Ensaios e Resenhas

julho 2020 / Ensaios e Resenhas / Os bons companheiros

Texto publicado na edição #243

Os bons companheiros

Mark Twain expressa o valor da liberdade e o horror à escravidão mesmo que suas personagens se valham de expressões e atitudes racistas

> Por Marcos Hidemi de Lima

Ilustração: João Paulo Porto

Ilustração: João Paulo Porto

Ao reler as histórias de Tom Sawyer e Huckleberry Finn (na verdade, tive contato com adaptações destas obras, algo muito comum cerca de quatro décadas atrás) foi como se tivesse entrado num túnel do tempo e tivesse reencontrado comigo mesmo lá pelos meus 11, 12 anos. Idade em que as aventuras contadas nos livros encantavam pelo seu poder de evocar fatos mirabolantes. Idade em que leitores ávidos por aventuras travavam contato com as personagens de Monteiro Lobato, Júlio Verne, Mark Twain nas bibliotecas públicas de então. Naquela época, parecia que o mundo era rodeado pelas peripécias protagonizadas por Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, tia Nastácia, Miguel Strogoff, capitão Nemo, Axel e Otto Lidenbrock, dr. Fergusson, Tom Sawyer e Huck Finn, entre tantas outras.

Levando em conta os comentários acima, fica tranquilo afirmar que Emília, capitão Nemo e Tom Sawyer — para ficar só com três bons exemplos — compõem uma espécie de panteão de personagens que vem fascinando o público mirim e adulto há gerações e gerações. Na realidade, essas figuras ultrapassaram o espaço ficcional e transformaram-se praticamente em pessoas com as quais todos nós nos identificamos e desejamos sair porta afora para vivenciarmos suas proezas.

Entretanto, se adotarmos um ponto de vista no qual predomine apenas o politicamente correto, torna-se complicado termos em alta consideração tais personagens. Eis alguns exemplos. Uma ou outra figura do Sítio do Picapau Amarelo emprega dizeres preconceituosos contra tia Nastácia. Tom Sawyer e Huckleberry Finn — garotos brancos protagonistas dos romances escritos por Mark Twain — também apresentam falas racistas quando tratam de Jim, companheiro de aventuras da dupla.

Não significa, vale a pena frisar, que exista aqui a adoção de uma ótica condescendente em relação a ações excludentes contra os desvalidos em geral, endossando práticas nada louváveis. Apenas se destaca a necessidade de olhar o outro lado da moeda: tais romances — com mais ou menos características excludentes — expressam a cultura e o pensamento da época na qual foram escritos. Obras deste feitio não devem nem podem ser censuradas. Convém, na verdade, que aprendamos com elas para não incorrermos nos mesmos erros do passado. Afinal, a literatura “age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa com ela — com altos e baixos, luzes e sombras”, como postula Antonio Candido.

Os três aventureiros
Mergulhar no universo das personagens Tom Sawyer, Huck e Jim dos livros do escritor Mark Twain As aventuras de Tom Sawyer (The adventures of Tom Sawyer, 1876), As aventuras de Huckleberry Finn (The adventures of Huckleberry Finn, 1885), As viagens de Tom Sawyer (Tom Sawyer abroad, 1894) e Tom Sawyer, detetive (Tom Sawyer, detective, 1896) — apresentados pela Nova Fronteira num box com três volumes — é levar o leitor, jovem ou adulto, a saltar na atmosfera da vida norte-americana de meados do século 19, às margens do rio Mississippi, seguindo a ótica de dois garotos brancos e de um adulto negro.

Como os títulos indicam, há mil e uma peripécias vividas pelas três personagens, e as façanhas do trio não ficam restritas ao espírito que oscila entre o urbano e rural da fictícia cidadezinha de Saint Petersburg, onde boa parte dos fatos ocorre no primeiro livro. No segundo volume, é quase o tempo todo dentro do próprio Mississippi que transcorrem as venturas e desventuras de Huck e Jim, até que ambos chegam ao Arkansas, onde conhecem tio Silas e tia Sally, parentes de Tom. Ausente ao longo de quase todas as peripécias vividas por Huck e Jim, Tom só aparece nos capítulos finais da narrativa.

Neste mesmo ritmo de encantamento do público infantojuvenil, em As viagens de Tom Sawyer, do Mississipi o trio embarca num balão nos Estados Unidos, cruzam o Atlântico e vão parar em terras africanas, com direito, entre outras coisas, a caravanas, tempestades de areia no deserto do Saara e as pirâmides egípcias. Pela rápida descrição aqui apresentada, não há como não se lembrar de Cinco semanas num balão (1863), de Júlio Verne, que serve como modelo para este livro de Mark Twain.

No último volume, desta vez protagonizado apenas pelos dois garotos, as ações voltam a ocorrer no Arkansas, onde vivem Silas, Sally e os filhos — tios e primos de Tom Sawyer — que são auxiliados pelos dons de Sherlock Holmes do sobrinho numa história envolvente de roubo e assassinato na qual tio Silas se vê envolvido.

Como facilmente se pode constatar na sucinta apresentação dos romances, Mark Twain aposta numa receita de sucesso junto ao público leitor ao optar por narrativas que abordam viagens a lugares exóticos e assassinatos que necessitam da argúcia dos protagonistas para serem solucionados. Até aí nenhuma novidade. É a fórmula de tantos romances de peripécias da época e dos dias atuais. Porém, eis o diferencial: no lugar de personagens adultas, entram as figuras simpáticas de dois meninos brancos, espertos e malandros, e um negro, às vezes pintado como ingênuo, meio infantilizado, conforme os estereótipos de então relacionados ao escravo, noutras ocasiões, como um sujeito que faz tiradas geniais.

Com o primeiro ingrediente (“viagens”), o escritor norte-americano promove o maltrapilho Huck a narrador de três dos quatro livros. No segundo e quarto volumes, é pela ótica de Huck que o leitor passeia ao longo dos recantos quase inexplorados do rio Mississippi ou vive certa atmosfera no continente africano que lembra as maravilhosas narrativas de As mil e uma noites. O outro ingrediente das aventuras vividas pelo trio relaciona-se a assassinatos. É a temática de Tom Sawyer, detetive, cuja narrativa também é feita por Huck, espécie de dr. Watson do companheiro de traquinagens. Também é um assassinato o assunto em torno do qual gira o primeiro livro que apresenta, pela ótica de um narrador onisciente, Tom e Huck pela primeira vez aos leitores.

Como se percebe na rápida descrição acima dos acontecimentos que caracterizam os volumes, de um lado, o ar de aventura predomina e, como entretenimento tanto para o público infantojuvenil quanto para os demais, funciona muito bem. De outro, existe também a reflexão sobre a escravidão e o racismo, fazendo que estas narrativas ultrapassem o indicativo de obras destinadas à diversão descompromissada e sejam elevadas a uma literatura que toca na eterna questão da liberdade, que é capaz de comover pessoas de todas as idades.

Infância e escravidão
Em Notas sobre as traduções, Alexandre Barbosa de Souza, o tradutor de As aventuras de Tom Sawyer e As aventuras de Huckleberry Finn, observa que “no momento dessas narrativas de aventuras, […] a escravidão dos negros era uma prática legal nos territórios americanos desde a Declaração de Independência de 1776, e pode-se dizer que o racismo praticado pelos personagens brancos contra negros e índios era considerado normal e aceito pela sociedade americana da época”. Um pouco antes da passagem citada, o tradutor transcreve trecho da autobiografia de Mark Twain na qual o escritor explica que, na sua meninice, não tinha consciência da escravidão, pois era uma situação interiorizada por todos como natural no cotidiano dos habitantes do sul dos Estados Unidos em meados do século 19. Porém, quando os leitores vivenciam as peripécias de Tom e Huck — personagens inspiradas em colegas de infância do autor —, captam uma posição antiescravagista e antirracista do escritor percorrendo as narrativas mesmo com ações e termos depreciativos dirigidos a negros e índios, tidos como hábitos rotineiros da época.

A primeira alusão depreciativa a um negro ocorre em As aventuras de Tom Sawyer. Isto sucede no antológico capítulo em que tia Polly castiga Tom obrigando-o a caiar a cerca da casa. Tom malandramente convence os amigos a fazer o trabalho que deveria ser dele. Obviamente, Jim, escravo da tia, também não escapa da artimanha de Tom. Neste volume, o menino escravo é designado como “pretinho” — tradução que atenua o ofensivo “the small colored boy” do original. Todavia, interessantemente, o narrador ressalta que Jim é ludibriado por Tom porque “era humano”, compensando a linguagem preconceituosa pela admissão de que o escravo não se inscrevia no plano animal.

A linguagem empregada pelas personagens que compõem o universo destas narrativas de Mark Twain funciona como elemento fundamental de distinção de classes sociais a que cada uma pertence. Em As aventuras de Huckleberry Finn, uma explicação antes do primeiro capítulo destaca que o livro emprega vários dialetos: o dos “negros do Missouri; a forma mais extrema de dialeto das florestas do Sudoeste norte-americanos; o dialeto cotidiano de ‘Pike County’; e quatro variantes modificadas deste último”. Huck emprega o “Pike County” para contar as ações vividas por ele e por Jim, transformado em escravo fugido ao abandonar a sra. Watson, sua proprietária. Mesmo considerando Jim como amigo, Huck não deixa de usar expressões depreciativas ao se referir a ele. A mais comum é “nigger”, considerada extremamente ofensiva nos dias atuais, traduzida geralmente por “escravo” nos quatro volumes da Nova Fronteira.

Para contrabalançar o preconceito de Huck expresso nas falas, há uma passagem em que, mesmo temendo ficar conhecido como “maldito abolicionista”, ele promete não entregar Jim à proprietária. Outra, mais interessante, Huck sofre uma crise de consciência por cooperar na fuga do escravo: “Bem, devo dizer, eu também estava tremendo e febril só de ouvir ele [Jim] falar, porque comecei a pensar na minha cabeça que ele já estava livre — e quem era o culpado disso? Ora, eu mesmo. Eu não conseguia tirar isso da minha consciência, de jeito nenhum”. Porém, mesmo angustiado pela lógica escravagista, Huck mantém a palavra dada ao amigo.

Homem livre, Jim ainda continua sendo alvo de expressões racistas e atitudes de desvalorização por parte de Tom e Huck em As viagens de Tom Sawyer. Mas importa observar que Jim novamente tem papel de destaque, o que o põe no mesmo grau de importância dos dois garotos embora seja negro, pobre, falante do “dialeto dos negros do Missouri” e não apareça no primeiro e último volumes das aventuras de Tom e Huck.

Nestes quatro livros para os públicos infantojuvenil e adulto, a lição que fica é que Mark Twain expressa o valor da liberdade e o horror à escravidão mesmo que suas personagens se valham de expressões e atitudes racistas e preconceituosas. Não poderia ser diferente, uma vez que o escritor não podia nem tinha como fugir ao usos e costumes do tempo de sua meninice vivida num país ainda escravagista.

 

 

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Todas as histórias de Tom Sawyer e Huckleberry Finn
Mark Twain
Trad.: Alexandre Barbosa de Souza e Bruno Gambarotto
Nova Fronteira
784 pág.

O AUTOR
Mark Twain
Nasceu Samuel Langhorne Clemens (1835-1910) e exerceu diversas atividades: tipógrafo, mineiro, soldado, piloto de vapor, pintor ambulante, jornalista, palestrante, etc. Mas foi na literatura que seu nome se consagrou definitivamente. Além dos quatro romances com as aventuras de Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Jim, o autor escreveu vários outros livros, entre os quais se destacam O príncipe e o pobre (1881), O roubo do elefante branco (1882), Um ianque na corte do rei Artur (1889) e O diário de Adão e Eva (1904-1906).

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