Ensaios e Resenhas

fevereiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Olhares de Silviano

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

Olhares de Silviano

Ao explorar vários campos do conhecimento, a antologia 35 ensaios de Silviano Santiago nos liberta do espírito colonizado e colonizador

> Por Carina Lessa

O crítico e escritor Silviano Santiago

O crítico e escritor Silviano Santiago

Italo Moriconi acaba de organizar a antologia 35 ensaios de Silviano Santiago. Reconstruo a frase de Arthur Rimbaud, que abre o ensaio Genealogia da ferocidade: o escritor mineiro tem a chave do desfile selvagem brasileiro e o empreendimento de Moriconi evidencia tal afirmativa. Antes de continuar o elogio ao organizador e ao ensaísta, começo pela referência a um fragmento do Sermão da epifania (1662), de Padre Antônio Vieira. Nele, com o objetivo de erguer a defesa de suas ideias em torno da escravidão, declara: “Para que Portugal na nossa idade possa ouvir um pregador evangélico, será hoje o Evangelho o pregador. Esta é a novidade que trago do Mundo Novo. O estilo era que o pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do pregador. Não sou eu o que hei de comentar o texto: o texto é o que me há de comentar a mim”.

Padre Antônio Vieira acentua o fato de que a perspectiva da descoberta de novas terras, novas estrelas, novos mares e nova gente se fundamenta nas antigas escrituras sob a reflexão do próprio evangelho. Observe: a reflexão do evangelho, não do pregador ou do próprio Deus cristão. Com isso, enfatiza a ideia de que tudo já havia sido criado e faz o agraciamento dos portugueses como escolhidos para tirar as terras da escuridão, ressaltando que, porém, deveriam entender que era preciso lançar mão de novas igrejas e de novos conceitos. Declara ainda que negros e índios não poderiam ser condenados à escravidão por terem nascido mais próximos do sol. É certo que, do ponto de vista religioso, Padre Antônio traz a ideia de domesticação dos “gentios” por meio da fé cristã, mas, juntamente, possuía a crença de que tal justificativa se dava como libertação — o que motivou a incansável luta contra a escravidão dos índios e dos negros africanos, deixando em 1661 o Estado do Maranhão por fortes reações contrárias ao seu discurso.

Trago rapidamente Padre Antônio Vieira como um ponto de interseção da nossa literatura a ser reconstruído a partir do conceito de “entrelugar” proposto por Silviano Santiago. Um jesuíta que, hoje, pode representar um olhar enviesado para os processos de colonização entre Portugal e Brasil e que, no decorrer da vida, em seus quase 90 anos, foi incansável em confrontar os interesses de ambos os países e povos. Repito: “Não sou eu o que hei de comentar o texto: o texto é o que me há de comentar a mim”. Com essa afirmativa, marcado pela excelente retórica, aponta o dedo como algoz de si mesmo. Estaria ele apontando o homem, o jesuíta ou Portugal? Ao se entenderem como escolhidos por Deus, os portugueses assumem a palavra do Evangelho como intérpretes do poder soberano, como Criadores do Novo Mundo. Quando o Padre se oferece ao questionamento da palavra, problematiza a ideia da criatura no lugar entre a diferença e a semelhança. As terras já haviam sido criadas, já haviam criaturas. Não deveria ser novo também o olhar para o Novo Mundo?

O primeiro ensaio da Antologia de Italo Moriconi é o seminal O entrelugar do discurso latino-americano, que compõe a primeira divisão denominada Geopolíticas da Cultura. Transcrevo o último parágrafo:

Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e agressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão — ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e o seu lugar de clandestinidade, ali se realiza o ritual antropófago da literatura latino-americana.

Sob essa perspectiva de Silviano Santiago é que repenso os textos do escritor português, culturalmente também formado pelo Brasil.

Sigo Moriconi e adentro o segundo caminho de leitura intitulado Literatura brasileira & outras: crítica e história. Se antes pensávamos a cultura, chego aos questionamentos em torno das tentativas de construção identitária e, mais uma vez, privilegio a brasileira. Chego ao ensaio Alegoria e palavra em Iracema, no qual o autor reclama o contrato de José de Alencar com uma formação da lenda em que jaz “a alegoria do nascimento do Brasil, da civilização brasileira”. Uma espécie, como ele diz, de aperto de mão entre colonizador e colonizado que ignora o tratamento psicológico dos personagens. Salta para Silviano Santiago, como pedra preciosa de um excelente minerador, a palavra pyguara: o verdadeiro presente que oferece “no seu aspecto significativo, múltiplas ressonâncias que deveriam ser adivinhadas pelo leitor”.

Pyguara significa senhor do caminho, segundo a explicação de Alencar em “Carta ao Dr. Jaguaribe”: “Aquele que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho”. Teria José de Alencar, em sua tentativa constante de formação da identidade brasileira, nos ensinado o verdadeiro caminho? As reflexões de Silviano Santiago já nos dão pistas de um enfrentamento falso e perigoso. Temos uma história de um português com uma índia (que morre) e deixa um filho denominado Moacyr: filho do sofrimento. Um fruto que não se realiza entre “a obediência e a rebelião”, mas antes pelo processo unilateral de submissão aos desejos do colonizador, demarcado, inclusive, no momento em que Iracema entrega o licor da jurema ao Martim.

Outras visões
Carrego a pedra do mineiro, passo por Camões e Drummond: A máquina do mundo e chego em Retórica da verossimilhança: Dom Casmurro. Neste, o ensaísta é firme e preciso ao nos apresentar, já em 1968, uma chave de leitura sobre a obra machadiana, na qual a argumentação a partir da verossimilhança nos envereda pelo questionamento de nossa condição de seres humanos. Há um projeto no qual a invenção do ciúme pelo narrador-personagem sai vencedora e condena Capitu ao lugar da traição. Sob o viés da verossimilhança, se o leitor se deixa enredar, segundo Silviano Santiago, se deixa tragar pela esfinge, porque acreditaria na veracidade da traição. Aceito as chaves do ensaísta e comparo Dom Casmurro ao Mil rosas roubadas, repensando a verossimilhança a partir das teorias contemporâneas de performatividade discursiva. Estamos diante de duas narrativas que tratam do ciúme como condutor de desencontros amorosos. No entanto, como o romancista mineiro produz uma narrativa de um biógrafo-biografado, quer ser justo. Sabemos que não houve traição, o processo de fabulação nos é entregue. A partir da descrição psicológica de Zeca, podemos nos perguntar: não teria este assinado o contrato de confabulação? O narrador de Santiago é altruísta, estende seu coração ao garimpeiro (Zeca) a quem dedica total liberdade no jogo amoroso. O biógrafo-biografado condena-se no projeto de verossimilhança. Volto ao Dom Casmurro e o leio a partir do enclave sempre proposto pelo ensaísta: não existiu traição, mas não teria Capitu alimentado o “monstro” da verossimilhança? (Provoco aqui uma pausa de reverência ao ensaísta que lê os romancistas).

Como leitora disciplinada, chego à terceira parte denominada Crítica do presente e me adentro pelo ensaio O narrador pós-moderno. Começo pontuando sobre a leitura constantemente equivocada que se faz com os parâmetros de Walter Benjamim, sobre o qual Santiago se debruça ao longo das anotações. Benjamim serve ali de contraponto, como reflexo e alimento dos ideais do narrador paterno, memorialista, que muito nos teria a ensinar: acentua, dessa forma, apenas a ideia de narrador clássico. Observemos. Santiago não nega tal análise, mas nos redireciona o olhar para uma estética que está na arena dos narradores que se convencionou chamar de pós-modernos. São estes assinalados usualmente a partir da concepção de uma narrador que relata a própria experiência, que deseja falar dos próprios malgrados da guerra, da exclusão cultural e socioeconômica. Nasce daí, como objeto paralelo, o narrador que passa a se interessar “pelo outro (e não por si) e se afirma pelo olhar que lança ao seu redor, acompanhando seres, fatos e incidentes”, segundo ele, e não por um olhar introspectivo. Estaria ele então propondo que, ao falar do outro, estivéssemos falando de nós mesmos. Lembro aqui de Schiller que, em épocas também individualistas, nos afirmou: “Queres conhecer-te a ti mesmo, olha como agem os outros”. Pergunto de mãos dadas com o ensaísta: os escritores brasileiros contemporâneos estão de fato comprometidos com o outro ou, na verdade, consigo mesmos?

A pedra preciosa brasileira, negligenciada de alguma maneira por Alencar, chega leve na última parte idealizada por Italo Moriconi e se joga como objeto revelador e chave do universo de Santiago. Como senhor do caminho, será na conversa apropriada, numa relação de observação e escuta que, podemos dizer, chegamos em O livro sobre modernismo e na raiz do pensamento novo e inegável do mineiro. Silviano Santiago é o ensaísta e o romancista da conversa, que está “aberta ao desacordo interessante e frutífero”, como desvela epígrafe de Richard Rorty, no ensaio Ora (direis) puxar conversa!. Moriconi foi pontual ao nos apresentar a importância antológica do analista que se enviesa por vários campos do conhecimento e nos liberta do espírito colonizado e colonizador.

O ORGANIZADOR
Italo Moriconi
Doutor em Letras e pós-doutor em Comunicação, leciona na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Organizou, entre outras, as antologias Os cem melhores contos brasileiros do século (2000) e Os cem melhores poemas brasileiros do século (2001).

 

S_Santiago_livro

35 ensaios
Silviano Santiago
Org.: Italo Moriconi
Companhia das Letras
640 págs.

 

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