Ensaios e Resenhas

junho 2017 / Ensaios e Resenhas / Os deuses da alegria

Texto publicado na edição #206

Os deuses da alegria

A poesia solar de Geraldo Carneiro também abriga um núcleo pétreo de solidão e perplexidade

> Por ANTONIO CARLOS SECCHIN

Ilustração: Geraldo Carneiro por Fábio Abreu

Ilustração: Geraldo Carneiro por Fábio Abreu

Machado de Assis, no capítulo V de O alienista, narra que, para fugir ao regime de terror imposto em Itaguaí pelo Dr. Simão Bacamarte, os habitantes da cidade tentam conquistar as boas graças de Dona Evarista, esposa do médico. Para tanto, tratam de adulá-la em torneios poéticos que hiperbolicamente a elevam aos píncaros da perfeição.

Dissecador da alma humana, Machado arremata:

D. Evarista fazia esforços para aderir a esta opinião do marido; mas, ainda descontando três quartas partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma.

A fim de que o recém-acadêmico Geraldo Carneiro não incorra em excesso no pecado da soberba, eu me limitarei, portanto, à quarta parte não das louvaminhas, mas das justas considerações que sua obra suscita: para entender o bom criador, um quarto de palavra basta. Por isso, não me deterei, neste autor multiliterato, na faceta do letrista de mais de duas centenas de canções, em parcerias com Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, Francis Hime, entre outros. Tampouco me estenderei em considerações acerca de sua celebrada contribuição à nossa teledramaturgia, que lhe valeu, em 2011, o Prêmio Emmy Internacional pela adaptação de O astro. O humor é marca de sua produção, presente tanto na prosa quanto na poesia, temperadas por uma sofisticada autoironia.

Conforme vemos, a arte de Geraldo se divide, ou melhor, se multiplica em várias frentes. Excluídas a parcela musical, a televisiva, a cinematográfica, a dramatúrgica e a infantil, o restante — que é muitíssimo — já seria suficiente para inflar seu espírito, fazendo-o desprender-se daqui, leve, volátil, e suavemente deslocar-se para outro lugar, Belo Horizonte, e retroceder a outro tempo, 23.671 dias atrás, até pousar em 11 de junho de 1952. Nascia Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro. Relevo um fato curioso relativos à sua data natalícia: ela registrou o recorde da mais baixa temperatura de todos os tempos no Brasil — 14 graus negativos, em Caçador, Santa Catarina, o que não deixa de contrastar com a futura poesia quase sempre ensolarada do autor.

Como esta é uma Casa que estatutariamente zela pela literatura brasileira e pela língua portuguesa, tampouco posso me abster de recordar a etimologia de seu nome. Geraldo significa “o senhor da lança”, o guerreiro que se expõe. Eduardo, o guardião do tesouro, da riqueza; portanto, não é o que avança, mas o que retém. Tal movimento pendular entre a permanência do que se guarda e a expansão do que se projeta condensa-se no signo “carneiro”, que, se de um lado, remete ao animal doméstico abrigado no espaço de uma propriedade rural, por outro aponta a amplidão cósmica de uma constelação boreal, Carneiro, também conhecida por Áries. Poeta é aquele que abraça a palavra e a protege, como o guardião Eduardo, porém o faz para liberá-la mais tensa e intensa na ponta de seu verso ou lança, como o guerreiro Geraldo. É quem torna pública a potência da palavra íntima, numa perpétua dádiva ao outro.

Minas, literariamente, se compõe num amálgama entre o minério e o mistério, espaço das profundezas minerais e das profundidades do espírito. Tal tensão entre a solidez e a evanescência traduz a maneira mineira de ser. “Noventa por cento de ferro nas calçadas/ oitenta por cento de ferro nas almas”, escreveu Drummond. Cariocamente solar, a poesia de Geraldo, não obstante, abriga um núcleo pétreo de solidão e perplexidade. O vate dionisíaco, o navegante de corpos e de belos horizontes, é igualmente o menino em quem ainda hoje ressoam os sinistramente belos versos de Cruz e Sousa, decorados na infância — “Que é feito dos teus risos cristalinos?!/ Caveira! Caveira!! Caveira!!!”. Ele é também o jardineiro que cultiva a secreta flor do naufrágio, presença clandestina sob a superfície de uma poesia ancorada na celebração dos encontros e na suposta segurança do cais.

Anos loucos
Aos três anos, a contragosto, deixou o estado natal para radicar-se no Rio de Janeiro. Parte de sua adolescência se encontra narrada nas deliciosas páginas do livro, de 1996, Leblon — crônica dos anos loucos, entenda-se: décadas de 1960 e 70, anos de chumbo da repressão política, anos da distensão dos costumes, propiciando uma eclética salada de engajamento e hedonismo a que Geraldo se atirava com esplendor, fúria e amor. Marx e Eros foram as estátuas eretas em seu íntimo altar.

O Leblon “objetivo”, a história do bairro, se comprime em cinco páginas do capítulo inicial. Na sequência o autor adverte: “o leitor ávido de informações fidedignas/…/ a partir deste parágrafo, só encontrará fragmentos de crônica irresponsável, cambiante como as fases da lua e confiável como as promessas do governo”. Assistiremos, então, às ousadas investidas de Geraldinho, na travessia intrépida de um Leblon repleto de minas, não os artefatos explosivos, não as Minas Gerais, de onde ele proveio, mas conforme a décima terceira acepção que o dicionário Houaiss atribui ao vocábulo. “Mina: mulher jovem ou adolescente”.

Igualmente ótima e exígua já havia sido a biografia Vinicius de Moraes, a fala da paixão, publicada em 1984 na Coleção Encanto Radical, da Editora Brasiliense. Oitenta e nove páginas que, para permanecermos fiéis à memória do poetinha, prazerosamente se leem de um só trago. Sobre a relação entre os poetas e o álcool, o biógrafo destila pertinentes comentários: “Se eu fosse proprietário da James Buchanan & Co., meu sonho dourado seria fornecer bebida para uma taberna frequentada por Vinicius de Moraes, Edgar Allan Poe, Dylan Thomas e Malcom Lowry…”. Em outro passo, com argúcia, Carneiro ressalta a importância do poeta carioca no resgate da temática amorosa, abandonada e achincalhada pelo patrulhamento vanguardista. Afirma: “O lirismo persiste. Mas, muitas vezes, a poesia musical de Vinicius escapa à feroz egolatria da poesia tradicional, (…) assume o eu indiferenciado da fala amorosa”. Sim, porque o poeta é um impostor: quando diz “eu”, não está necessariamente falando de si, mas dando voz a um personagem que o representa ou não. Quase tudo que, com acuidade, o biógrafo detectou na poesia do biografado poderia ser transposto para o lirismo do próprio Geraldo: ele, sob certos aspectos, é o grande herdeiro do legado viniciano.

Apesar de sua obra poética haver sido compilada, em 2010, num alentado volume de 462 páginas, preferi percorrê-la nas publicações originais, não por fetiche bibliofílico, mas pelo simples motivo de que, às vezes, a primeira edição contém informações suprimidas nas posteriores. Unicamente em 2002 constou, da Lira dos cinquent’anos, menção ao nome de Cora Rónai, na inusitada função de “superego poético”. Os estudos de Sérgio Sant’Anna, Silviano Santiago e Nelson Ascher, integrantes das edições princeps, não comparecem no livro de 2010.

Sua obra se iniciou em 1974, com Na busca do sete-estrelo, classificada como “ópera de cordel”, quando o autor ainda se assinava Geraldo Eduardo Carneiro.

A reverência e a irreverência frente aos clássicos, processados pela peculiar dicção da modernidade, marcam forte presença em Verão vagabundo, de 1980. Carneiro desenvolve com mestria um confronto desabusado entre o muito antigo e o hipercontemporâneo. Com precoce e vasto conhecimento dos principais autores gregos, ingleses, franceses, lusos, italianos e brasileiros, o escritor os dessacraliza pelo viés do humor. A erudição se desveste da pompa, reciclada pelo que o poeta denomina “eros-dicção”. De modo explícito ou tangencial, cerca de uma vintena de textos do panteão literário desfila sob as luzes desse Verão, a exemplo de meus oito anos, educação sentimental, olhos de ressaca, parapsicologia da composição.

Larápio de si mesmo
Em cubanacan, ele revela o desejo de viver dolentemente “estilo piquenique/ em Xanadu”. Seu terceiro livro, de 1988, se apropria desses versos de 1980, intitulando-se Piquenique em Xanadu. Geraldo, às escâncaras, é notório e reincidente larápio de si mesmo, mas deixa perceptíveis os vestígios de seus autofurtos, e por isso conta com infinitos, imortais anos de perdão. Ao longo da obra, duas, três ou mais vezes vai confessar-se um “fauno sem après-midi”; vai contemplar as “galas da galáxia”; travestir-se de Orfeu; encarar o “luto do absoluto”; declarar sua “insigne insignificância”.

Mesmo anunciado no título, o “piquenique em Xanadu” acaba não ocorrendo: nenhum poema o registra. Decerto não por falta de companhia, mas talvez pela dificuldade de acesso ao local do evento. Também desejado e remoto — ou talvez desejado porque remoto — é outro topos edênico em sua poesia: Shangri-La, substantivo em cuja última sílaba se insinua um advérbio — lá — , que desloca perpetuamente para longe — para lá — a promessa de um inalcançável paraíso.

O texto final do livro, manu çaruê registra a aventura apocalíptico-surrealista de um personagem tragado por um computador, e a seguir lançado à cena da primeira missa no Brasil (por isso há versos em latim e tupi); depois ele ressurge no morro de Santa Marta, para, ao cabo, transformar-se em anúncio de néon. Revela-se o talento de Geraldo no manejo do tom farsesco a serviço de um relato que rompe a linearidade cronológica e a contiguidade espacial. Tal espécie de texto vai retornar em publicações subsequentes, quase sempre alocado como peça final dos volumes.

É o que verificamos em Pandemônio, de 1993, cujo poema derradeiro, homônimo do livro, estende-se por dez páginas, com a tresloucada história de Judite Salomão, ou Judy Jungle, mulher ligada ao comércio de drogas e pactuária do diabo. Proliferam colagens e paródias nessa narrativa do submundo, já a partir do verso 1, em que o poeta evoca e traduz uma de suas obsessões, o início do Finnegans Wake, de James Joyce, “riverrun, past Eve and Adam’s”, transformado em “Rioverão, pós Eva e Adão”.

Em Folias metafísicas, de 1995, na peça o grafito do inferno, Geraldo logra a proeza de piratear dois poetas ao mesmo tempo:

Lasciati
Ogni Speranza
Voi Che
Entrate

Pura pirataria, com a apropriação total do famoso verso 9 do canto III do Inferno, da Divina comédia, de Dante Alighieri. Porém, ao transcrevê-lo verticalmente, Carneiro cria outro poema, pela astuciosa configuração espacial do verso, fragmentado em quatro segmentos, cujas letras iniciais formam o acróstico LOVE, maliciosamente associando o amor aos tormentos infernais. O segundo autor pirateado foi o próprio Geraldo, pois esses quatro versos, idênticos, foram furtados de um longo poema, comédia, do livro Verão vagabundo. Até nas orelhas da obra o vate faz pilhagem de si, ao reaproveitar em prosa um texto seu antes estampado em versos.

Como nas duas publicações anteriores, o livro se encerra por uma peça longa e anômala ao padrão poético do conjunto. Trata-se de apocalipse, que, no certeiro comentário de Nelson Ascher, “reencena a famosa Revelação de São João num linguajar de funkeiro de morro carioca”, no “mais profundo estrato de pura oralidade”. Cito o começo: “eu, João, seu brother velho de guerra, tava um domingo na ilha quando ouvi atrás de mim uma voz possante feito uma trombeta”.

Folias metafísicas dispara alguns dardos. Um deles, fortuna crítica, dirigido a certo poeta presunçoso: “sonhou sonhos de poder & glória/…/foi morar num palácio do Parnaso/…/ não passava de um novo-rilke”. O alvo preferencial, todavia, é Olavo Bilac, a ocupar uma seção inteira do livro (I’ll be like Bilac), num total de nove poemas; no primeiro, a confissão de uma improvável inveja geraldiana: “quisera ser poeta parnasiano/ desses que domam deusas e quimeras”; no último, a pergunta: “to be or not to Bilac”, com incisivo desfecho: “BILAC: CALIB/ quase anagrama de Caliban”.

Peripécias de Camões
A prática do poema longo e híbrido nos gêneros dramático e narrativo ocupa a totalidade do livro subsequente, publicado no ano 2000: Por mares nunca dantes. Obra épico-burlesca, relata as peripécias de ninguém menos do que Luís Vaz de Camões, que, inadvertidamente, cai num buraco negro e desembarca no Rio de Janeiro de hoje, onde vive rumorosas aventuras e desventuras. Grande desafio: recriar a voz do poeta maior da língua. Tarefa propícia ao virtuosismo de Geraldo, à vontade na urdidura de impecáveis decassílabos heroicos, à moda camoniana, mesclados à distensão do verso livre, à informalidade do léxico e da sintaxe das ruas, tudo sob o tempero de um desenvolto humor. Em movimento reverso, nosso poeta, depois de imitar Camões, não hesita em fazer Camões imitá-lo, colocando na boca do bardo português versos de sua lavra: “é daqui mesmo que eu te conheço?/ não? Então de que outro lugar será/ que eu não te conheço?”. Como se fosse pouco, Camões ainda recita Shakespeare em tradução do próprio Geraldo: “pareces feita da pequena parte/ de perfeição que há em cada criatura”.

Por fim, pelos mesmos insondáveis mecanismos e sortilégios com que aportou no Brasil, o poeta português é subitamente devolvido ao Cabo das Tormentas, de onde se extraviara, num trecho de rara bela plástica e melódica:

agora ouvia o canto das esferas
palavras navegadas nunca dantes
onde antes era só algaravia
agora via o sol das não estrelas,
a caravela ao sul da Via-Láctea
o sopro de outras praias epopéias
soprando a caravela e suas asas
por sorte ou sortilégio das palavras.

Em 2002, vem a lume a Lira dos cinquent’anos. Sem abdicar do veio irônico, intensifica-se em Geraldo a linha meditativo-introspectiva. Cito, colhidos em diversos poemas: “sultão da solidão sempre serei/ à espera da sereia e seus cantos/ emaranhado nesse mar de espantos/ vivendo só às custas dos meus sonhos”; “espero um mínimo de lucidez/ na dança dos meus ventos invernais,/ embora isso pareça-me improvável/ por falta de navio, âncora e cais”.

É de 2006 a coletânea Balada do impostor. Nela, amor/humor compõem dupla mais amarga, conforme se lê em “reciprocidade — “o amor /desfaz/ a noção/ do tempo./ o tempo/ desfaz/ a noção/ do amor” — e em “o tal total”: “o amor é o tal total que move o mundo/ a tal totalidade tautológica /…/ e as nossas mágoas ficam revoando/ como se revoltadas ao princípio/…/o cais, o never more, o nunca mais/ o tal do és pó e ao pó retornarás”.

Na Balada, não por acaso, o tópico do naufrágio, a que me referi no início desta fala, atinge seu maior grau de incidência, presente em seis poemas, dos quais extraio um verso-síntese: “sou eu na vastidão dos meus naufrágios”.

Em autorretrato, lê-se: “hoje me reconheço mais nos outros/ poetas que frequento desde sempre./ a face deles segue imperturbada/ enquanto eu sofro as erosões do tempo”. Reconhecer-se nos outros. Quem sabe a poesia de Geraldo Carneiro não aspire a elaborar um mosaico pessoal composto dessas “pequenas partes de perfeição” que há em cada poeta?

Finalmente, em 2016, publicou a antologia Subúrbios da galáxia. Dimensionando nossa insigne insignificância de suburbanos cósmicos, Geraldo deixa entrever que, na escala galáctica do universo, o homem não passa de um reles vira-láctea.

À guisa de bônus, o livro se conclui pela inédita, anárquica e antropofágica Fabulosa jornada ao Rio de Janeiro, um “rap-rapsódia exaltação” aos 450 anos desta cidade, texto em que o poeta desconstrói os mitos heroicos de sua fundação, revelando as agruras e os prazeres vivenciados pelo narrador-protagonista, o português Brás Fragoso, habitante no século 16 de uma terra carioca então sujeita a saraivadas de flechas perdidas.

Num poema, Geraldo declarou: “só me interessam os deuses da alegria”. É bom imaginar que agora eles aqui estejam, iluminando o poeta, iluminados por seus versos.

Bem-vindo. Brasileiro, mineiro, ele é igualmente, e desde muito, um grande poeta carioca.

No epílogo deste discurso, para homenageá-lo, procurei uma frase que pudesse reunir e resumir seu amor à música, à cidade, aos jogos de linguagem. Por isso, só me resta dizer: o Rio de Carneiro continua lindo; Rio de janeiro, fevereiro e 31 de março.

NOTA
Discurso de recepção a Geraldo Carneiro na Academia Brasileira de Letras, em 31 de março de 2017.

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