Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Olhar implacável

Texto publicado na edição #106

Olhar implacável

Há uma entrevista em que Nelson Rodrigues, o entrevistado, responde a todas as perguntas com uma única palavra: Dostoiévski. O […]

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Há uma entrevista em que Nelson Rodrigues, o entrevistado, responde a todas as perguntas com uma única palavra: Dostoiévski. O escritor russo, como irreverentemente (ou reverentemente?) aponta o teatrólogo brasileiro, parece ter sintetizado ao longo de sua obra monumental todos os sentimentos e dramas humanos. O curioso é que mesmo esta literatura tão intensa não conseguiu manter sua tradição nos domínios do comunismo. O século 20, que pode ser contado a partir da ascensão e queda do ciclo histórico comunista na hoje sepultada União Soviética, mostrou também o minguar paulatino de uma literatura que se aponta como absoluta e soberana. Em outras palavras, nem a tradição literária russa conseguiu se resguardar da opressão comunista.

Vários são os autores tolhidos em sua missão de continuar as reflexões intensas sobre a condição humana. No entanto, são Isaac Babel e sua trajetória quem melhor podem servir de exemplo a esta condição de oprimido intelectual. A leitura do livro Contos escolhidos, um alentado volume de mais de seiscentas páginas, mostra bem como se deu todo o processo.

Isaac Babel começou a escrever movido por inquietante necessidade de expressar seus sentimentos diante da miséria, da opressão, da discriminação e da solidão do homem comum. Russo de origem judia, tinha onze anos quando, em 1905, assistiu aos vários massacres de judeus no sul da Rússia. Começa a escrever contos, em francês, logo no ano seguinte. Toda literatura francesa — sobretudo Guy de Maupassant — irá marcar profundamente sua obra, uma obra construída a partir das dores sentidas na própria pele. Apesar de ser de uma família economicamente privilegiada, no cotidiano Babel vivia a discriminação que se fazia aos judeus na Rússia de seu tempo. Aliás, foi a condição de judeu que o impediu de se inscrever na Universidade de Odessa.

O curioso é que não há uma visão coitada dos judeus em toda sua obra. Ele absorve o humor comum à sua gente — um humor cáustico e implacável —, mas não se cansa de apontar a inutilidade de seus rituais nem deixa de denunciar o superior apego ao dinheiro, à fortuna. O judeu descrito por Babel, na miséria, busca sobreviver por meios de pequenas e intensas fraudes, sempre se justificando com a presença inevitável da fome. No entanto, na opulência, esse mesmo judeu também utiliza seu poder, muitas vezes usando de violência física, para aumentar seus ganhos.

O homem e suas ambições
Uma visão anti-semita? O leitor mais atento verá que não. A Babel interessava somente olhar o homem e suas ambições, não importando sua raça ou condição. Tanto é assim que sua cidade natal, Odessa, aparece no livro como um lugar encantador maculado pela ação de gângsteres judeus. E são judeus por terem eles o domínio econômico e social da cidade. Na Chicago dos anos de 1920, certamente, ele falaria dos italianos mafiosos.

Na seqüência da leitura este olhar implacável sobre o homem — e não apenas sobre o judeu — se mostra de maneira mais clara. E aí a vida de Babel mais se reflete em sua obra. Como forma de catarse à opressão financeira dos gângsteres de Odessa, deposita suas esperanças na Revolução Bolchevique de 1917 e até se oferece para lutar, como voluntário, no front da Rumânia. Da experiência, escreveu os contos de A cavalaria vermelha e começou a se tornar um dos mais importantes escritores do país. Seus contos do período, como já tinha feito antes ao ficcionar as memórias de soldados franceses, discutem a improcedência das medidas extremas. Os homens vão à guerra em nome de liberdades que, enfim, terminam não se realizando. Aos soldados são cobrados gestos heróicos na defesa de um ideal que, a rigor, não é deles. A Cavalaria Vermelha atua dessa mesma maneira. Estava em guerra. Defendia princípios vistos como maiores e em seu nome tudo era permitido.

O realismo de Babel, mesmo sem fazer uma literatura engajada, o levou a ganhar privilégios do regime comunista, como direito a passaporte, autorização para viajar para fora da Rússia e até uma confortável casa no campo. Seus textos demonstram simpatia pela sociedade depurada de castas e classes sociais, onde a regra se pauta pela igualdade. O sonho utópico termina por esbarrar na independência do escritor que ousa criticar o culto a Stalin durante o Primeiro Congresso de Escritores Soviéticos em 1934. Mas sua crença na reconstrução do mundo é tão intensa que, mesmo diante da possibilidade de se exilar em Paris, prefere volta para a Rússia. Banido e preso, pediu o direito de concluir sua obra, mas lhe negaram também isso. Foi fuzilado e teve todos os seus livros recolhidos pela censura.

Espécie de Graciliano
Embora afirmasse que a infância era seu maior legado e tenha se baseado muito em suas experiências pessoais, não há, a rigor, uma intenção biográfica em seus textos. Inicialmente seus contos tinham até um clima de crônica — os contos Odessa e O aroma de Odessa são mesmo crônicas —, no entanto, o rigor literário de Babel se sobrepõe ao gênero e logo também ele se desprende da necessidade de descrever realisticamente a vida. Não renuncia, é certo, ao dolorido tom imposto pelo real, mas funciona como uma espécie de Graciliano Ramos que só conseguia escrever sobre aquilo que via. E o que Babel enxergava era a seqüência de misérias que o novo regime não conseguia debelar, pois suas prioridades políticas exigiam as forças que deveriam ser canalizadas para a ação social.

A necessidade de revelar horrores sem macular seus vigilantes controladores, talvez tenha sido o motivo que levou Isaac Babel a longos períodos de silêncio. Publicava tão pouco que brincava dizendo que se tivesse que viver de literatura no Ocidente capitalista, teria mesmo que se tornar vendedor de gravatas. Como escrevia com muita agilidade, talvez de fato nunca tenha silenciado. Uma tese plausível aponta para um certo desânimo com sua condição de escritor premido pela falta de liberdade. Esta possível vasta produção pode ainda ter sumido no processo de seu banimento e conseqüente assassinato. Não há dúvida de que com a mulher, a filha e a mãe já vivendo no exílio, seria fácil para Babel não mais voltar para a Rússia. Mas ele voltou certamente movido pela esperança de que seu prestígio pudesse protegê-lo e até mudar o rumo da opressão.

Desse tumulto de vida nasceu a literatura de Isaac Babel. E que literatura é essa? Uma literatura intensa. Não poderia ser de outra forma. O que fica de mais inquietante depois da leitura é a certeza de que foi a censura imposta pelo regime comunista que matou a tradição literária da Rússia. Dostoiévski, Tolstoi, Gorki tiveram seguidores à altura, como Isaac Babel. Aliás, Babel acrescenta novos pontos de tensão à literatura de seu país, como a questão racial e a pluralidade cultural, daí sua obra saltar adiante e ir além da análise da alma.

No entanto, mesmo com toda esta grandeza sua escrita não conseguiu mudar o rumo inatural da vida na União Soviética.

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Isaac Babel

Nasceu em Odessa em 1894. Começou a escrever ainda menino. Teve seu primeiro texto publicado em 1913, o conto O velho Shloyme. Três anos depois, passa a escrever contos para o jornal Letopis, dirigido por Máximo Gorki. Passa a colaborar com várias outras publicações. Em 1923, publica o livro Histórias de Odessa e em 1926 A cavalaria vermelha. Escreveu ainda roteiros de cinema e peças teatrais. Banido pelo regime comunista, foi executado na prisão da Lubyanka no dia 27 de janeiro de 1940.

Isaac Babel_livro

Isaac Babel
Trad.: Cecília Prada
A Girafa
606 págs.