa notícia de jornal, numa crônica, numa entrevista na televisão.

Aquela do Pelé, por exemplo. Contam que um jogo entre Vasco e Santos estava no finalzinho, com a vitória dos cariocas por 2 a 0, quando René, zagueiro do Vasco, se sentiu no direito de provocar Pelé, dizendo: “cadê o rei? O único que eu conheço é o rei Momo”. O outro zagueiro vascaíno, Moisés, prevendo o resultado da brincadeira, manda René calar a boca. Pelé, então, recebe a bola, dribla vários adversários e faz: 2 a 1. René continua provocando, e Moisés preocupado. Faltando três minutos para o apito final, Pelé faz mais dois golaços. Vitória do Santos. Ao final do jogo, Pelé pega a bola, leva a distinta até Moisés e lhe diz: “entrega para a mãe do René e diz que foi um presente do rei”.

Já Garrincha exercia outro tipo de majestade, mais poética, digamos. Era o “anjo de pernas tortas”, como escreveu Vinicius de Morais. Garrincha jogava cada partida – de torneio regional ou de Copa do Mundo – como se estivesse jogando uma pelada de rua.

João Saldanha conta que o Botafogo jogava a final de um torneio na América Central quando Garrincha aprontou das suas. Era um jogo difícil e o time correndo atrás do título, que valia um polpudo prêmio em dinheiro. Eis que o Mané pega a bola, dribla meio time e fica na cara do goleiro. Pára, ameaça chutar e não chuta. O time inteiro, mais todos que estavam no banco, gritam para ele chutar. Nada, ele ali, gingando na frente do goleiro. Até que, finalmente, chuta e faz o gol. Terminada a partida, vem a bronca de Saldanha (na época o técnico do time), querendo saber por que ele não chutara de uma vez. E a resposta de Garrincha: o goleiro deles não queria abrir as pernas, fiquei esperando.

Quem conhecia bem o Garrincha era outro personagem de peso: Nilton Santos, um dos grandes nomes do time brasileiro campeão mundial de 1958 e chamado de “a enciclopédia do futebol.” Nilton conta que certa vez foi à cidade natal de Garrincha, Pau Grande (no interior do estado do Rio), para batizar a filha do amigo. “Fui apresentado aos vizinhos todos com um orgulho comovente da parte do Garrincha. Era como se só eu, ali, fosse um jogador famoso”, revelou Nilton Santos.

Numa época em que defensor defendia e atacante atacava, Nilton revolucionou: lateral-esquerdo, gostava de atacar, para desespero de Feola, técnico do Brasil em 1958. No jogo contra a Áustria, os brasileiros ganhavam de 1 a 0 quando, no início do segundo tempo, Nilton recebe a bola na defesa e se lança ao campo adversário. “Volta”, grita Feola. Ele continua avançando. “Volta, Nilton!”, se desespera o técnico. E o lateral nem aí, já ultrapassando a intermediária austríaca. Rouco, Feola faz uma última tentativa: “Volta, Nilton!!!”. O craque apruma o corpo e, num belo chute da entrada da área, marca o segundo gol do Brasil. “Boa, Nilton!”, tenta gritar, afônico, o técnico Feola.

Dizem que Nilton Santos marcava o ponta adversário com a ajuda do sol. É ele mesmo quem diz: “Nos dias em que o tempo ficava nublado, os companheiros me perguntavam como eu ia me virar.” Convenhamos: é ou não é um grande personagem?

O gandula
Mas nem só de heróis (e vilões) vivem as narrativas do futebol. Personagens tidos como secundários muitas vezes assumem papel principal quando menos se espera. Veja por exemplo os gandulas. A função de gandula surgiu com a construção do Maracanã. As bolas caíam no fosso e era necessário que alguém as pegasse de volta. Nessa época, o Vasco trouxera da Argentina um atacante que passava a maior parte do jogo à margem do campo, completamente alheio à partida, como se estivesse apenas vendo o jogo, do lado de fora. Seu nome: Gandula. Vem daí o termo. Pois os anônimos gandulas também têm, vez ou outra, seus dias de protagonista.

Foi o caso daquele gandula que virou notícia depois de um jogo em Santa Cruz de Rio Pardo, interior de São Paulo, entre Santacruzense e Atlético de Sorocaba. Aos 44 do segundo tempo, um jogador do time da casa, que perdia por 1 a 0, arrisca um chute de fora da área. A bola sai rente à trave e se aninha na rede, pelo lado de fora. A árbitra do jogo vira de costas (nem se deu ao trabalho de apitar o óbvio tiro-de-meta) mas de repente ouve a reclamação dos jogadores do Santacruzense e olha para o bandeira, que corre para o meio-de-campo. Ela então se volta, vê a bola no fundo da rede e dá o gol, para desespero dos jogadores do Atlético.

Só não sabia, a nobre e ingênua juíza, que, aproveitando-se do momento em que ela estava de costas, o gandula simplesmente apanhou a bola, entrou sorrateiramente em campo, jogou a bola no fundo das redes e voltou para o seu lugar, como se não fosse com ele. Com o empate, o time de Rio Pardo assumiu a liderança do campeonato e o gandula ganhou as telas de televisão e as páginas de jornal, em seus quinze minutos de glória.

À margem do campo durante a partida, técnicos de futebol também podem ser eternos personagens. Veja, por exemplo, o lendário Neném Prancha. Tão lendário que Armando Nogueira decidiu começar uma de suas crônicas afirmando logo: “Neném Prancha existiu. Quem quiser que duvide. Digo-o e dou meu testemunho, com firma reconhecida em todos os cartórios do futebol. Dormia embaixo da arquibancada do campo do Botafogo”.

Filósofo do futebol
Admirado e sempre citado em suas crônicas por João Saldanha, Neném Prancha foi roupeiro e depois técnico do Botafogo, na década de 1950, mas acabou fazendo história como um pensador, um filósofo do futebol, como é conhecido até hoje. Armando Nogueira conta que o Prancha (o apelido vinha do tamanho das mãos, enormes, que lembravam pranchas de surfe), certa tarde, apontou para as laterais do campo, dizendo: “olhe, uma coisa está acontecendo com o futebol: a lateral do campo está sempre gramadinha e o meio está careca. Acho que os times estão jogando cada vez menos pelos lados. Um dia, os técnicos vão acabar com os pontas”.

Profético, Neném Prancha foi não apenas um pensador, como dizia Armando Nogueira, mas um grande frasista. Há frases que todo boleiro repete sem saber que são de sua autoria. Por exemplo: “Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma”. Ou outra: “O pênalti é tão importante que devia ser cobrado pelo presidente do clube”. E tem ainda uma outra, menos conhecida, em que Neném Prancha define, em poucas palavras, o estilo inconfundível de Didi: “Jogador é o Didi, que joga como quem chupa laranja”.

E quanto aos árbitros? A função em campo não condiz com estados emocionais afetados, é preciso ser frio como um iceberg. Pode ser verdade, mas esqueceram de dizer isso ao Margarida, apelido do juiz Jorge Emiliano, que fez furor nos anos 90 com seu modo nada ortodoxo de apitar um jogo. Margarida muitas vezes roubava a cena. Na hora de dar um cartão, quase se dobrava ao meio (o corpo ficava parecendo um arco). Quando apitava, era para chamar a atenção até de quem estava fora do estádio, com o som longo e estridente do apito. E quando precisava sair da jogada sem perder de vista a bola? Simplesmente corria longas distâncias de costas, aos saltos, como se estivesse não num campo de futebol mas num palco, dançando balé. A torcida delirava. Figurinha fácil dos episódios do Canal 100, Margarida foi, sem dúvida, um personagem e tanto.

Para ser justo, precisaria falar ainda de muitos outros. Além de jogadores não citados (e são uma multidão de se perder a conta), de outros gandulas, técnicos e árbitros, precisaria falar também dos massagistas (vide o memorável Mário Américo, massagista da seleção brasileira em nada mais nada menos do que seis Copas seguidas, começando em 1954!), dos roupeiros, dos motoristas do ônibus do time, dos porteiros do estádio e de todos aquele que, de uma forma ou de outra, vão compondo a inesgotável antologia das narrativas de futebol.

Mas o tempo urge e, bem ou mal, o recado foi dado, eu acho. Como diz a sabedoria popular: quem quiser que conte outra. Ou, como diria o lendário (porém real) roupeiro, técnico e filósofo Neném Prancha: “O importante é o principal, o resto é secundário”.

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