Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Os pecados de Wilson Martins

Texto publicado na edição #119

Os pecados de Wilson Martins

Por uma dessas casualidades com que a vida nos golpeia, às vezes mal tenhamos acabado de morrer, Wilson Martins faleceu […]

> Por RODRIGO GURGEL

Por uma dessas casualidades com que a vida nos golpeia, às vezes mal tenhamos acabado de morrer, Wilson Martins faleceu em 30 de janeiro deste ano, quando os jornais, as rádios, a tevê, a web e grande parte dos intelectuais que detêm postos-chave na mídia ainda derramavam lágrimas de sangue pela morte de J. D. Salinger. De certa forma, foi uma casualidade positiva: graças ao intervalo de três dias (o escritor norte-americano faleceu a 27 de janeiro), o crítico literário, historiador e professor emérito da Universidade de Nova York ganhou, aqui e ali, dez ou quinze linhas de atenção. Mas a sorte durou pouco. Logo no dia 31, para consternação geral, outro ícone falecia — e quando alguns poucos leitores esperavam por artigos mais aprofundados sobre a obra do nosso intelectual, o noticiário foi tomado por perfis, críticas, rememorações, encômios, listas de obras publicadas e fotos do argentino Tomás Eloy Martínez. Entretanto, devemos ser otimistas e, assumindo o comportamento apropriado ao populismo que impera no país, fazer o jogo do contente: se Wilson Martins tivesse falecido um dia depois de Salinger ou na mesma data que Martínez, sequer receberia o favor de um breve necrológio.

Não discuto o valor da obra dos estrangeiros falecidos — e muito menos a dor de suas viúvas brasileiras —, mas se o leitor me pergunta sobre o porquê desse tratamento diferenciado, quiçá injusto, minha resposta talvez não agrade, mas é a única que tenho: ainda somos um país primitivo, uma colônia que se encanta facilmente com o ouropel das cortes estrangeiras. No que se refere à teoria literária, por exemplo, o estruturalismo é questionado na Europa desde a década de 1980 — e alguns de seus seguidores já lhe deram as costas, como Todorov —, mas aqui ele ainda é objeto de culto nas universidades, onde há quem leia Derrida e outros de joelhos, acreditando que certa terminologia folclórica pode dar conta de analisar não só a literatura, mas toda a realidade. Não importa se os estruturalistas e seus continuadores criaram apenas — no irônico dizer de Thomas Pavel — um “verniz onírico” ou, lembrando o ácido comentário de José Guilherme Merquior, uma “teorréia, ou seja, teorização inconseqüente sem qualquer referente estável”. Importa, sim, o prazer doentio de se submeter ao que vem de fora, aceitando, sem críticas, qualquer teoria fantasiosa.

Em segundo lugar, há outro motivo para o descaso em relação a Wilson Martins: ele — pasmem! — não era de esquerda, não rezava pelo catecismo marxista, não acreditava na irrefreável, fatal e invencível revolução que, no galope leninista ou no trote gramsciano, um dia levará o proletariado ao poder e à completa destruição do capitalismo. E não ser de esquerda neste país, ainda mais nos dias que correm, é pactuar com monstruosidades. Hoje, são os liberais que comem criancinhas. Não interessa se Wilson Martins era um irredutível democrata, avesso a qualquer tipo de coerção por parte do Estado — um liberal clássico. O que vale, para parcela da intelectualidade, é a carteirinha com a estrela vermelha, ou com a foice e o martelo. Não segue o rebanho? Tem idéias próprias? Fora!

Wilson Martins cometeu ainda um terceiro pecado: apesar de não ser de esquerda e não se vergar diante de modismos estrangeiros, venceu. Além da brilhante e respeitável carreira em uma das melhores universidades do mundo, elaborou, com altivez e independência, uma obra que será lida, relida e analisada, nos próximos séculos, por todos os que pretenderem, de forma isenta, honesta e rigorosa, estudar ou conhecer não só a literatura brasileira, mas parte fundamental da nossa cultura. E uma carreira vitoriosa — sem pensar ou agir como a maioria — é algo execrável. Como alguém pode ganhar respeitabilidade sem seguir a manada? A esses, aos que ousam construir seu próprio caminho, as igrejinhas nacionais premiam com sua arma mais vil: a blindagem de mudo desprezo. É a tentativa de garrotear aquele que cometeu o pior dos crimes: não ser apenas mais um em meio à turba.

“Santa rabugice”
Nosso crítico literário, no entanto, era um homem singular. Não satisfeito com esses pecados, verdadeiramente assombrosos, ainda cometeu mais um, talvez o pior de todos, o mais terrível: foi daqueles críticos, hoje raros, que não trocam favores, que não dão tapinhas nas costas, que não adoçam as palavras para conseguir novas amizades ou manter a qualquer custo as antigas. Enfim, Wilson Martins tinha uma “santa rabugice”, na feliz expressão do poeta, tradutor e ensaísta Ivan Junqueira. Rabugice à qual ele acrescentou, ainda segundo Junqueira, “privilegiada formação literária e humanística”, “sutileza e inteligência”, “elegância de linguagem”, “fundo conhecimento teórico” e “certo humor, o que lhe confere (…) um encanto ainda maior”.

As conseqüências de todos esses pecados só poderiam ser danosas. No país do compadrio, da mancomunação, do puxa-saquismo, o comportamento sobranceiro e reservado de Wilson Martins, avesso às panelinhas, não apenas o isolou, mas, somado à sua severidade no julgar e à sua ironia, granjeou-lhe inimigos em toda parte. Eu diria, aliás, que a fila dos ressentidos é quilométrica e disputa, palmo a palmo, cada fatia de calçada com as viúvas de Salinger. E tudo por um simples motivo: nosso crítico não era paternal, não silenciava diante de erros e omissões, não se fazia de cego ou surdo quando discordava dos supostos mandarins da literatura brasileira. Mas o que os criticados entendiam como ataque pessoal era apenas a concretização de um imperativo caro a Martins: “O clima da crítica é a polêmica”, ele dizia, “mas não a polêmica de ataques e destruição dos adversários, mas o debate de idéias, a discussão e o confronto das idéias. Este sentido positivo da polêmica faz parte da crítica. O crítico nunca se coloca passivamente diante de um livro. Já no ponto de partida ele está encarando aquele livro polemicamente. Não contra o livro, mas ele está penetrando naquele mundo com esta idéia de verificar até que ponto aquela obra responde ao que ela queria ser”.

Que culpa Wilson Martins poderia ter se alguns dos livros que criticou foram escritos por pessoas infantis, que só aceitam o gesto paternal de quem lhes acaricia o cocuruto e diz, com suavidade, “Olha, você, no fundo, é genial, mas podia dar uma melhoradinha aqui nestes trechos…”? Que culpa ele poderia ter se alguns intelectuais são imaturos, despreparados para conviver com a discordância, com o pluralismo de idéias e, principalmente, para saborear o uso da ironia, finíssimo em seus textos, mas que alguns preferiam entender como sarcasmo?

Diante de tal personalidade, que se empenhou, durante décadas, na ingrata tarefa de “higiene crítica”, para usar a expressão de José Guilherme Merquior, e na elaboração de uma obra cujo valor raríssimas vezes foi alcançado neste país, que somava à erudição uma metodologia avessa ao pedantismo e à “arrogância epistêmica” que grassam entre nós, e que, contrariando todos os seus detratores, agia como um gentleman, destilando cavalheirismo, amizade e atenção, o que restou a alguns cardeais da nossa cultura, senão o rancor? O rancor… Ora, o rancor é apenas, segundo a sábia lição de Ortega y Gasset, em seu Meditaciones del Quijote,

uma emanação da consciência de inferioridade. É a supressão imaginária de quem não podemos, com nossas próprias forças, suprimir realmente. Aquele por quem sentimos rancor leva, em nossa fantasia, o aspecto lívido de um cadáver; com o desejo, nós o matamos, o aniquilamos. E depois, ao encontrá-lo firme e tranqüilo na realidade, parece-nos um morto indócil, mais forte que nossos poderes, cuja existência significa a zombaria personificada, o desdém vivo frente à nossa débil condição.

Asceta e humanista
E já que citamos o filósofo espanhol, lembremos que Wilson Martins cumpriu o ideal orteguiano de crítico, compreendendo aqueles a quem criticava, agindo com a tolerância que é “própria de toda alma robusta”, introduzindo “em seu trabalho todas aquelas ferramentas sentimentais e ideológicas por meio das quais o leitor médio pode receber a impressão mais intensa e clara da obra que seja possível”, pois “a obra se completa completando sua leitura”.

Na contramão do que ocorre hoje no Brasil, a concepção crítica de Wilson Martins estava vinculada a um profundo respeito pelos que o antecederam, diante dos quais ele se colocava com humildade, afirmando que

a crítica que fazemos hoje, como a ciência que hoje realizamos, não são necessariamente melhores que as do nossos antepassados: e se de fato temos motivos para julgá-las melhores, a explicação deve ser outra que a idéia, supremamente discutível, de que nos encontramos num pináculo. (…) Não é com ilusões desse porte que se pode estabelecer nem uma sólida ciência nem uma crítica sólida.

Assim, buscando conciliar experiências passadas, atualidade e rigor, nosso crítico refutou a “estranha pretensão” — tão difundida atualmente, e não só na academia — de que Ortega y Gasset nos fala em A rebelião das massas: “a de ser mais que qualquer outro tempo passado; mais ainda: por se desligar de todo o passado, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas”.

Encarando a vida da literatura não como “uma sucessão, mas uma coexistência”, ele percebeu na história literária um “todo orgânico, no qual os escritores não se sucedem como os soldados de um desfile, mas se intercruzam como os filamentos de um tecido”. E estabeleceu sua crítica segundo a regra que considerava ideal, basicamente, de que ela jamais poderia se “confinar nos princípios e métodos de uma determinada família espiritual, mas exigiria, ao contrário, a contribuição simultânea de todas elas”. Rejeitou, assim, o “monismo de julgamento” e defendeu, visceralmente, que “não há, em crítica literária, pontos de vista ‘errados’: há, mais simplesmente, pontos de vista diferentes”, salientando, de acordo com o seu espírito liberal e democrático, que “‘tomar todas as afirmações sem excluir nenhuma’, como queria Renan, não significa aceitá-las: significa aceitá-las para discussão”.

Desapegado em relação aos seus próprios méritos acadêmicos, indiscutíveis, Wilson Martins defendeu a crítica não-acadêmica, pois, segundo ele, esta “tem o espírito muito mais aberto para a aventura intelectual, para a novidade, para a discussão de idéias”. Defendia, aliás, um ponto de vista iconoclástico em relação ao “furor teórico” de que somos vítimas: para ele, certos críticos desejam, no fundo, ajustar os livros analisados à teoria, o que é impossível; e não deixou de salientar a subversão por que passa o próprio processo criativo, apontando o comportamento pernicioso de alguns escritores: “ficcionistas e poetas passaram a escrever para os críticos, para agradá-los e confirmar-lhes as respectivas teorias”.

Wilson Martins, com certeza, alcançou o ideal não apenas de crítico orteguiano, mas também de homem: aquele que, verdadeiramente nobre, não se contenta em ser apenas “reativo”, mas busca impregnar seu tempo com uma marca indelével — e para tanto vive em tensão permanente, num treinamento constante, ou, como nos lembra Ortega y Gasset, em perfeita ascese.

Humanista, homem da Renascença deslocado entre dois séculos perturbadores, nos quais os filisteus impuseram a mediocridade como regra de vida, Wilson Martins cumpriu o que se propôs: “não há espírito crítico que não comece por criticar a si mesmo, que não duvide logicamente das suas certezas e das suas verdades, que não esteja disposto, se não a dar razão ao adversário (…), pelo menos ‘repensar-se’ continuamente e recusar-se ao conforto intelectual”. Graças a esse contínuo exercício, a essa austeridade e disciplina realmente ascéticas, ele exerceu a crítica com alto discernimento, formou gerações de leitores, recuperou a história da inteligência em nosso país e nos livrou dos piores males: a mesmice e a unanimidade. A esse insigne mestre, nestes dias de luto, minha profunda reverência.

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WILSON MARTINS

Wilson Martins _Pedro Serapio_GP_119

Nasceu em São Paulo (SP), no dia 21 de março de 1921. Bacharelou-se em Direito pela Universidade Federal do Paraná, em 1943, e, pela mesma universidade, em 1952, concluiu o doutorado em Letras após uma especialização na França. Atuou como professor de literatura francesa na UFPR (1952-1962), professor visitante da Universidade do Kansas (1962), professor associado na Universidade de Wisconsin-Madison (1963-1964) e professor de literatura brasileira na Universidade de Nova York (1965-1991). Como crítico literário, foi autor de várias obras relevantes — como História da inteligência brasileira (sete volumes), A crítica literária no Brasil (dois volumes), O modernismo e Um Brasil diferente, entre outras — e colaborador de veículos como Gazeta do Povo, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Morreu em Curitiba (PR), aos 88 anos, no dia 30 de janeiro de 2010, deixando a esposa, Anna Schmidt Martins, que veio a falecer logo em seguida, no dia 18 de fevereiro.

No país do compadrio, da mancomunação, do puxa-saquismo, o comportamento sobranceiro e reservado de Wilson Martins, avesso às panelinhas, não apenas o isolou, mas, somado à sua severidade no julgar e à sua ironia, granjeou-lhe inimigos em toda parte.