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outubro 2015 / Fora de sequência / Os livros do escândalo (1)

Texto publicado na edição #185

Os livros do escândalo (1)

A grande inveja que eu tenho dos eróticos cuja expressão é o próprio erotismo! São estes os verdadeiros mestres do […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

A grande inveja que eu tenho dos eróticos cuja expressão é o próprio erotismo! São estes os verdadeiros mestres do mundo físico, os executores perfeitos de uma espécie de metafísica das altas obras onde se resume, para mim espectador, toda a espécie de moralidades.
A cona de Irène – Louis Aragon

A bela cortesã que escreveu Contos de Genji, no século 11, teria sido a primeira romancista do mundo, segundo reivindicam os japoneses orgulhosos das narrativas eróticas de Murasaki Shikibu, escritora number one a gozar da liberdade de escrever livremente, entre outras curiosas liberalidades do Japão clássico (onde tabus sexuais, mais tarde, só poderiam ser, mesmo, uma espécie de moralismo importado).

Um lema de tônus modernamente milleriano como, por exemplo, “sexo e estômago”, seria perfeitamente compreendido na era Heian (749-1184) e na era Kamakura (1185-1333), evidentemente antes do contato estreito do chamado “País do Sol Nascente” com as hipocrisias do nosso Ocidente-velho-de-guerra, quando só então os antigos leitores de Shikibu passariam a se sentir mais ou menos escandalosos (nada mais oportuno do que lembrar, desde já, o fato do já antigo filme O império dos sentidos ter chegado à vizinha China somente há poucos anos — e que o filme de Nagisa Oshima percorreu a Europa nas primícias da liberação (?) dos anos 80, como se o encaixe de um ovo cozido nas “partes femininas” fosse algo, digamos, por nós ainda não imaginado, ó “inocentes”!).

O que se quer insinuar aqui é o tema de um Japão que sempre foi mais antípoda cultural — nosso e dos seus vizinhos asiáticos — em muito mais do que expressões artísticas franca e frequentemente “eróticas” (para não dizer pornográficas), enquanto nós patinhamos, praticamente a perguntar, ainda, o que são de fato erotismo e arte “suja” – ?? — um pouco como se o corpo não pudesse ser ouvido sem algum conceito cristão enfiado na mente ocidental pudibunda (a “bengala” das palavras de Aragon).

O Ocidente conhece, aliás, mais as palavras do que as verdades. “Escândalo” (e quem ainda se “escandaliza”???) foi uma que, desde a primeira tradução inglesa da Bíblia, ficou comparecendo em quase todos os sermões dos séculos seguintes, apertada entre o moralismo da época do rei James e o eco do mundo judaico primitivo de mistura com a “mensagem nova”, bebiba no meio essênio e demais sociedades talhadas na rocha, pouco dispostas a aprovar o Cântico dos Cânticos e outras passagens mais francas do mesmo santo Livro.

Nossa moral veio daí — e tudo se tornou pecado debaixo do sol a queimar “a carne rejeitada” de Paulo, Antão, Agostinho e uma fila de padres menos votados. Por bem e por mal, no confessionário e nas fogueiras da Inquisição, aprendemos a sufocar e reprimir a sensualidade o mais possível, trancando o conhecimento do corpo na jaula repressora daquela cristandade medievo-escatológica muito bem descrita no filme O sétimo selo, de Ingmar Bergman. A mudança — na era do supostamente não-escandaloso etc. — entretanto permanece mínima no fundo do mais de fundo de certos território que nos perturbam — porque, de fato, ainda não alijamos o receio, atávico, da sexualidade como linguagem ou como via de ascese transposta dos limites do erotismo burguês para o clima dos antigos festivais orgiásticos eleusinos, capazes de salvar as civilizações “doentes de palavras”.

Para quem quiser entender diferenças sutis (erótico, pornográfico etc.) o agora já velho livro de Bataille O erotismo talvez tentasse apenas nos esclarecer mais sobre (falsa?) inocência do que sobre a virtude ao contrário que se lê, quase monotonamente, em coisas como História de O, Madame Edwarda e Divinus Deus — numa época em que Paris se agitava com polêmicas a respeito do lançamento de livros malditos, filão editorial aberto por Jack Kahane e logo seguido — com menos ou mais timidez — por Jean-Jacques Pauvert, Alexander Trocchi e Maurice Girodias (filho do “desbravador” Kahane e editor de gosto bem mais duvidoso, na escolha do catálogo da sua Olympia Press).

Pauvert começou por editar o melhor Sade — que sempre pareceu o pior, para a crítica da margem direita (igual à que começou a mostrar a cara mais abertamente, neste Brasil desconcertante que “avança” para trás, alegremente, no meio da segunda década do século 21) —, recolado em circulação por Girodias, naquelas edições inglesas da sua especialidade.

(CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO)

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