Dom Casmurro

abril 2017 / Dom Casmurro / Os novos tempos são agora

Texto publicado na edição #204

Os novos tempos são agora

O escritor performático e a eterna vontade de ser amado

> Por Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira

Ilustração: FP Rodrigues

Ilustração: FP Rodrigues

quando os ares fedem autoritarismo,
não adianta fechar as janelas,
é preciso escancará-las ainda mais, meu filho…
anônimo

(Futuro distante. Agosto de 2019, por exemplo.)

Personagens 

(Zanzando por aí, sem sair do lugar.)

CENA 3
(Mesa literária 91)
— Boa noite a todos. Agradeço o convite dos veículos de comunicação que patrocinam este evento, bem como o esforço da curadoria para que eu estivesse aqui, hoje, uma vez que participava, agora pela manhã, no município de Serra da Saudade, em Minas Gerais, da Feira Literária daquela cidade que, neste mês, comemora sua terceira edição bimestral.

(O escritor performático executa dois passos de uma dança acrobática que, há dias, delicia os amantes da boa literatura; ou da literatura, apenas, visto que o adjetivo perdeu a razão de ser e de estar ao lado dessa Arte que atingira, enfim, seu apogeu — segundo os teóricos do momento.)

— Ouvi certa vez que, no passado, um escritor gráfico dissera uma frase — ou a escrevera, para não trair este novo e definitivo estágio de nossa evolução artística —, que se vivia, àquela época, um “devagar depressa dos tempos”. As palavras bem podem não ter sido escritas assim, ou mesmo nunca o foram. Não se sabe ao certo o rumo que toda a literatura gráfica tomou depois do advento classificado pelos críticos literários como “O Grande Salto”.

(Alguns espectadores riem, arreganhando a bocarra com premeditado exagero. Talvez pela menção à palavra “salto”, provável referência à principal característica do estilo daquele famoso romancista. Os novos leitores, chamados agora de “leitores gestuais”, costumam temer possível pecha letrada e preconceituosa que os remeta a ironias há tanto extintas. Por isso desatam a rir de qualquer piscadela que considerem fora da ordem natural dos instintos. Essa atitude faz da nova literatura, portanto, um extenuante exercício metafísico para se atingir, nos traços e entrelinhas da carantonha, aquilo que os filósofos chamam de “Gargalhada Plena”, disposição pela qual os leitores gestuais demonstram que o escritor performático goza da justa fama de “Clássico do Dia”. Em verdade, neste caso, o escriba nada fizera para tanto; mas rachar o bico de rir é fato banal nesse tipo de evento, principalmente em relação àqueles autores que aparecem nas primeiras posições da “Lista Movimentada”, rol sucedâneo daquele outro, vetusto, então conhecido como “Parada de Sucessos” — expressão desprovida de qualquer sentido nestes novos tempos.)

— Desde que a literatura abandou de vez o papel, afastando-se de ásperas atividades fisiológicas que dele ainda necessitam, a escrita pôde finalmente atingir o cume das Artes, ocupando na sociedade seu verdadeiro…

(O escritor estica moduladamente as reticências, provocando risos.)

— …papel.

(Mais risos.)

— Em outras palavras, a literatura passou a ser o homem, sem quaisquer dependências celulósicas. Olhem pra mim. Isso, isso. Luzes, por favor, foco, foco aqui, ó! Aqui em mim, por favor!… Cut-in close-up!

(Faz uma conhecida careta, inventada há três dias, com mais de sessenta e nove milhões de acessos no YouTube, até as 17h38. Carranca simples, porém estilosa. Abre uma das narinas e levanta a sobrancelha oposta. Enfia a primeira falange do indicador na venta menor. Assopra. O ranho estala esverdeado no chão. Depois saltita em derredor de si, mostrando o umbigo. A etiqueta da camisa de grife aparece, tremelicando a logomarca sobre as calças, enquanto finaliza o rodopio. Ganhou um importante Prêmio Literário com a obra. A plateia vem abaixo. Depois de cinco ou seis minutos de pateada, o grande escritor performático continua sua apresentação.)

— Viram? Eu sou a minha literatura, verbo encarnado em plenitude — luz, voz e secreções. É desse modo que um romancista se faz demiurgo, de cabo a rabo, verdadeiro designer de descaradas cataduras, criador do céu, da terra e de si! Sim, meus amigos, compradores de mim…

(Mínima pausa.)

— Si, sim, mim… Gostaram da sonoridade, da rima, sempiterno eco de Deus? Isso, arte é isso! Si, sim, mim: papel e cume… Eco de cabo a rabo, tão ligados? hein?

(Risos forçados. Inferências mediatas foram classificadas como artifício de mau gosto, no Aceno Manual de Literatura Performática, compêndio em 3D da novíssima escola. O romancista percebe o mal-estar causado pela digressão, hábito estúpido de uma era morta. Tenta se safar, em vão, sugerindo uma escorregadela intencional, desgastado truque estilístico de autores subgestuais do Pré-Performático, o que causa má impressão em boa parte da plateia.)

— Bem, bem, bem, aquele “devagar depressa dos tempos” — de um hipotético escritor gráfico, cumpre lembrar —, seria bíblico, meio paradisíaco, meio terreno, mas, forçoso dizê-lo, também deveras ultrapassado, pois que o gênero humano expulso a pontapés da própria festa!

(Ninguém ri.)

— Há os que identificam erroneamente as raízes do nosso Movimento num tal environment-assemblage… Besteira sem tamanho! Burrice! O chão da Nova História, cimentado num grosso e impenetrável concreto, instaura o rodopio de um presente continuamente reposto em esgares e verbos artísticos despregados de qualquer fundação, que dirá desse conceito furado de raízes!

(Silêncio.)

(O escritor dá em seguida um berro terrível, urro sublinhado por uma microfonia proposital, conseguida ao aproximar-se de uma grande caixa de som, ali colocada justamente para esse fim. O estratagema é entendido como licença poética, exercida quando o autor percebe que palestra e obra começam a descambar para um incontornável torpor. Pois é. Intelectuais catastróficos apontaram anteontem, em manifesto publicado junto a uma corrente de oração, pela Internet, que o “Movimento Performático Literário em Moto-contínuo” estaria com seus dias contados. Talvez não chegasse ao domingo.)

Iiiaaaaaaauuuuuuuuóóóóóóóóóóóiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmm…

(A plateia entediada sempre se assusta e acorda, flagrada no ato de uma incompreensão inadmissível. O técnico da mesa de luz faz incidir sobre o palco, imediatamente, um forte clarão amarelo, em consonância com o sorriso frouxo de todos. Funciona. O escritor pode, então, reconquistar a atenção de seus leitores gestuais com uma bela pirueta. Um dos clichês mais repetidos entre seus pares, ele sabe disso, mas os grandes artistas são aqueles que de algum modo conseguem subvertê-los. É o caso. Ele termina o movimento com as nádegas viradas para o público.)

Eu sei fazer o Grande Ó!

(Risos espontâneos. Pronto. Agora pode continuar.)

— Deus, va-ga-ro-sa-men-te depressa, criou o Cosmos durante uma semana inteira. Bateu ponto, coitado. Mas fez o que pôde, babando e soprando os verbos. Foi sem saber o primeiro artista performático! Ao desistir de toda criação, em seguida, apontou um rumo que demorou a vingar…

(Um professor universitário do Curso de Gestos, da USP, levanta a mão, mas ninguém dá bola. Num catártico arranco, provavelmente provocado pela apresentação, berra o mais alto que pode, pedindo a palavra. Agora sim, um rapaz leva até ele o microfone. Está rouco, pede desculpas, e pergunta a respeito daquele paradoxal conceito pós-pós-pós-moderno de “lenta pressa”, ou “pressa lenta”, tanto faz, cunhado na clássica e inconfundível vozobra do romancista, neologismo caro ao Movimento Literário do qual o escritor performático participa, como um de seus fundadores — ou “agitadores literais”, como prudentemente se autodenominam desde a semana passada, quando um dos expoentes do grupo foi colocado à força numa ambulância, depois de iniciar a apresentação de seu novo livro.)

— Depressa porque com papas na língua; mas vagaroso porque com papas na língua. Entendeu? A obra literária é um câncer que se completa no silêncio da morte de quem o carregava…

(Ninguém entende, não obstante todos abanarem um “sim” pendulado com a cabeça. Inclusive o professor. A época atual não permite ambiguidades corpóreas…)

— A literatura performática se alimenta de perdigotos, como não me deixarão mentir os fãs aqui da primeira fila. A antiguidade, quando definia que o Estilo era o Homem, vaticinava sem querer um novo tempo, a saber, este. A saber melhor, eu. Eu. E eu!

(Mergulha de peito no chão. Gargalhadas. Palmas efusivas. Uma jovem tenta invadir o palco. É contida pelos seguranças. Outra, no lado oposto, aproveitando-se da confusão, pula no tablado, agarra o pescoço do romancista e faz uma selfie. Em poucos segundos, a imagem aparece num telão, ao fundo. Flashs estouram pipocas entre os presentes. Selfies de selfies costumam render elogios. Alguns jovens começam a chorar. Um escritor performático iniciante, amador, arranca as roupas e passa correndo na frente do palco, de costas, enquanto faz movimentos de polichinelo. Salta no fosso da orquestra e desaparece. Ouve-se um gemido surdo. Ele comprova, com aquela inusitada obra poética, que o livro performático não é mesmo pra qualquer um. É socorrido com o pé esquerdo quebrado, assim como quebrado fora o verso cabeludo que exibira aos presentes sem nenhum pundonor.)

— Agora o meu novo romance…

(Suspense na plateia. O escritor retira dos bolsos alguns fios. Amarra-os nas extremidades do corpo, inclusive em volta do pescoço. Segura, sobre a própria cabeça, a cruzeta que controla a cordoalha.)

— Eu sei mexer os pauzinhos de mim!

(Coloca uma das mãos no meio das pernas. Risos.)

— Aqui, ó! Com esta obra, agora, não pagarei um níquel de jabá pra jornalistas argentários, escritores de meia-tigela de moedas estrangeiras, homúnculos cheirando a zinabre, com os dedos esverdeados de inveja! Fora, elite das Letras Garranchosas, obsolescência tatibitate dos Gestos! Rua! Rafameia cultural de falsas etiquetas e etiquetas falsificadas! Fora! Não darei mais um tostão em comissões… Não precisarei de agentes, editores, leis de incentivo, o caralho a quatro, a cinco, a dez por cento! Serei dono dos meus direitos! Chega! Uma hora tinha de acabar! Agora sou meu dono, finalmente!

(Com a mão direita sobre o bestunto, controlando os fios que sustentam seus movimentos, cabriola pra lá e pra cá. Exagera, empurrado pela empolgação. Tropeça de verdade. O público para de rir, como se alguém invisível desligasse de repente o comutador de seu novo romance. O escritor percebe o clima tenso e se assusta. Tudo bem, quase caíra realmente, pensa, mas aquele seria seu melhor movimento, puxa vida! Puxa vida mesmo, por ele, nele, para ele! As mãos começam a tremer. Uma corda se estica mais do que deveria. O pescoço dói. Engole o ar, a boca seca, sem saliva. Percebe naquele instante que sua carreira chegara ao fim…)

— Ah, é? Danem-se também aqueles que concedem prêmios literários segundo possíveis ganhos que um escritor qualquer lhes possa oferecer! Prêmio pra amiga que trabalhou no Governo? Fodam-se! Pra mocinha que é orientanda de uma ex-orientanda naquela Universidade na qual fingem ensinar? Fodam-se! Prêmio pro queridinho que vai lhes ofertar gordurenta bolsa-sanduíche em renomada Instituição Cultural da Europa, da Cochinchina? Querem convite com tudo pago pra umas palestrinhas, né? Querem cachê? Danem-se! Fodam-se! Ah, estão ofendidinhos, é? Fodam-se! Leitores? Vocês? Que leitores? Cambada de cornos, filhos duma égua caolha, semianalfabeta e manquitola, isso sim!

(A plateia começa a vaiar. Um senhor muito bem vestido se descabela, sobe nas cadeiras, gesticula os braços e grita com o escritor. Alguns críticos do momento desconfiam de que o súbito dândi se aproveita para lançar obra de fôlego…)

Seu ressentido!

— Agora eu sou um reles ressentido? É? Sou, sou sim, seu canalha, porque o ressentimento é o espelho da minha doença, vidro partido que reflete o avesso da fisionomia dessa legião inconsciente…

(Para e respira, observando o público. Abaixa a cabeça, olha os braços machucados pela fricção das cordas. Sorri e murmura, qual ventríloquo gago do próprio discurso…)

— Ressentimento é o pesadelo que resta de alguma subjetividade…

(Ergue o rosto e aponta para todos.)

— Eu não preciso de vocês, corja de jericos! Se a TV propagandear que cheiro de merda é bom, amanhã todos estarão com a cara enfiada na privada! Seus, seus…

(Atiram-lhe objetos, os mais variados, de celulares a tênis. Os donos das livrarias imagéticas da Feira sorriem, antecipando lucros. E colocam as obras mais volumosas nas gôndolas da frente.)

Vão pra…

(Ao tentar se desviar de um poema mais pesado, o romancista escorrega e se enforca nos fios, marionete de si, morrendo em seguida. Fãs desavisados veem na cena a melhor e mais bem acabada obra daquele escritor cujo nome lhes vai escapando. Faxineiros arrastam o corpo e passam um pano de chão na baba do autor. Trinta segundos de um lascado sertanejo universitário. O curador anuncia a mesa seguinte.)

CENA 4
(Mesa literária 92)

 

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